<%@ Language=VBScript %> Ordem dos Frades Menores Capuchinhos

PAZ e BEM! Bem-vindo à Página dos Frades Missionários Capuchinhos

Página Principal


São Francisco Assis


Espírito de Assis


Porciúncula


Ordem Capuchinhos


Missão em Timor


Onde Vivemos


Espaço Jovem


Música


Apontadores


 
Vós sois o Sal da Terra!

Entrevista ao frei Matias Tavares, Vice-Provincial de Cabo Verde

O frei Danilson, um Irmão Capuchinho de Cabo Verde a estudar em Portugal, aproveitou a vinda do frei Matias Tavares, Vice-Provincial de Cabo Verde, para o entrevistar. É essa entrevista que aqui apresentamos.

Frei Danilson: Obrigado, frei Matias por teres aceite vir ao nosso studio (risos)

Frei Matias na ilha da BoavistaFrei Matias: (risos) Eu nem vou responder…

Frei Danilson: Olhando para ti, ninguém diria que és o Vice-Provincial. És muito novo. Quantos anos tens?

Frei Matias: Isso é curiosidade a mais. Mas não é difícil ver que tenho 38 anos. E, olhando para mim, se calhar ninguém diz que tenho a idade que tenho, porque já tenho os cabelos já todos brancos. E há muita gente com 50 que não têm. Alguns pintam… (risos)

Frei Danilson: Pois! (risos) Poderias, mais ou menos, fazer um apanhado histórico da Vice-Província de Cabo Verde, desde a fundação até agora?

Frei Matias: Sabes que quando se fala de um apanhado histórico, temos de mencionar datas etc. visto que a história tem de ser rigorosa. Mas aquilo que eu sei é que a Vice-Província começou, isto é, a presença capuchinha começou em 1947 quando por necessidade, o Bispo da Diocese na altura, Dom Faustino Moreira dos Santos, pediu a Roma que mandasse alguns missionários para socorrer a situação do povo de Deus em Cabo Verde, que era de facto lamentável. A Santa Sé fez então alguns contactos com a Cúria Geral dos Missionários do Espírito Santo que chegaram lá em 1941. Em 1943 chegaram os Salesianos em 1947 os Franciscanos Capuchinhos da Província de Piemonte, Turim. Chegaram lá não com o objectivo de implantar a Ordem, como se vê. Estavam para a missão e para o apostolado. Pouco a pouco, com o testemunho que foram dando também, foram aparecendo vocações locais que, inicialmente, eram encaminhadas para o Seminário Diocesano e por isso se explica que só mais tarde começaram a mandar os primeiros estudantes para Portugal e outros para a Itália, para se tornarem Capuchinhos, digamos assim. A Vice-Província surgiu em 1981 mas tinha poucos frades caboverdianos.

Frei Danilson: Quando os frades chegaram encontraram muitas dificuldades, era a primeira vez que estavam a enfrentar o clima enfim, a situação de Cabo Verde…

Frei Matias: Sim. Repara que em 1947, a Guerra tinha acabado dois anos antes. A situação de Europa era má. Imagina a situação em Cabo Verde. Tanto é que em 1940 houve uma grande fome e morreram muitas pessoas. É exactamente nesse contexto que chegaram os missionários. As igrejas estavam todas as cair, as Paróquias estavam sem padres e alguns padres que ali estavam já eram velhos, sem forças para trabalhar e sem nada organizado. Imagina a situação que encontraram. Depois é o choque também das culturas. Alguém que vai da Itália, parando algum tempo em Portugal para depois ir para Cabo Verde. E também no contexto colonial, os Missionários não podiam exercer livremente o seu apostolado, sobretudo as denúncias, quando os direitos do povo não eram respeitados. Era complicado, tinham certas restrições. Até o facto de pararem em Portugal não era só para aprenderem o português. Era uma forma também de os controlar. E, claro, chegando lá naquela situação, haviam choques e dificuldades que foram ultrapassando na medida em que se foram integrando na sociedade caboverdiana. Outro problema era o das epidemias ou doenças endémicas. Alguns missionários não escaparam ao paludismo e alguns morreram.

Frei Danilson: E estão sepultados em Cabo Verde?

Frei Matias: Sim, estão.

Frei Danilson: Neste momento, qual é a situação actual da Vice-Província? Em termos de irmãos…

Frei Matias: a situação actual, se contarmos todos os irmãos da Vice-Província, os de Profissão Perpétua e os de Profissão Temporária, com os que professaram mais recentemente, somos trinta e sete. Vinte e quatro já fizeram a Profissão Perpétua, dezanove trabalham neste momento em Cabo Verde.

Frei Danilson: Muito bem! Que trabalhos ou que funções desempenham lá?

