Vivemos a preparação deste XIX Capítulo Provincial em tempos marcados pela pandemia de Covid-19. Curiosamente, a expansão da nossa Ordem, em Itália, coincidiu com a chegada de Irmãos desejosos de servir nos lazzaretti, para onde eram “atiradas” as pessoas atingidas pela peste. Na obra “Os noivos”, Alessandro Manzoni, descreve do seguinte modo a dedicação dos Capuchinhos às vítimas daquela pandemia: «Naqueles lugares, eles eram supervisores, confessores, administradores, enfermeiros, cozinheiros, polícias, lavadores, tudo o que era necessário». Foi nesse contexto que, os Capuchinhos, começaram a ser chamados “frades do povo”.

Já em março deste ano, frei Mark Schenk, ministro provincial da província capuchinha de St. Conrad, com cúria em Denver, lembrou que «os Capuchinhos não são alheios às epidemias». E acrescentou: «Em certo sentido, nós existimos para épocas como estas».

Ora, se «nós existimos para épocas como estas», como vivemos estes últimos meses? E que faremos se tivermos de voltar a fechar as nossas igrejas e conventos por mais alguns meses ou até anos? Como viveremos a nossa vocação de “frades do povo”? Como subsistiremos? E as manifestações violentas, com um discurso anti-religioso, a que assistimos em muitos países do mundo, chegarão também até nós? Como nos posicionamos diante dos grandes desafios da bioética, da luta contra o racismo e pela proteção do meio-ambiente? E com que competências e com que estilos de liderança nas nossas fraternidades e paróquias?

Se as últimas décadas foram marcadas por profundas alterações sociológicas, os últimos meses foram tempos de edifícios eclesiais vazios que talvez ponham «simbolicamente em evidência o vazio escondido nas Igrejas e o seu possível futuro – se não fizermos uma séria tentativa de mostrar ao mundo um rosto do Cristianismo completamente diferente.» (Tomáš Halík)

A “virtualização das devoções” e a transmissão online da celebração dos sacramentos pode ser uma ajuda e, eventualmente, dar um toque de modernidade a uma pastoral de manutenção que ainda vai enchendo algumas igrejas e capelas – e que exerce forte atração sobre muitos pastores, inclusive jovens – mas não coloca necessariamente a fé em diálogo com o mundo real e a vida concreta das pessoas, «com o contexto onde a catequese se desenvolve» (Cf. Diretório da Catequese). É preciso muito mais do que isso. «Para odres novos, vinho novo» (Cf. Mc 2,22).

Nesse sentido, olhamos para este tempo como uma oportunidade. É possível, que alguns de nós, nos sintamos ainda tentados a opções e soluções do passado, reformulando ora os problemas ora os propósitos, mas adiando soluções. Essa é uma tentação muito humana. Mas não é evangélica. As “frases feitas” e ideologias com que tantas vezes encobrimos a nossa ineficácia e incapacidade de profecia, de pouco nos servirão nestes tempos novos e desafiantes em que a Igreja é chamada a ser, mais que nunca, “hospital de campanha”.

Regressemos, pois, com coragem, ao princípio da Bíblia e da vida: «Adão onde estás?» (Gn 3,9); «Caim, onde está o teu Irmão?» (Cf. Gn 4,9); «Que fizeste do teu Irmão?» (Cf. Gn 4,10). Estas são as primeiras perguntas que Deus dirige à humanidade e que dirige hoje, justamente a nós, Capuchinhos. Diante do sofrimento, da doença, da angústia, da solidão, da pobreza e da fome, do luto e da morte, de tantas vítimas da pandemia, «onde estás?». Só encontrando formas de nos mantermos próximos das pessoas, sobretudo nas periferias existenciais, essa massa anónima, por quem rezamos diariamente, poderá adquirir um rosto concreto e chagas que podemos e devemos tocar cada vez mais fundo.

Por todo o lado há, de facto, sinais evidentes de sofrimento e destruição, mas não podemos permitir que eles nos tirem «a alegria da esperança» (LS 244). A encíclica Laudato Si’ recoloca, assim, de um modo novo e assertivo, as questões fundacionais do livro do Génesis, apresentando uma visão ecoteológica que promove o cuidado e a cura das nossas relações com a criação, com Deus, connosco mesmos e com os outros. Ali, São Francisco de Assis, é apresentado como «o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade. [...] Nele se nota até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior.» (LS 10)

Foi, por isso, em boa hora, que o Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral, convocou toda a Igreja para a celebração de um Jubileu pela Terra e lançou um plano que procura envolver também as ordens religiosas numa jornada de sete anos em prol da sustentabilidade ambiental. Assim, consideramos, que esta encíclica pode ser, de facto, um excelente ponto de partida para o nosso diálogo e reflexão, pois ela toca transversalmente os grandes temas e desafios que a humanidade enfrenta e com os quais a Igreja quer dialogar a partir da sua experiência milenar e da sua doutrina social.

A Laudato Si’ fez-nos, ainda, retomar a leitura da homilia do Papa Francisco proferida na Eucaristia de início do seu pontificado (19/03/2013), onde nos desafia a, à imagem de São José, «com discrição, com humildade, no silêncio, com uma presença constante e uma fidelidade total», dotados de um sentido de profunda corresponsabilidade, sermos «guardiães da criação, do desígnio de Deus inscrito na natureza, guardiães do outro, do ambiente.»

Acreditamos nos valores do nosso carisma e cremos que ele ainda pode ser uma riqueza para a Igreja Portuguesa.

 

Frei Hermano Filipe de Jesus da Silva Rodrigues
Frei Fernando Gustavo da Silva Ventura
Frei Manuel Rito Dias