O Jornal ELO, Boletim Paroquial da
Bajouca (diocese de Leiria-Fátima), terra natal do frei Fernando,
aproveitou a sua presença junto dos seus pais, antes de partir para
Timor, para o entrevistar. É essa entrevista que aqui reproduzimos na
totalidade.
ELO:
Frei Fernando o
que o levou a abraçar a vida de missionário Capuchinho? Há quanto tempo?
Frei
Fernando: Não é fácil dizer o que
me levou a abraçar esta vocação de
Franciscano Capuchinho. É sempre o
resultado de muitas coisas: sinais, acontecimentos, apelos, ambiente
social e familiar... É, sobretudo, um mistério: o do chamamento de Deus,
que chama quem Ele quer, quando quer, como quer e para o que Ele quer.
Tentando entrar um pouco dentro dos modos como Deus fez chegar a mim
esse chamamento, diria que foi um pouco à maneira do profeta Jeremias.
Como ele, sinto que fui chamado já desde o seio materno, pois desde
muito pequeno (não me lembro a idade) comecei a dizer que queria ser
Padre. Nesse aspecto, a vida cristã exemplar da gente da Bajouca, da
família e, sobretudo, dos meus pais, terá sido decisiva para desabrochar
em mim o chamamento de Deus. Foi com emoção que um dia, já depois da
ordenação sacerdotal, ouvi os meus pais dizerem que durante o namoro
pediam a Deus a graça de terem um filho Sacerdote. A dimensão
missionária e franciscana deste chamamento aconteceu com a Missa Nova do
Capuchinho nosso conterrâneo Pe. Lino. Deveria ter então uns 9 anos,
idade suficiente para compreender que Deus me chamava a ser sacerdote à
maneira daqueles frades simples e alegres, e vestindo como eles aquele
hábito pobre, como um dia o fez o jovem rico Francisco de Assis,
despojando-se de tudo para seguir unicamente Cristo pobre e crucificado.
Dando seguimento a este chamamento, com 11 anos, em 1972, fiz as malas e
viagei até Barcelos, onde iniciei o longo percurso da minha formação
missionária, que continuou depois em Gondomar e no Porto. Em 1980 fazia
a "profissão religiosa" e vestia pela primeira vez o hábito de
Franciscano Capuchinho. Em 26 de Julho de 1987 recebia a ordenação
sacerdotal, na Igreja Paroquial da Bajouca. Já lá vão 42 anos de vida,
31 anos desde que deixei a terra para iniciar a formação à vida
consagrada, 23 anos de "vida religiosa", e 16 anos de ministério
sacerdotal. Em todo este tempo tenho-me dedicado à "evangelização
itinerante" (pregação, cursos bíblicos, etc...) e, sobretudo, à
animação vocacional, acompanhamento e formação de futuros missionários.
ELO:
O que é
preciso para ser um bom Franciscano Capuchinho?
Frei
Fernando: Nada de muito especial.
Será preciso, antes de mais, sentir o chamamento de Deus e dar-lhe uma
resposta livre e generosa. Será também importante conhecer e
identificar-se com o carisma, isto é, a maneira própria de seguir Jesus
iniciada por São Francisco de Assis nos finais do séc. XII, a cuja
originalidade quis voltar aquele grupo de frades que no séc. XVI
deu início à Ordem dos Franciscanos Capuchinhos. Nesta
linha, um bom Franciscano Capuchinho é aquele que, como lembram as
nossas Constituições, cultiva a espontaneidade fraterna, na contemplação
amorosa de Deus; procura uma austeridade de vida, na pobreza radical;
acolhe o dom do Espírito, como humilde servo de todos; partilha a vida
com os pobres, sempre junto do povo; promove o dinamismo apostólico,
exercendo em espírito de serviço as suas variadas formas, antes de mais
através da evangelização.
ELO:
Ao longo dos anos, o que é que mudou na
vida franciscana?
Frei
Fernando: Apenas e tudo aquilo que
é secundário e necessariamente terá que se ir adaptando às novas
realidades e exigências de cada tempo, para que possamos manter com
fidelidade o espírito original do fundador, São Francisco de Assis.