Frei Matias: À nível pastoral temos a chamada “pastoral tradicional”, feita nasProcissão na Ilha de São Nicolau Paróquias. Desenvolvemos também outras formas de evangelização já mais modernas como a Rádio Nova e o Jornal Terra Nova. No campo da pastoral social, estamos empenhados no ensino chamado pré-escolar com mais de duas dezenas infantis, sobretudo nos meios rurais onde as pessoas têm menos possibilidades. Além de não existirem estruturas locais para jardins, as pessoas também têm dificuldades em termos de meios económicos para colocarem aí as crianças. Então com um sistema de adopção das crianças, digamos uma “adopção afectiva”, graças aos nossos colaboradores na Itália e graças também ao empenho do frei Octávio (responsável pelo Secretariado das Missões), temos conseguido manter tantos jardins. Ainda dentro do campo social temos o Centro Sócio-Sanitário São Francisco de Assis em São Filipe, Fogo…

Frei Danilson: Eu ia justamente pedir-te que falasses no Centro…

Frei Matias: Sim, o Centro presta um grande serviço, não só em termos de saúde mas também de acolhimento dos ex-leprosos que viviam na Casa Betânia, que tinha sido também fundada pelos Capuchinhos. Agora vivem no Centro. Quase todos estão curados mas agora precisam de apoio, sobretudo material. Não têm família, não têm condições para trabalhar, alguns são mutilados e, por isso, estão ali, onde recebem conforto e assistência.

Frei Danilson: o Centro Sócio-Sanitário parece ser um grande investimento. De que forma foi possível essa realização?

Frei Matias: Isso foi possível graças à iniciativa do frei Octávio Fasano, que é o Secretário das Missões dos Capuchinhos da Província de Turim, que sendo um grande conhecedor da realidade caboverdiana e também um grande amigo de Cabo Verde, graças aos contactos que ele tem na Itália e, sobretudo graças à generosidade das pessoas, foi conseguindo reunir meios para construir aquele hospital. Como se costuma dizer “Deus quer, o homem sonha e a obra nasce”. E, foi isso que aconteceu. A obra nasceu, teve um parto difícil e longo, ainda é criança mas está a crescer e esperemos que tenha uma vida longa.

Frei Danilson: Tem funcionado normalmente?

Frei Matias: Sim, tem funcionado mesmo com algumas dificuldades, principalmente
à nível administrativo. Mas funciona! Em termos médicos, funciona com o apoio do voluntariado, com médicos que vêm da Itália: dois ou três cirurgiões, que prestam um bom serviço às pessoas. Têm mesmo salvo vidas a pessoas que, se tivessem esperado pela cirurgia feita na cidade da Praia, ilha de Santiago, teriam perdido a vida.

Frei Danilson: Outro assunto que gostaria que comentasses é a cooperação entre a Província Portuguesa dos Frades Capuchinhos e a Vice-Província de Cabo Verde. Como é que tem sido?

Frei Matias: Se calhar, neste momento, não estou em condições de dizer como começou. Sei que os primeiros noviços vieram há quase vinte anos atrás. Em 1985 vieram quatro. Na altura era Vice-Provincial de Cabo Verde o frei António Fidalgo e o Provincial de Portugal era o saudoso frei António Monteiro que depois foi eleito Bispo de Viseu. Dos quatro noviços, dois saíram e dois são sacerdotes. Estes trabalham actualmente em cabo Verde. A partir daí continuou essa solidariedade fraterna que perdura até hoje e acho que é para durar mesmo. Quando hoje se fala tanto de solidariedade fraterna dentro da Ordem, de solidariedade económica e pessoal, isso já se pratica há muito tempo entre a Província Portuguesa e a Vice-Província de Cabo Verde.

Frei Danilson: Tem sido frutífera?

Frei Matias: Sim, sim! Basta ver que dois terços dos irmãos da Vice-Província fizeram a formação em Portugal. Para teres uma ideia, só por Cabanas de Viriato, de 1990 até agora, passaram vinte e tal noviços caboverdianos. Dos que iniciaram e terminaram são dezoito. Dos dezoito ainda estão quinze.

Frei Danilson: Dado que a Vice-Província começa a dar os primeiros passos com vista a uma autonomia formativa, digamos assim, essa solidariedade é para continuar?

Frei Matias: Esta solidariedade com a Província Portuguesa é para continuar porque está em nós, está no espírito da Ordem. Continua e continuará, mesmo que consigamos no futuro (esperemos que sim) ter todas as fases de formação nossa circunscrição. Essa solidariedade certamente continuará. Mas neste momento, de facto, porque também crescemos e é bom que isso aconteça, nós vamos ter mais uma fase de formação em Cabo Verde que é o noviciado. Enquanto for possível, o pós-noviciado continua, pelo menos uma primeira fase, a ser feito aqui em Portugal.

