Franciscano, padre, compositor, poeta, biblista, sem medo do compromisso dos Movimentos, servindo com entusiasmo a Igreja através da sua Ordem – apesar das limitações de saúde que a vida lhe impôs - frei Acílio Mendes, natural da nossa Diocese, celebrou no último Domingo (15/07/2018) as suas Bodas de Ouro Sacerdotais na paróquia onde nasceu: Chão de Couce. O CORREIO DE COIMBRA foi até lá, de véspera, e entabulou uma encantadora conversa com ele.

 

«Cheio de fé e alegria»

50 anos ao encontro do Senhor e dos irmãos

50 anos depois, o mesmo cântico da entrada na celebração da Ordenação, voltou a acolher o frei Acílio na celebração das suas Bodas de Ouro Sacerdotais: «Nós vamos até Vós, Senhor, cheios de fé e alegria» (cântico composto pelo próprio). 50 anos com a marca da fé e da alegria do serviço e compromisso do padre que viu proibido pela censura o grito bíblico da Libertação próxima e que lançou a primeira Comunidade Franciscana Capuchinha em Timor-Leste.

 

Correio de Coimbra: frei Acílio, boa tarde, e obrigado por nos receber em pleno «Encontro de Família»! Já lá iremos ao Encontro, mas vamos começar pelo motivo próximo da entrevista, nas suas Bodas de Ouro Sacerdotais. Com que sentimentos vive estes 50 anos de Sacerdócio?

Acílio Mendes: São sentimentos muito interiores, porque sabemos que a vocação nasce a partir da Santíssima Trindade e, portanto, o Sacerdócio é uma ação de Deus em nós. Assim, ao completar 50 anos de Sacerdócio, posso dizer-lhe que os sinto como uma graça muito especial, um dom muito grande do Senhor, a Quem tudo devemos. Depois, é claro, que tem de haver a nossa correspondência, a nossa colaboração… E é um sentimento de muita alegria, porque foi uma vida muito cheia. Foi, está e continua a ser. Apesar das limitações, sobretudo da visão. Alguns interrogam-se como é que eu consigo até disfarçar, de algum modo, os limites que atualmente me atrapalham na celebração, na leitura… Sempre gostei muito de ler. O pouco dinheiro de que dispunha era para comprar livros! Agora, a leitura dos livros está muito limitada. Felizmente temos a tecnologia, os computadores… é com o tablet, colocando as letras do meu tamanho, que eu posso continuar a celebrar diariamente a Eucaristia e outros Sacramentos. Tudo isto é graça, dom, carícia de Deus.

 

Correio de Coimbra: Permito-me tomar como enquadramento das três próximas perguntas o refrão de um cântico que toda a minha geração cantou: «Meu povo, podes gritar: Está próxima a Libertação!»… Do ponto de vista social, hoje, passados 50 anos, a Libertação aproximou-se ou afastou-se?

Acílio Mendes: Como franciscano, fui sempre um homem de esperança! Mas também diria, com certa ironia, é preciso ter os olhos bem abertos para descortinar a esperança: não posso esquecer que esse cântico, composto nos tempos em que trabalhava no Movimento por um Mundo Melhor, foi, na altura, cortado pela censura. Mas é do Evangelho! São Lucas diz-nos que o Reino está a chegar, está próximo, «está no meio de vós». Descobrir esses sinais do Reino, como Jesus o anunciou, conseguir vê-lo a germinar num grão de mostarda ou numa pequenina semente não é fácil, porque nós somos atordoados pelo barulho da comunicação social, pelas «grandes» notícias e podemos esquecer que, na verdade, o Reino de Deus é diferente. Isso é dizer que o Espírito Santo não está engaiolado nem parado, mas ativo, e que não estamos a ver o mais importante, se nos limitamos a queixar-nos que isto está cada vez pior por causa de certos Trumps e Putins… Na fé, a partir da Palavra de Deus e da visão franciscana da vida, tenho uma visão otimista do mundo.

 

Correio de Coimbra: Do ponto de vista litúrgico, que cabimento teria hoje um cântico como esse?

