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O frei Luís Leitão,
missionário em Angola, esteve em Taizé, em Setembro de 2001, e entrevistou o Ir. David
para a Revista Bíblica.
Bíblica:
Ir. David, uma breve apresentação.
Ir. David:
Sou o Ir. David, sou Irmão aqui da Comunidade de Taizé. Venho de
Portugal,
de
Portalegre, mais concretamente, e estou aqui há cerca de oito anos.
Bíblica:
Para uma pessoa que nunca ouviu falar de Taizé ou tem apenas uma vaga
ideia, como poderia, em síntese, definir Taizé?
Ir. David:
Para quem não sabe
nada, se calhar convém dizer que Taizé é antes de mais uma aldeia, é o
nome de uma aldeia francesa. Nesta aldeia, da Borgonha, existe uma
comunidade de homens, uma comunidade monástica de homens consagrados que
procuram ser uma parábola de comunidade, uma parábola de comunhão, ser
assim um sinal do amor de Deus na Igreja e no mundo. Uma Comunidade que
reza e que partilha a sua oração com muitos jovens que aqui vêm à
procura de um tempo de paragem nas suas vidas, de oração, de encontro
com Deus, consigo mesmos, com os demais. Assim, a Comunidade vai
organizando, semana após semana, encontros durante todo o ano e que
reúnem aqui nalgumas semanas até cinco, seis mil jovens vindos do mundo
inteiro, de 60, 70, 80 países diferentes.
Bíblica:
Para os jovens que acorrem aqui, quais são os grandes momentos de um dia
em Taizé?
Ir. David:
Para os jovens que aqui vêm, partilham as três orações comunitárias da
Comunidade (os três momentos ao dia em que os irmãos se juntam para
rezar), têm uma pequena reflexão bíblica de manhã, às 10.00 horas, com
um Irmão que anima e faz uma pequena introdução a um texto bíblico ou um
tema. Depois convida os jovens a continuar a reflexão em pequenos grupos
(de cerca de 10 pessoas de dois ou três países diferentes) e com algumas
perguntas e o texto bíblico assim partilharem as experiências
diferentes, pontos de vista diferentes, mas sobretudo partilharem as
suas esperanças, as suas questões, aquilo que procuram e assim talvez
ajudá-los a enraizar-se mais na tradição e na fé cristã e a encontrar em
Cristo um sentido para as suas vidas.
Bíblica:
Os Irmãos da Comunidade estão presentes na oração e na orientação dos
grupos. Como é ocupado o restante tempo no dia-a-dia?
Ir. David:
É isso mesmo.
Antes de mais as orações, as três orações comunitárias, o almoço em
comunidade, todos juntos. Procuramos organizar o dia de forma a estarmos
suficientemente disponíveis para as pessoas que aqui vêm, jovens e menos
jovens (porque os encontros se alargam também a grupos de adultos e
famílias), portanto uma disponibilidade para estar com essas pessoas que
aqui vêm, para as acompanhar, para as ouvir, escutar, não tanto para dar
conselhos (para dizer que devem fazer isto ou aquilo), mas, antes de
mais, para apoiar a sua procura, a sua caminhada. Depois temos o nosso
trabalho. A Comunidade vive exclusivamente do seu próprio trabalho;
temos as oficinas, a olaria, a tipografia, esmaltes, coisas de trabalho
manual, que vendemos depois numa pequena loja/exposição que temos aqui
em Taizé e é exclusivamente disso que vivemos; portanto, há uma parte do
dia dos Irmãos que tem de ser dedicada a esse trabalho; e depois há
também os tempos de estudo, de oração pessoal, de partilha.
Bíblica:
Taizé é uma Comunidade ecuménica. Isso é visível na
oração. A nível da Comunidade, não tem aparecido, entretanto, problemas
de convivência entre os Irmãos por motivos religiosos?
Ir. David:
A Comunidade nasceu nesse desejo ecuménico, nessa procura de
reconciliação entre os cristãos de forma que o testemunho dos cristãos,
esse testemunho de amor seja mais transparente e verdadeiro e possa
assim ser mais fermento de reconciliação e de paz na família humana, na
Europa e no mundo. Mas hoje, aqui em Taizé, falamos mais de
reconciliação que de ecumenismo. Há muitos jovens que aqui vêm (e a
palavra ecumenismo é uma palavra para muitos distante) que muitas vezes
ou não sabem o que é ou quando sabem é uma coisa distante que não lhes
diz respeito, concretamente à sua vida quotidiana; falam ou da
aproximação de diferentes religiões ou quando falam concretamente da
unidade entre os cristãos, que compreende o sentido de ecumenismo, é uma
palavra que permanece longínqua porque dizem que é para pessoas que têm
autoridade, para teólogos, para bispos, para pessoas que possam ter
autoridade na Igreja, mas que à vida pessoal deles não lhes diz muito.