Frei Danilson: Quando hoje na Europa fala-se tanto de crise nas vocações, qual é a situação das vocações em Cabo Verde, tanto para os Capuchinhos como para as Congregações que aí estão?

Frei Matias: Essa crise, como se costuma dizer, existe. Existe para todos, existe na Europa mas em Cabo Verde também se começa a sentir essa crise vocacional. Se nós Capuchinhos, graças a Deus, não podemos queixar muito (seríamos mal agradecidos se disséssemos que não temos vocações), o mesmo não se pode principalmente em relação às Congregações femininas. Já se nota uma acentuada crise vocacional. E nós, se calhar, já é altura de começarmos a organizar melhor a pastoral vocacional. Quando digo organizar melhor, estou a referir-me a uma organização mais sistemática. Mas a melhor pastoral vocacional que se deve fazer é o testemunho que cada frade deve dar. Creio que a nossa pastoral até agora tem sido assim: as pessoas vêm até nós, por iniciativa própria, porque vêem alguma coisa em nós. Mas, se formos mais autênticos, mais frades, estou convencido que teremos mais vocações. Isto deve ser a aposta de cada frade. Cada um de nós tem de tomar consciência de que o futuro da Vice-Província, o futuro da Ordem em Cabo Verde, depende também de cada um de nós, do nosso testemunho. Creio que é a melhor pastoral que podemos fazer. Depois há que organizar nas nossas fraternidades, organizar de forma a acolher os jovens que vêm ter connosco. Se vão lá não nos encontram, ou nós encontram sem disposição para os acolher, é claro que vão fugir. Vão às nossas casas para encontrarem amigos, para partilharem experiências e, infelizmente, falta-nos essa mentalidade de parar um pouco, mesmo com muito trabalho pastoral. É preciso que saibamos acolher as pessoas. Eu acho que ter a capacidade de acolher é importante, é mesmo fundamental, tratando-se de jovens!

Frei Danilson: Neste momento temos muitos jovens em formação?

Frei Matias: Em Cabo Verde, nas duas casas de formação temos oito: quatro em cada casa. São quatro no pré-noviciado e quatro no aspirantado. Temos alguns, chamados aspirantes externos. O quadro é este. Já tivemos menos, já tivemos mais, agora temos estes.

Frei Danilson: À nível da Ordem, tu és daqueles que participaram no VII CPO (Conselho Plenário da Ordem). Podias contar um bocadinho da tua experiência?

Frei Matias: Sim o VII CPO, sobre a minoridade e a itinerância é quase que um complemento do VI que foi sobre a pobreza. Fui lá como delegado da nossa Conferência, a Conferência da África Ocidental. Éramos dois delegados: um congolês e eu. A experiência foi óptima! Estando um mês, ainda por cima em Assis, com toda a “estrutura pessoal” da Ordem aí presente (a Cúria Geral), com representantes de todas as Conferências dos Capuchinhos espalhados pelo mundo, é uma experiência que, se calhar faz-se uma vez na vida. Outro facto é o de termos discutido, com muita paixão mesmo, questões que nos dizem respeitam. O ir até às origens da nossa Ordem, para depois encontrarmos motivos para continuarmos a crer no projecto de fraternidade foi muito importante. No fim de tudo fiquei com a sensação ou com a certeza que a Ordem Capuchinha nasceu da reforma e continua a ser uma Ordem em reforma permanente. O VII CPO veio provar isso. Depois o documento final saiu. Pessoalmente gostei muito da estrutura do documento. Nós elaborámos e aprovámos umas sessenta proposições e perguntávamos sobre o modo como iam arrumar aquilo tudo. Mas depois saiu um documento até bastante leve, substancial no entanto, que no capítulo da minoridade e da itinerância, acho que traz quase tudo. Se quisermos viver o carisma franciscano, creio que temos aí “panos para manga”.

Frei Danilson: A opção de estar junto dos mais pobres, em Cabo Verde é ainda uma realidade?

Frei Matias: Continua a ser realidade! Em Cabo Verde as nossas casas são todas casas de periferia. Eu acho que é uma realidade, de facto, a opção de estar junto dos pobres mas há que mudar também. Muitas vezes a estrutura física está junto dos pobres…E a mentalidade, a nossa cabeça, onde é que está? Vou explicar melhor: nós continuamos a preocuparmo-nos com os pobres…Os Ministro Geral diz que uma coisa é ser pobre e outra é ser patrão dos pobres. Muitas vezes nós preocupamo-nos e dizemos que temos de ter coisas para dar…São Francisco, acho que tinha pouco para dar, não fez muitas estruturas, não tinha conta bancária para os mais pobres mas encontrou uma forma de ajudar os pobres: fazendo-se pobre com eles. Foi assim também a vida de Cristo. De rico que era, sendo Filho de Deus, fez-se pobre, isto é, fez-se um de nós. A kenosis de Cristo e a pobreza de Francisco deviam levar-nos a deslocar do centro para a periferia. Por centro entende-se o nosso comodismo, o nosso bem-estar. Vivermos como seres periféricos: quem vive na periferia vive na dependência e na vulnerabilidade mas confia! O que se passa connosco é que até nos privamos de alguma coisa porque não conseguimos ter tudo. Se pudéssemos ter tudo e não depender de ninguém, assim faríamos. Ás vezes há essa impressão porque nos angustiamos quando nos falta alguma coisa. A auto-suficiência não é propriamente uma característica de pobres.