Assim se compreende que seria um erro pretender viver no nosso tempo de
forma exactamente igual à forma (exterior) de vida de São Francisco e
primeiros companheiros. No que toca à pobreza, por exemplo, a exigência
do não ter nada de próprio, afirmada na Regra de São Francisco, é
afirmada sem perder nada da sua exigência nas Constituições Capuchinhas
de agora pelo "princípio do mínimo necessário e não do máximo
permitido". Muitas mudanças sociais e políticas da sociedade tiveram
também os seus efeitos na vida consagrada, e também franciscana. Dentro
dos "conventos" passou a haver menos disciplina e rigor (que não quer
dizer relaxamento), há mais espaço para a realização pessoal de cada um,
a vida em comunidade baseia-se cada vez mais numa relação simples e
fraterna. Nota-se também um desejo crescente de dar mais resposta aos
grandes problemas da humanidade. Em suma, o espírito e o carisma
franciscano não mudou, nem poderá mudar... As formas de o ir
apresentando em cada tempo é que foram variando. Caso contrário, iria
perdendo muito da sua originalidade.
ELO:
Vai em missão para Timor Leste. O que é
que o levou a ir além fronteiras?
Frei
Fernando: Senti que os apelos que
tantas vezes fiz a outros, em pregações, encontros de reflexão e outros
momentos de anúncio do Evangelho, eram apelos que a mim também diziam
respeito. Que força e que sentido teriam estes apelos à missão feitos a
outros, se não estivesse pronto também a partir ou pudesse dar já o
testemunho de quem algum dia partiu em missão além fronteiras? As
palavras de Jesus "Ide por todo o mundo e anunciai a Boa Nova a toda a
criatura...", e outros tantos apelos do Evangelho nesta linha, são o
grande e único motivo que me leva a fazer as malas e a partir... desta
vez para mais longe.
ELO:
Sei que parte a pedido seu. O que o levou
a tomar esta decisão?
Frei
Fernando: É verdade. Quando há um
ano o Ministro Provincial nos pedia que indicássemos as nossas
preferências para os próximos três anos, eu indiquei como primeira
hipótese a de ir para as Missões. Deixei-lhe também claro que estaria
disponível para ir para qualquer outro lugar e exercer qualquer outro
serviço. A razão principal que me levou a abrir-me prioritariamente para
as missões tem a ver com uma proposta que apareceu no Capítulo
Provincial há pouco celebrado, segundo a qual se via toda a conveniência
em abrir uma nova presença missionária, para além da de Angola. Falou-se
em Timor, apenas a título de exemplo. Achei que, se tinha votado
favoravelmente esta proposta, deveria agora oferecer a minha
disponibilidade para partir. Só assim se poderia passar aos
factos!
ELO:
Qual é o objectivo da Ordem dos
Franciscanos Capuchinhos neste país?
Frei
Fernando: No Capítulo Provincial
de que há pouco falei, onde foi votada a proposta desta nova presença
missionária, sentia-se a necessidade de avivar o espírito missionário
entre os Capuchinhos de Portugal e, com isso, poder também oferecer aos
jovens que Deus possa chamar à vida Capuchinha um maior campo de
realização do seu desejo de servir os irmãos e de anunciar o Evangelho.
É claro que, não havendo ainda Capuchinhos em Timor Leste, pode ser que
a nossa presença seja a semente de muitas vocações naquele país e, com o
tempo, a Ordem Capuchinha se possa ir ali implantando. Contudo, o
objectivo último da nossa presença, em qualquer parte do mundo, é o
serviço dedicado e desinteressado em favor do Reino, dando a nossa
contribuição, como consagrados e franciscanos, no trabalho que a Igreja
desenvolve para tornar presente em todo o mundo o Evangelho de Jesus e
trabalhar afincadamente pela promoção humana de todos os povos.
ELO:
Esteve em Timor há poucos dias. Com que
imagem ficou do local?
Frei
Fernando: Estive em Timor na
última quinzena de Julho. Desloquei-me ali com o Provincial dos
Capuchinhos de Portugal para resolvermos os assuntos relativos à futura
constituição duma Fraternidade de Capuchinhos naquele país. A imagem que
fica é a de que é outro mundo, bem diferente do nosso.