Por isso, hoje nós falamos mais de reconciliação e a reconciliação
começa em cada um de nós, começa em cada pessoa, em cada irmão, em cada
jovem; a procura de reconciliação com aqueles que estão à nossa volta,
na família, no trabalho, na escola, nos estudos. E da parte dos Irmãos é
isso também: é procurar reconciliar-nos, antes de mais com os Irmãos,
viver reconciliados, lembrando-nos sempre das palavras de Cristo “quando
vieres apresentar uma oferta ao altar e lá te lembrares que o teu irmão
tem alguma coisa contra ti, vai primeiro reconciliar-te com o teu
irmão”; não deixes para amanhã, não esperes até ao final da oração, mas
há uma urgência nessa reconciliação. E quando nós nos reunimos três
vezes por dia para rezar, estas palavras estão sempre presentes: vamos
para a oração em comunidade, vamos para a oração já reconciliados.
Bíblica:
Um dia haverá certamente a sucessão do Ir. Roger. É intenção da
Comunidade continuar a mesma dedicação, acolhimento, sobretudo aos
jovens, ou há sinais de que poderá evoluir noutro sentido?
Ir. David:
Penso que há uma grande continuidade em tudo o que a Comunidade tem
feito até agora e vai certamente continuar a fazer; uma continuidade que
não significa sentirmo-nos pessoas que já chegaram à meta, que já
encontramos o que queremos e aí fechar-se de certa forma em alguma coisa
já alcançada, mas, ao contrário, é uma continuidade sempre aberta,
procurando o que é que Deus espera de nós hoje, o que é que Deus espera
da Comunidade, como é que a Comunidade e os Irmãos podem responder em
cada dia aquilo que nos vai sendo solicitado, aquilo que Deus espera de
nós, portanto estar atentos aos sinais à nossa volta, estar atentos a
esses jovens, a essas pessoas que aqui vêm, como corresponder aquilo que
eles procuram, com ajudá-los na sua caminhada. Este acolhimento de
jovens que fazemos aqui em Taizé tem-se desenvolvido muito por uma
necessidade que sentimos, ao ver em tantas igrejas, pela Europa fora, e
ver tantos jovens deixar as igrejas. Muitas vezes são baptizados,
começam, depois para a catequese ainda ficam alguns e para a Primeira
Comunhão e depois do Crisma parece que há um deserto; nós não podemos
ficar indiferentes a essa ausência dos jovens: queremos, antes de mais,
ajudá-los, queremos motivá-los a encontrar um caminho na Igreja, a
compreenderem que é possível, que eles têm um lugar, que a Igreja conta
com eles e que é possível ter uma experiência forte de Igreja como têm
aqui e continuá-la nas suas paróquias, nas suas terras, nas suas
comunidades locais, e, nesse sentido, penso que haverá certamente uma
continuidade. Uma continuidade como eu disse não fechada, não é este
sistema que encontramos e será sempre assim, mas uma continuidade nessa
procura com aqueles que nos são confiados. Quanto à questão concreta do
que sucederá depois do Ir. Roger, evidentemente que é uma questão que
está preparada entre nós, mas por enquanto o Ir. Roger é o responsável,
o prior, o animador da Comunidade; quando ele não estiver, as coisas
estão preparadas para que haja essa tal continuidade.
Bíblica:
No final deste ano acontecerá o encontro internacional de Budapeste...
