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Entrevista ao frei Fernando Alberto, missionário em Timor

O Jornal ELO, Boletim Paroquial da Bajouca (diocese de Leiria-Fátima), terra natal do frei Fernando, aproveitou a sua presença junto dos seus pais, antes de partir para Timor, para o entrevistar. É essa entrevista que aqui reproduzimos na totalidade.

ELO: Frei Fernando o que o levou a abraçar a vida de missionário Capuchinho? Há quanto tempo?

Frei Fernando: Não é fácil dizer o que me levou a abraçar esta vocação de frei Fernando Alberto, 42 anos, grande animador de Encontros Bíblicos em Portugal, agora o primeiro Guardião da Fraternidade de Laleia.Franciscano Capuchinho. É sempre o resultado de muitas coisas: sinais, acontecimentos, apelos, ambiente social e familiar... É, sobretudo, um mistério: o do chamamento de Deus, que chama quem Ele quer, quando quer, como quer e para o que Ele quer. Tentando entrar um pouco dentro dos modos como Deus fez chegar a mim esse chamamento, diria que foi um pouco à maneira do profeta Jeremias. Como ele, sinto que fui chamado já desde o seio materno, pois desde muito pequeno (não me lembro a idade) comecei a dizer que queria ser Padre. Nesse aspecto, a vida cristã exemplar da gente da Bajouca, da família e, sobretudo, dos meus pais, terá sido decisiva para desabrochar em mim o chamamento de Deus. Foi com emoção que um dia, já depois da ordenação sacerdotal, ouvi os meus pais dizerem que durante o namoro pediam a Deus a graça de terem um filho Sacerdote. A dimensão missionária e franciscana deste chamamento aconteceu com a Missa Nova do Capuchinho nosso conterrâneo Pe. Lino. Deveria ter então uns 9 anos, idade suficiente para compreender que Deus me chamava a ser sacerdote à maneira daqueles frades simples e alegres, e vestindo como eles aquele hábito pobre, como um dia o fez o jovem rico Francisco de Assis, despojando-se de tudo para seguir unicamente Cristo pobre e crucificado. Dando seguimento a este chamamento, com 11 anos, em 1972, fiz as malas e viagei até Barcelos, onde iniciei o longo percurso da minha formação missionária, que continuou depois em Gondomar e no Porto. Em 1980 fazia a "profissão religiosa" e vestia pela primeira vez o hábito de Franciscano Capuchinho. Em 26 de Julho de 1987 recebia a ordenação sacerdotal, na Igreja Paroquial da Bajouca. Já lá vão 42 anos de vida, 31 anos desde que deixei a terra para iniciar a formação à vida consagrada, 23 anos de "vida religiosa", e 16 anos de ministério sacerdotal. Em todo este tempo tenho-me dedicado à "evangelização itinerante" (pregação, cursos bíblicos, etc...)  e, sobretudo, à animação vocacional, acompanhamento e formação de futuros missionários.

ELO: O que é preciso para ser um bom Franciscano Capuchinho?

Frei Fernando: Nada de muito especial. Será preciso, antes de mais, sentir o chamamento de Deus e dar-lhe uma resposta livre e generosa. Será também importante conhecer e identificar-se com o carisma, isto é, a maneira própria de seguir Jesus iniciada por São Francisco de Assis nos finais do séc. XII, a cuja originalidade quis voltar aquele grupo de frades que no séc. XVI deu início à Ordem dos Franciscanos Capuchinhos. Nesta linha, um bom Franciscano Capuchinho é aquele que, como lembram as nossas Constituições, cultiva a espontaneidade fraterna, na contemplação amorosa de Deus; procura uma austeridade de vida, na pobreza radical; acolhe o dom do Espírito, como humilde servo de todos; partilha a vida com os pobres, sempre junto do povo; promove o dinamismo apostólico, exercendo em espírito de serviço as suas variadas formas, antes de mais através da evangelização.

ELO: Ao longo dos anos, o que é que mudou na vida franciscana?