Acílio Mendes: Devo começar por dizer-lhe que não faço a mínima ideia sobre que cânticos vão cantar amanhã na Eucaristia das Bodas de Ouro, porque entreguei isso plenamente nas mãos do Padre Arcanjo… Apenas dei uma sugestão: se cantarem o «Nós vamos até Vós, Senhor, cheios de fé e alegria», eu ficarei contente porque esse foi, há 50 anos, o cântico de entrada na minha «Missa Nova» aqui, em Chão de Couce… É um cântico simples, alegre, composto por mim antes de me ter tornado Sacerdote e continua cantar-se por aí. Os cânticos têm essa dimensão de estarem ao serviço da Liturgia e a Liturgia ao serviço da Fé e da Beleza, que é comunhão com Deus-Pai e com os irmãos. Mas uma fé que seja alegre. Havia, por exemplo, um cântico espanhol que eu adaptei, que dizia: «Deus é alegre e jovem»! Quando eu era catraio, seminarista menor, era o pároco, o Padre Manuel Maria Gaspar, já de avançada idade. Chamava-me a atenção, porque naquele tempo, a Missa começava com um versículo do Salmo: «Subirei ao altar de Deus, / ao Deus que alegra a minha juventude».

Isto rezado por um sacerdote idoso produz um impacto extraordinário, porque é um Deus que não nos deixa envelhecer e que nos mantém alegres e dinâmicos, apesar dos limites da natureza.

Cada cântico nasce num contexto concreto. E há cânticos para a Liturgia, para a pastoral catequética, para o compromisso social e político…

 

Correio de Coimbra: Ainda com o Refrão em mente, como vê o seu compromisso como jovem padre no Movimento por Mundo Melhor (MMM)?

Acílio Mendes: O Movimento internacional «Por um Mundo Melhor» é um de vários Movimentos que preparam o Concílio Vaticano II. Com quatro ou cinco anos de Sacerdócio, tive a graça de viver a tempo inteiro integrado nele. Na altura, Portugal estava completamente fechado, «amordaçado», a nível político e também a nível religioso. E eu, que ia a Roma a reuniões internacionais com sacerdotes, religiosas e leigos, e me encontrava com gente da América do Sul e do Norte, da Ásia, da África, da Europa… para mim era uma abertura ao mundo – dizia para comigo: «Ainda bem que não há só Portugal! Que há muitas outras maneira de viver a Fé, de celebrar, de evangelizar, de rezar, de apresentar Deus». Foram tempos tão intensos que, passados cinco anos, quis ir para Angola (onde tinha estado a orientar Cursos do Movimento, nos quais a PIDE também interveio…). Foi-me negada a entrada! África foi mais um tempo de abertura a outra cultura…Por exemplo, a festa de amanhã, dos 50 anos de Sacerdócio, em África teria pelo menos quatro ou cinco horas de celebração… A propósito, tenho dois recordes (mas não presidi a nenhum deles): uma missa na Europa de 12 minutos e uma missa de seis horas em África! O quer dizer? Que são duas maneiras completamente diferentes de celebrar a Fé. Outro exemplo: na antiga «Nova Lisboa», atual Huambo, uma vez celebrei com muitos jovens, todos à volta de um fogo. O fogo é muito importante para os africanos, e também é importante a nível pastoral, litúrgico, como linguagem simbólica da união, do Espírito, do entusiasmo… Depois da comunhão, quando eu, como bom europeu, me preparava para um momento de silêncio…, desencadeia-se ali uma dança com tambores e mais tambores… Outra maneira de dar graças ao Senhor!

Foram experiências que me enriqueceram imenso.

 

Correio de Coimbra: E que necessidades teríamos hoje de Movimentos ao estilo do Movimento por um Mundo Melhor?

Acílio Mendes: Eu acredito que o Espírito Santo suscita em cada momento da História da Igreja e das Humanidade os Movimentos mais oportunos. São os Movimentos que alimentam a Igreja e, como sabe, hoje há muitos Movimentos, em muitas direções… Nem todos a apontar para a transformação do Mundo!

 

Correio de Coimbra: Ainda que alguns – desculpe a interrupção – quase nos arrepiem...

Acílio Mendes: Sim, e por vezes, com muitos adeptos e de um conservadorismo muito grande. Mas é certo que em todos haverá valores, porque todos são suscitados pelo Espírito. E eu acredito muito na simbiose Movimento-Igreja, porque o Movimento tem que ser eclesial, é dentro da Igreja que há de exercer a sua atividade, dentro da Paróquia…, para o bem da Igreja e não para a consolação epidérmica de um pequeno grupo, mais ou menos à volta do próprio umbigo.