Ir. David:
Já há muitos anos que começamos a animar estes grandes encontros no
final de ano. Há já mais de 20 anos que começamos. Este ano será em
Budapeste, será o segundo encontro europeu em Budapeste. O primeiro foi
há 10 anos atrás, imediatamente a seguir às mudanças políticas que houve
na Hungria e havia grande entusiasmo na altura, havia uma grande sede de
liberdade. Antes o Ir. Roger, por exemplo, o tinha estado na Hungria,
mas não podia falar em público, não podia haver reuniões; estava na
igreja, discretamente, em silêncio. Quando houve a mudança, havia um
grande desejo das pessoas de conhecer algo diferente e muitas aderiram
com um certo entusiasmo inicial que depois arrefeceu; que levou alguns a
empenharem-se muito e a terem comunidades paroquiais muito vivas e
outros a saírem, a deixarem esse entusiasmo passageiro o que fez com que
as comunidades hoje, se calhar, são pequenas, muito participativas,
muito empenhadas, mas pequenas. Há uma grande necessidade, uma grande
vontade da Igreja em Budapeste de convidar outros, de ir ao encontro dos
outros, de partilhar esse tesouro que vivem com as outras pessoas que se
foram afastando. Nesse sentido, fomos sendo convidados há já algum
tempo, alguns anos, que jovens que vêm aqui e alguns responsáveis nos
têm pedido para voltar à Hungria. Este ano foi possível e o que
esperamos desse encontro é oferecer, antes de mais, à Igreja de
Budapeste essa possibilidade de acolher jovens vindos da Europa toda, do
mundo inteiro, partilhar a sua experiência, a sua vivência de fé, as
diferentes iniciativas que existem, procurar apoiá-los nesse sentido de
abertura, nesse ir ao encontro dos outros. Esta semana já vários Irmãos,
com a ajuda de jovens voluntários partiram para Budapeste; Segunda-feira
que vem (17/09) começa uma oração, que será diária, pelo menos até ao
encontro, no centro da cidade. Os Irmãos vão procurar visitar diferentes
comunidades, grupos, movimentos, escolas, universidades e convidar as
pessoas, os jovens de Budapeste, as famílias de Budapeste, a abrirem-se
a este encontro, a acolherem a receberem nas suas casas os jovens que
virão a este encontro. Convidamos os jovens a virem, a trazerem a sua
vivência de Igreja também e partilhá-la com as pessoas que os vão
receber em Budapeste.
Bíblica:
Quem participa pela primeira vez numa oração em Taizé é surpreendido por
um gesto simples, mas significativo: quando é proclamada a Palavra de
Deus, todos se voltam para o ambão, para a Bíblia. Qual a importância
que é dada à Bíblia na vida da Comunidade?
Ir. David:
A oração e a escuta da Palavra de Deus são talvez os dois grandes
pilares dos encontros aqui de Taizé e da vida dos Irmãos e é talvez essa
oração e essa Palavra que nos abrem depois ao próximo, ao irmão, à
família humana, e, assim, procurar viver a solidariedade, procurar ir ao
encontro dos outros, procurar partilhar essa Palavra, estar próximo das
diferentes situações; e então é isso que vamos partilhando com as
pessoas que aqui vêm. Na oração, como disse, a escuta da Bíblia, da
Palavra de Deus, tem um lugar central; procuramos marcar também as
diferentes etapas da oração: quando se vai ao ambão ler a leitura as
pessoas viram-se para o outro lado, viram-se para o ambão, deixam de
estar voltadas para o altar (como quando temos a celebração eucarística)
mas estamos voltados para o ambão e isso, de certa forma, é um pequeno
sinal, físico, mas que pode chamar-nos a atenção e nos diz agora vamos
ouvir, vamos receber a Palavra que Deus no dirige e depois da leitura
bíblica temos sempre um momento de silêncio para que cada um possa
assimilar, mastigar, pensar nessa Palavra. As orações reúnem muitas
pessoas de muitos países diferentes, que falam línguas diferentes; por
isso, muitas vezes é difícil ter um tempo de reflexão, um comentário,
uma partilha bíblica nas orações e fazemo-lo então de manhã, nos
encontros, que começam sempre com uma pequena reflexão bíblica, no
sentido de convidar os jovens a aprofundar, e, de certa forma, é uma das
coisas que eles podem continuar, quando saem daqui, é esse gosto pela
Palavra de Deus, esse gosto pela leitura da Bíblia. Têm aqui uma
experiência, que eles sempre dizem que é uma experiência muito forte,
nova para muitos, de pegar na Bíblia e de falar juntos. Muitos jovens
gostam de se reunir com os amigos no café e falar de futebol, de moda,
de actualidade e isso é bom e é importante e se calhar esquecem-se que
também é importante às vezes juntarem-se para falar de coisas mais
essenciais, de coisas que nos podem alimentar e ajudar a viver tudo o
resto, neste caso concreto, juntarem-se com um texto bíblico e
partilharem o que cada um pensa deste texto, o que é que este texto quer
dizer à minha vida concreta, à minha vida quotidiana, que mensagem
tirar, que é que Deus me quer dizer com estas palavras
Bíblica:
Na oração de Taizé, os Salmos ocupam lugar de destaque, para além de
serem os únicos cânticos acompanhados pelo órgão...
Ir. David:
A oração dos salmos é uma oração muito antiga, com uma grande tradição.