Frei Fernando: Apenas e tudo aquilo que é secundário e necessariamente terá que se ir adaptando às novas realidades e exigências de cada tempo, para que possamos manter com fidelidade o espírito original do fundador, São Francisco de Assis. Assim se compreende que seria um erro pretender viver no nosso tempo de forma exactamente igual à forma (exterior) de vida de São Francisco e primeiros companheiros. No que toca à pobreza, por exemplo, a exigência do não ter nada de próprio, afirmada na Regra de São Francisco, é afirmada sem perder nada da sua exigência nas Constituições Capuchinhas de agora pelo "princípio do mínimo necessário e não do máximo permitido". Muitas mudanças sociais e políticas da sociedade tiveram também os seus efeitos na vida consagrada, e também franciscana. Dentro dos "conventos" passou a haver menos disciplina e rigor (que não quer dizer relaxamento), há mais espaço para a realização pessoal de cada um, a vida em comunidade baseia-se cada vez mais numa relação simples e fraterna. Nota-se também um desejo crescente de dar mais resposta aos grandes problemas da humanidade. Em suma, o espírito e o carisma franciscano não mudou, nem poderá mudar... As formas de o ir apresentando em cada tempo é que foram variando. Caso contrário, iria perdendo muito da sua originalidade.

ELO: Vai em missão para Timor Leste. O que é que o levou a ir além fronteiras?

Frei Fernando: Senti que os apelos que tantas vezes fiz a outros, em pregações, encontros de reflexão e outros momentos de anúncio do Evangelho, eram apelos que a mim também diziam respeito. Que força e que sentido teriam estes apelos à missão feitos a outros, se não estivesse pronto também a partir ou pudesse dar já o testemunho de quem algum dia partiu em missão além fronteiras? As palavras de Jesus "Ide por todo o mundo e anunciai a Boa Nova a toda a criatura...", e outros tantos apelos do Evangelho nesta linha, são o grande e único motivo que me leva a fazer as malas e a partir... desta vez para mais longe.

ELO: Sei que parte a pedido seu. O que o levou a tomar esta decisão?

Frei Fernando: É verdade. Quando há um ano o Ministro Provincial nos pedia que indicássemos as nossas preferências para os próximos três anos, eu indiquei como primeira hipótese a de ir para as Missões. Deixei-lhe também claro que estaria disponível para ir para qualquer outro lugar e exercer qualquer outro serviço. A razão principal que me levou a abrir-me prioritariamente para as missões tem a ver com uma proposta que apareceu no Capítulo Provincial há pouco celebrado, segundo a qual se via toda a conveniência em abrir uma nova presença missionária, para além da de Angola. Falou-se em Timor, apenas a título de exemplo. Achei que, se tinha votado favoravelmente esta proposta, deveria agora oferecer a minha disponibilidade para partir. Só assim se poderia passar aos factos!

ELO: Qual é o objectivo da Ordem dos Franciscanos Capuchinhos neste país?

Frei Fernando: No Capítulo Provincial de que há pouco falei, onde foi votada a proposta desta nova presença missionária, sentia-se a necessidade de avivar o espírito missionário entre os Capuchinhos de Portugal e, com isso, poder também oferecer aos jovens que Deus possa chamar à vida Capuchinha um maior campo de realização do seu desejo de servir os irmãos e de anunciar o Evangelho. É claro que, não havendo ainda Capuchinhos em Timor Leste, pode ser que a nossa presença seja a semente de muitas vocações naquele país e, com o tempo, a Ordem Capuchinha se possa ir ali implantando. Contudo, o objectivo último da nossa presença, em qualquer parte do mundo, é o serviço dedicado e desinteressado em favor do Reino, dando a nossa contribuição, como consagrados e franciscanos, no trabalho que a Igreja desenvolve para tornar presente em todo o mundo o Evangelho de Jesus e trabalhar afincadamente pela promoção humana de todos os povos.

ELO: Esteve em Timor há poucos dias. Com que imagem ficou do local?