E alguns Movimentos podem cair na tentação de um beatismo muito supérfluo, que não vai à raiz do Evangelho, que é a conversão do coração aos irmãos. Celebrámos o ano passado os 100 anos de Fátima (eu sinto-me muito ligado a Fátima, porque Nossa Senhora de Fátima é minha Madrinha de Batismo, conforme um costume antigo que havia aqui na terra…). O que é Fátima? É conversão ao Reino e à oração, como expressão dessa conversão! É a construção da Paz. À luz da quela Fraternidade universal vivida por Francisco de Assis, não beatismo supérfluo…

 

Correio de Coimbra: Mas hoje, ao contrário do MMM, os Movimentos parecem ser muito mais «para dentro»…

Acílio Mendes: Eu diria que são diferentes. Mas também são outras circunstâncias. Naquela altura houve o Concílio Vaticano II; e o Concílio foi simultaneamente um Pentecostes, mas também um terramoto, porque abalou com muitas estruturas rançosas da Igreja. É o que está a fazer agora o Papa Francisco, indo ao coração do Evangelho, mostrando, através dos seus atos, o amor de Deus: arranjar balneários para os sem-abrigo, é função de um Papa?! É função de um cristão que se interessa pelos irmãos… A necessidade dos mais frágeis deve ser a nossa prioridade!

 

Correio de Coimbra: Sendo Franciscano Capuchinho, e tendo sido mesmo Superior Provincial da Ordem em Portugal, pergunto-lhe: Ainda há lugar no mundo de hoje para o carisma franciscano?

Acílio Mendes: Nos anos 50, o papa Pio XII teve um encontro com os chamados «Terceiros Franciscanos» (leigos, casais e jovens) e fez um longo discurso, em que falou da necessidade e urgência do carisma franciscano, ou como ele lhe chamava, «a visão franciscana da vida». Temos atualmente um Papa que, simbolicamente, optou pelo nome de Francisco. Dizem um Papa de profissão Jesuíta, de hábito dominicano, mas de coração franciscano! É uma síntese que tem o seu quê de verdadeiro... E ele deu-nos a Encíclica «Laudato Si’»! Falava-nos de Movimentos, pois aí está um Movimento para hoje, as causas da Criação, como o Movimento por um Mundo Melhor, naquele tempo, tinha as suas causas, as lutas próprias daquele tempo… Nesta Encíclica, o Papa abre e fecha com Francisco, e no meio tem dezenas de citações de Francisco de Assis. E veja como o famoso filósofo francês Edgar Morin, já nos noventa e tal anos, ateu, e como, quando saiu a Encíclica, dizia que esta poderia ser o ato número um de uma nova civilização, a civilização do cuidado, da ternura para com a Mãe Terra e da solicitude para com os pobres. Porque, se não conseguirmos mudar os nossos hábitos e voltar à simplicidade, esta Irmã, a Irmã Criação, sofre e morre. A causa ecológica é uma causa fundamental, que diz respeito ao Criador, pois cada criatura, diz o Papa Francisco, «é uma carícia de Deus». Veja, então, quão atual é o carisma franciscano! Nós devíamos ser pioneiros no cuidado pela Criação: uma ecologia global, total que abrace o Deus Criador, os outros, a sociedade, todas as criaturas. E veja aqui a ligação com a Bíblia: a Bíblia é uma obra maravilhosa. Abre com o Paraíso e fecha com um novo Céu e uma nova Terra! Daí ser o grande Livro da esperança do Povo de Deus! Infelizmente, durante séculos, a Igreja andou afastada da Palavra de Deus. Andou a beber de outras fontes…

 

Correio de Coimbra: E isso introduz-nos noutro campo da sua ação nestes 50 anos de Sacerdócio: o Movimento Bíblico. O que falta fazer em termos de formação bíblica do Povo de Deus?