Já antes de Cristo as pessoas se reuniam para rezar com estas palavras;
depois Cristo rezou-as, foram orações que certamente Cristo aprendeu na
sua família. Essas palavras que tantos crentes rezaram ao longo dos anos
são hoje, para nós, fonte de oração e o salmo tem sempre nas orações um
lugar também especial. A oração aqui em Taizé é muito cantada, sabemos
que quem canta reza duas vezes, e o canto ajuda, apoia a oração; de
certa forma ajuda também a acolher melhor as palavras que cantamos:
pegar numa pequena frase e cantá-la 2, 3, 4, 5, 10, 20 vezes ajuda-nos,
se calhar na primeira vez ouvimos a palavra que não vem de nós, que vem
dum salmo, que vem da Bíblia, que vem às vezes de um crente que depois a
escreveu; e nós pegamos nessa palavra e primeiro lemos como algo que
vem do exterior, mas pouco a pouco vamos repetindo e a oração vai
descendo no nosso coração e torna-se pouco a pouco na nossa própria
oração e às vezes quando saímos da igreja continuam estas palavras. Toda
a oração é cantada, mas o salmo é muito especial na oração e por isso
tem, concretamente, o órgão, é cantado com versículos em várias línguas
(porque nem toda a assembleia pode compreender todas as línguas) e
assim cada um vai rezando com algumas palavras.
Bíblica:
Na ligação Bíblia-Vida, os Irmãos em Taizé têm algum método, algum
segredo para tornar a Bíblia tão viva para os dias de hoje?
Ir. David:
É uma pergunta que costumam fazer aos Irmãos e mesmo ao Ir. Roger,
concretamente acerca da Bíblia, mas também geral, acerca dos encontros,
se há algum método, alguma chave que se aconselha para interessar os
jovens desta forma a estudar a Bíblia, a rezar, a vir a um sítio destes;
e nós dizemos sempre que não temos nenhum método, não temos nada muito
organizado. Temos, antes de mais, uma grande simplicidade e uma grande
vontade de compreender as pessoas que aqui vêm; portanto que as pessoas
não cheguem aqui e que nós tenhamos a pretensão de ser mestres
espirituais, de dizer ‘é isto, é isso, é aquilo’, mas, antes de mais,
uma atitude de escuta, de compreensão, de ajuda, ouvir as suas questões,
as suas dúvidas e depois procurar apoiá-los. Muitas vezes não damos uma
resposta concreta às perguntas que nos fazem, tipo ‘2 e 2 são 4’, mas
damos pistas de reflexão para que cada um possa continuar essa procura e
possa encontrar ele mesmo a sua própria resposta. E nesse sentido é
verdade que vamos ouvindo muito as experiências de muitos jovens que
aqui vêm; e depois os textos que vamos apresentando e as próprias
reflexões que vamos fazendo são muitas vezes baseados nessa nossa
experiência, nesses comentários que ouvimos dos jovens. Às vezes fazemos
uma determinada reflexão e depois falamos com os jovens e eles
dizem-nos ‘houve isto e isto que me marcou muito, o resto, se calhar,
nem tanto’; depois exploramos essas ideias, ouvimos, falamos uns com os
outros, vamos vendo o que é que cada um foi vivendo, a experiência que
cada um teve no contacto com os jovens, mas, sobretudo, somos homens que
gostam de ouvir, que gostam de escutar e de compreender; e ao escutar e
compreender é verdade que somos muitas vezes inspirados pela
experiência das pessoas que aqui vêm e nesse sentido o que lhes propomos
é adaptado à experiência concreta deles, à vida deles. Não é algo que
nós imaginamos fechados num quarto e agora vamos inspirar-nos o que é
que vamos propor aos jovens desta vez, mas é o fruto do contacto que
vamos tendo ao longo dos anos e ao longo do ano, semana após semana.
Bíblica:
Por fim, algo que não tenha sido abordado e interesse realçar...
Ir. David:
Posso terminar com o que já foi de certa forma dito, mas de uma forma
mais clara é que em todos estes encontros e todo o acolhimento que nós
oferecemos aqui é algo de gratuito. Os Irmãos nunca quiseram guardar os
jovens que aqui vêm, ligados de certa forma à Comunidade. Nunca quisemos
formar grupos de Taizé ou um movimento de Taizé, porque há certamente
muitos grupos, muitos movimentos nas paróquias dos jovens que aqui vêm e
a nossa vocação não é tanto de criar mais um, mas de permanecer um
espaço muito simples de encontro, em que eles possam vir com as suas
questões e depois regressar. O importante não é tanto o que vivem aqui,
embora isso possa ser muito profundo e muito bonito para muitos, o
importante é a continuidade que eles podem dar ao regressar a casa e ao
conseguirem integrar-se e dar vida aos grupos que já existem nas suas
comunidades locais.
Taizé, 14 de
Setembro de 2001, 18.15 horas
fr. Luis Manuel Leitão,
Capuchinho, Missionário em Angola
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