Frei Fernando: Estive em Timor na última quinzena de Julho. Desloquei-me ali com o Provincial dos Capuchinhos de Portugal para resolvermos os assuntos relativos à futura constituição duma Fraternidade de Capuchinhos naquele país. A imagem que fica é a de que é outro mundo, bem diferente do nosso. As primeiras imagens desta terra, que a retina enxergou ainda antes que o pequeno avião aterrasse em Díli, foram as "palhotas" semeadas por entre a paisagem tropical, dando logo uma primeira amostra da pobreza, miséria e desolação que depois se pôde ver percorrendo a estrada que liga Díli a Baucau. Nesta estrada eram bem visíveis ainda os vestígios duma guerra que destroçou a vida de muitos inocentes e deixou atrás de si o cenário da destruição, a contrastar com a beleza do verde da paisagem tropical e o azul do mar. Sente-se também muita incerteza quanto ao futuro deste país, no campo político e social, impedindo um maior investimento por parte de quem poderia criar estruturas que favoreçam maior desenvolvimento social. No meio de todo este cenário sobressai a esperança dum povo, que lutou até ao sangue pela sua liberdade e autonomia, e há-de também saber lutar agora pelo seu desenvolvimento a todos os níveis.

ELO: Qual é o meio de subsistência actual dos timorenses?

Frei Fernando: Por aquilo que pude observar, vivem sobretudo da terra, e do que ela produz, particularmente o arroz. Também se vê bastante criação de gado, sobretudo búfalos. A floresta parece ser também uma fonte de sustento. Vêm-se algumas salinas, mas o mar que rodeia Timor não parece ser muito explorado para a sua subsistência. Fora de Díli (a capital do país), não é fácil encontrar todas as coisas que aqui facilmente encontramos... e compramos.

ELO: Quantas pessoas vão em missão?

Frei Fernando: Vamos três frades, da Província dos Capuchinhos de Portugal. Para além de mim, irá o frei José Luís e o frei Hermano Filipe. Este último terminará em fins de Agosto o Noviciado e, depois de um ano de experiência missionária em Timor, voltará a Portugal para continuar os seus estudos académicos e a sua formação à vida consagrada e capuchinha. Será substituído pelo frei José Joaquim, mantendo sempre três frades, o mínimo para constituir uma fraternidade. Destes três frades, apenas eu sou sacerdote, o que reforça a ideia de que vamos para Timor Leste não como "padres", mas como uma "fraternidade" de irmãos que não pretendem outra coisa senão partilhar o ideal do Evangelho vivido por São Francisco de Assis. Ainda assim, prevê-se que possa vir dos Capuchinhos do Brasil um sacerdote, para ajudar no trabalho pastoral que nos vai ser confiado.

ELO: Qual é o local exacto onde vão ficar?

Frei Fernando: Vamos ficar em Laleia. Trata-se duma povoação do distrito de Manatuto, com cerca de 3.000 habitantes, donde é natural o Presidente da República, Xanana Gusmão. Fica a meio caminho entre Díli e Baucau, e a poucos minutos da Comunidade das Irmãs Concepcionistas, onde está a nossa conterrânea Ir.Conceição Domingues. Teremos apenas electricidade das 18h00 às 24h00. Prevê-se que a partir de Outubro já haja cobertura de rede por parte da Timor Telecom e possamos ser contactados telefonicamente através do numero (00 670) 725 4580 (sem esquecer que em Timor são mais 8/9 horas!). Ficaremos instalados na residência construída junto da Igreja que vai ser confiada aos nossos cuidados pastorais. Para além desta Igreja, haverá outros dois Centros de Culto que teremos que animar. Mas Laleia será apenas um ponto de irradiação da Dinamização Bíblica e do carisma franciscano que, com o tempo, poderemos ir estendendo a todo o território de Timor Leste.

ELO: Uma mensagem aos leitores do Elo?

Frei Fernando: Aos leitores do Elo, e a todo o bom povo da Bajouca, peço que me acompanhem e ajudem, sobretudo com a oração. E aos mais novos, diria que o caminho da Missão está aberto... à espera que muitos o percorram. Em Timor, como em Portugal e em qualquer outra parte do mundo, "a Messe é grande e os trabalhadores são poucos", como lembra Jesus. Tu podes engrossar o número dos que se decidem a partir!

Entrevista realizada em Agosto de 2003

por Marisa Pedrosa para o Jornal ELO,

publicado em Outubro de 2003

 

 
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