Acílio Mendes: Muito! Mas, também, graças a Deus, já se fez muito. Nós tivemos a sorte de termos um Capuchinho espanhol, o frei Inácio de Vegas, que, dez anos antes do Concílio teve a «mania» da Bíblia. Era um homem simples que, no contexto da guerra de Espanha, veio para Portugal. Ele punha-nos a ler os Evangelhos (ainda não tínhamos a Bíblia completa, como hoje…). Mandaram-no para Beja (para ver se o calavam?!). Mas o Espírito Santo tem as suas surpresas, e é em Beja que nasce a Difusora Bíblica, a revista Bíblica. Isto dez anos antes do Concílio, em 1954. Teve a repercussão que teve! É claro que ficámos felizes com a «Dei Verbum», a Palavra de Deus, onde a Igreja vai buscar a seiva para frondosa árvore conciliar, para a «Lumen Gentium», para a «Gaudium et Spes»…A seiva está na «Dei Verbum», no encontro íntimo, pessoal, amoroso com o Deus de Abraão, de Isaac, o Deus da sarça ardente, o Deus do fogo, o Deus da brisa, o Deus de Jesus Cristo. Hoje já não estou na Equipa Bíblica, de que fui responsável durante muitos anos, a nível nacional, e fomos criando os Cursos Bíblicos, o Secretariado, as Semanas Bíblicas nacionais e regionais, os retiros bíblicos, os Encontros nacionais… Mas hoje as coisas também mudaram: já todas as Dioceses têm iniciativas próprias de formação bíblica, como os «Triénios da Palavra». Isso era impensável há 50 anos. E temos a alegria de saber que há leigos e leigas formados em Sagrada Escritura, um laicado como nunca tivemos! Isto, graças também aos Movimentos que, onde inserem, movidos pelo Espírito Santo segundo os carismas dos seus fundadores, rasgam caminhos novos, uns por um lado, outros por outro…

 

Correio de Coimbra: Está ali um cartaz que diz: «Bem-vindo ao Encontro Familiar» (que é o da sua família). Que importância tem a sua família concreta para si?

Acílio Mendes: O grande valor que meus Pais nos deixaram foi sempre, sempre a festa em família, tanto na oração diária, como nas festas, incluindo o Carnaval! A minha Mãe era muito alegre. Naturalmente, a vida levou cada um de nós para seu lado – éramos oito filhos, de que eu sou o mais novo – mas reuníamos sempre, todos os anos, no aniversário da Mãe. Depois que ela partiu para o Pai, em 1988, decidimos passar a reunirmo-nos uma vez por ano, oficialmente. Este é o 30º Encontro da Família. Primeiro, era apenas um dia, depois dois dias: ao sábado, com a partilha de farnéis, troca de prendas, jogos tradicionais; ao Domingo, mais simples, com uma Celebração da Eucaristia e o almoço num Restaurante!   Um irmão já partiu para o Pai, outros estão mais doentes… Mas aí estão todos esses sobrinhos e segundos sobrinhos… como vê, é uma alegria ímpar.

 

Correio de Coimbra: O que permanece no mais íntimo do frei Acílio: o músico? O poeta? O ativista na transformação do mundo? O serviçal da sua Ordem Religiosa? O evangelizador com a Bíblia na mão?

Acílio Mendes: Prevalece na missão do servir. Vivi em quase todas as nossas Fraternidades – também é uma grande riqueza poder viver durante alguns anos com diferentes Irmãos e numa comunidade cristã diferente. Recordo, por exemplo, a Baixa da Banheira, em Setúbal, nos anos da fome, dos salários em atraso… fizemos uma Missão de quinze dias, em que um dos objetivos era mesmo «fazer barulho», também para os cristãos darem um testemunho alegre da sua fé no Ressuscitado. Para a celebração final, convidámos as pessoas a trazeram tampos, tachos e panelas para fazer barulho… Foi um êxito. É o vendaval do Espírito! Ou o serviço na formação dos nossos Jovens, no Porto, o que não é «pera doce»… E agora estou na Fraternidade de Gondomar, numa ação mais pastoral. Para fazer uma ideia: umas 700 crianças e adolescentes na Catequese; 7 grupos corais, um dos quais com 80 membros; o grupo de Jovens «Chama»…, com enorme iniciativa e criatividade a nível litúrgico e a nível social, proporcionando às crianças mais pobres uma semana de férias na praia… É uma riqueza enorme. E o serviço das Confissões, porque Deus é um Pai que ama e perdoa… em Gondomar, estamos doze Irmãos, alguns dos quais timorenses. Quando fui Provincial, em 2002, sentimos a necessidade de nos questionarmos sobre a nossa vivência missionária. Os Timorenses conquistaram a independência em 2002. Em Outubro de 2003 estava constituída a primeira Fraternidade Capuchinha, em Laleia, na diocese de Baucau. Foi um importante reavivar da dimensão missionária, tanto a nível interno, como nas Paróquias ou Comunidades cristãs que animamos em Portugal. Como vê, no MMM, no Movimento Bíblico, na formação, na música… o lema é sempre servir. Recordo que a frase que escolhi para o «santinho» da minha Ordenação e Missa Nova era: «Senhor, eu segurei o vosso exemplo, / Eu serei servidor dos meus irmãos». Seguir Cristo, servindo, ao estilo de São Francisco de Assis. Porque «quem não vive para servir, não serve para viver».