As primeiras imagens desta terra, que a retina
enxergou ainda antes que o pequeno avião aterrasse em Díli, foram as
"palhotas" semeadas por entre a paisagem tropical, dando logo uma
primeira amostra da pobreza, miséria e desolação que depois se pôde ver
percorrendo a estrada que liga Díli a Baucau. Nesta estrada eram bem
visíveis ainda os vestígios duma guerra que destroçou a vida de muitos
inocentes e deixou atrás de si o cenário da destruição, a contrastar com
a beleza do verde da paisagem tropical e o azul do mar. Sente-se também
muita incerteza quanto ao futuro deste país, no campo político e social,
impedindo um maior investimento por parte de quem poderia criar
estruturas que favoreçam maior desenvolvimento social. No meio de todo
este cenário sobressai a esperança dum povo, que lutou até ao sangue
pela sua liberdade e autonomia, e há-de também saber lutar agora pelo
seu desenvolvimento a todos os níveis.
ELO:
Qual é o meio de subsistência actual dos
timorenses?
Frei
Fernando: Por aquilo que pude
observar, vivem sobretudo da terra, e do que ela produz, particularmente
o arroz. Também se vê bastante criação de gado, sobretudo búfalos. A
floresta parece ser também uma fonte de sustento. Vêm-se algumas
salinas, mas o mar que rodeia Timor não parece ser muito explorado para
a sua subsistência. Fora de Díli (a capital do país), não é fácil
encontrar todas as coisas que aqui facilmente encontramos... e
compramos.
ELO:
Quantas pessoas vão em missão?
Frei
Fernando: Vamos três frades, da
Província dos Capuchinhos de Portugal. Para além de mim, irá o frei José
Luís e o frei Hermano Filipe. Este último terminará em fins de Agosto o
Noviciado e, depois de um ano de experiência missionária em Timor,
voltará a Portugal para continuar os seus estudos académicos e a sua
formação à vida consagrada e capuchinha. Será substituído pelo frei José
Joaquim, mantendo sempre três frades, o mínimo para constituir uma
fraternidade. Destes três frades, apenas eu sou sacerdote, o que reforça
a ideia de que vamos para Timor Leste não como "padres", mas como uma
"fraternidade" de irmãos que não pretendem outra coisa senão partilhar o
ideal do Evangelho vivido por São Francisco de Assis. Ainda assim,
prevê-se que possa vir dos Capuchinhos do Brasil um sacerdote, para
ajudar no trabalho pastoral que nos vai ser confiado.
ELO:
Qual é o local exacto onde vão ficar?
Frei
Fernando: Vamos ficar em Laleia.
Trata-se duma povoação do distrito de Manatuto, com cerca de 3.000
habitantes, donde é natural o Presidente da República, Xanana Gusmão.
Fica a meio caminho entre Díli e Baucau, e a poucos minutos da
Comunidade das Irmãs Concepcionistas, onde está a nossa conterrânea
Ir.Conceição Domingues. Teremos apenas electricidade das 18h00 às 24h00.
Prevê-se que a partir de Outubro já haja cobertura de rede por parte da
Timor Telecom e possamos ser contactados telefonicamente
através do numero (00 670) 725 4580 (sem esquecer que em Timor são mais
8/9 horas!). Ficaremos instalados na residência construída junto da
Igreja que vai ser confiada aos nossos cuidados pastorais. Para além
desta Igreja, haverá outros dois Centros de Culto que teremos que
animar. Mas Laleia será apenas um ponto de irradiação da Dinamização
Bíblica e do carisma franciscano que, com o tempo, poderemos ir
estendendo a todo o território de Timor Leste.
ELO:
Uma mensagem aos leitores do Elo?
Frei
Fernando: Aos leitores do Elo, e a
todo o bom povo da Bajouca, peço que me acompanhem e ajudem, sobretudo
com a oração. E aos mais novos, diria que o caminho da Missão está
aberto... à espera que muitos o percorram. Em Timor, como em Portugal e
em qualquer outra parte do mundo, "a Messe é grande e os trabalhadores
são poucos", como lembra Jesus. Tu podes engrossar o número dos que se
decidem a partir!
Entrevista realizada em Agosto de 2003
por
Marisa Pedrosa para o Jornal ELO,
publicado em Outubro de 2003