Frei Danilson: Quais os desafios e as perspectivas para a Vice-Província de Cabo Verde?

Frei Matias: O grande desafio continua a ser o da formação, seja a permanente como a inicial. A Congregação para os Institutos Religiosos fala disso na instrução que saiu “Partir de Cristo”. A formação permanente é uma forma de pastoral vocacional. A formação, tanto a permanente como a inicial, devem ser a nossa grande aposta. É aí que os frades vão ter sempre de encontrar motivos para responder na fidelidade à sua vocação. Outros desafios: sobretudo continuar a servir o povo de Deus e depois a implantação da Ordem, que deve estar também na mente de todos nós porque, apesar de sermos Vice-Província, a Ordem ainda não está aí implantada. Temos de avançar e aumentar o número e a qualidade dos irmãos, apostando sempre na formação. Teremos de criar algumas estruturas de forma a diminuir alguma dependência. Temos que lutar sobretudo com os nossos meios, que serão sempre meios modestos mas que, dentro daquilo que são as nossas possibilidades e as do próprio país, os frades consigam, com o seu trabalho, ao menos o sustento. Não podemos ficar só na dependência, esperando que as coisas venham. Podemos continuar a estender a mão. Isso também é franciscano mas São Francisco dizia que isso era só quando os nossos esforços não conseguissem provir o necessário. Então podemos recorrer à mesa do Senhor. Mas, parece-me que temos de fazer mais esforços e depender menos dos outros.

Frei Danilson: Em jeito de conclusão, o que é que poderias dizer?

Frei Matias: Dizer aos frades que estão aqui na formação inicial que continuem com entusiasmo porque o futuro da Vice-Província e, porque não dizer, o futuro da Província de Cabo Verde é deles. E aos outros, a nós os mais velhos, que também o futuro depende daquilo que deixarmos ao mais jovens. Creio que nessa construção todos nós somos responsáveis.

Frei Danilson: Uma mensagem para os jovens portugueses que, certamente, irão ler esta tua entrevista…Pe. Zézinho dizia que “Se Jesus Cristo tivesse um microfone”. Tu tens a Internet… (risos).

Frei Matias: (risos) …O que é que eu posso dizer aos jovens? Que estejam atentos porque o Senhor chama, continua a chamar como sempre chamou e não deixou de amar os jovens. É preciso estar atento, é preciso que cada jovem, quando Jesus passar, esteja no seu lugar para poder ouvir. E depois, os jovens devem ter, neste momento, a atitude de Zaqueu. Temos demasiadas coisas que nos açambarcam, de forma que ficamos sem espaço ou sem visibilidade para ver alguém que passe. Zaqueu, que era de pequena estatura, teve de subir a um sicómoro porque tinha muita coisa a tapar-lhe a visão. Logo que subiu, então viu Jesus que o chamava. E Jesus chamava-o há muito tempo. Ele é que não ouvia porque estava açambarcado por muitas coisas. A sociedade de hoje também nos açambarca demais. É preciso termos a coragem de nos desligarmos um bocadinho das coisas para que possamos ver mais longe. Quanto mais longe estamos das coisas, maior é o horizonte!

Frei Danilson: Frei Matias, obrigado pela tua disponibilidade. E, já agora, como é que são os teus encontros com a comunidade na diáspora? (risos).

Frei Matias: (risos) …São encontros normais, de irmãos que têm um projecto comum e, quando encontro-os, não sou capaz de os ver de maneira diferente. Sou um irmão mais velho. Partilhamos preocupações e os encontros são sempre de festa, muito informais.

Frei Danilson: Trazes um abraço quente de trinta graus…

Frei Matias: Ah, isso sim! Faz falta esse abraço quente também para aquecer os corações (risos).

Frei Danilson: Frei Matias, muito obrigado, mais uma vez e volta sempre!

Frei Matias: Sempre não porque os TACV (Transportes Aéreos de Cão Verde) cobram demais (risos). Não dá para vir muitas vezes.

Frei Danilson: Frei Matias, um abraço para todos em Cabo Verde e até à próxima!

 

 
Página Principal | Capuchinhos em Portugal | Contactos | Ficha Técnica | Sugestões

© 2005 Ordem dos Frades Menores Capuchinhos (Portugal)