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A
Beleza: lugar de comunhão
e
meio de evangelização
O mundo em que
vivemos, marcado pela globalização
multicultural, pode levar-nos a uma reflexão
sobre a
importância do belo como linguagem universal e
como
palco de mensagem que todos entendem sobre a
fonte
da Beleza – o autor
da Vida.
Se do alto de uma montanha pudéssemos observar a
paisagem que nos envolve, o conjunto das relações humanas e a beleza
interior de cada criatura, veríamos que há uma beleza cósmica, uma
beleza artística e uma beleza espiritual a florescer permanentemente.
E havíamos de perceber que o “espírito de Deus”, presente na criação,
continua a recriar de forma nova e com novas formas.
Quem não se “perdeu” já no alto da montanha,
contemplando a imensidão da vida, ou numa planície onde os retalhos de
mantas multicolores lembram o “arco-íris da aliança”, sinal do amor
que Deus oferece à humanidade em todas as Primaveras? Ou diante do mar
infindo, onde nasce a vontade de ultrapassar a linha do horizonte e
mergulhar na imensidão de Deus este ser por Ele criado e que não
descansa enquanto não repousar n’Ele?!
A Beleza da totalidade
Deste modo, percebemos que não somos o último
grito de Deus, mas um ser incompleto criado à sua imagem e semelhança
em permanente evolução. E, juntando a nota do nosso ser à pauta do
universo, sentimos mais harmonia dentro de nós e maior comunhão com a
humanidade e todas as criaturas.
Pois «o que,
separadamente, nos horroriza, é muito agradável quando visto na
totalidade», como diz Stº Agostinho.
Quando se descobre a
organização profunda, a união harmoniosa e equilibrada das diferenças,
entre o sensível e o meta-sensível, o diálogo entre o certo e o
errado, o amor e o ódio, o tudo e o nada, mostrando o sentido que há
nisso tudo, o lugar que tudo isso ocupa na ordem geral do ser.
Só quem se coloca numa atitude de encontro com
Deus,
é capaz de ler esta realidade bela que nos
envolve e nos faz mensageiros do divino.
Quando acontece o
silêncio em simbiose com o assombro, não temos muito
mais para provar a não ser: sentir, viver e
anunciar este êxtase do belo que nos rodeia e que está
em nós.
A beleza é essa linguagem universal, que nos faz pensar e ser pensados
pelo Criador. É a luz que nos dá lucidez, clarividência, visão clara e
abrangente no claro-escuro e no fragmentário em que nos movemos, aos
tropeços.
A Beleza em vários tons
A beleza é como um «doce murmúrio, que fala à
nossa alma; mais que uma necessidade, é um êxtase. A beleza como a
vida, quando a vida desvenda o seu rosto sagrado. A Beleza como a
eternidade que se contempla a um espelho». (Khalil Gibran)
«Privar-se da beleza é enterrar-se vivo. É negar
a nossa própria capacidade de transcendência e de encontro com o
Todo.» (Gabriel Perissé)
«A Beleza está em toda parte. Não é ela que falta
aos nossos olhos, mas os nossos olhos que falham ao não percebê-la.» (Rodin)
«O mundo em que vivemos tem necessidade de beleza
para não cair no desespero. A beleza, como a verdade, é a que traz
alegria ao coração dos homens, é este fruto precioso que resiste ao
passar do tempo, que une as gerações e as faz comungar na admiração.»
(Padres do Vaticano II aos artistas, na Mensagem
final)
«A beleza, que transmitireis às gerações futuras,
seja tal que avive nelas o assombro. Diante da sacralidade da vida e
do ser humano, diante das maravilhas do universo, o assombro é a única
atitude condigna. Os homens de hoje e de amanhã têm necessidade deste
entusiasmo, para enfrentar e vencer os desafios cruciais que se
prefiguram no horizonte. Com tal entusiasmo, a humanidade poderá,
depois de cada extravio, levantar-se de novo e retomar o seu caminho.
A beleza é chave do mistério e apelo ao
transcendente. É convite a saborear a vida e a sonhar o futuro. Por
isso, a beleza das coisas criadas não pode saciar, e suscita aquela
arcana saudade de Deus que um enamorado do belo, como S. Agostinho,
soube interpretar com expressões incomparáveis: “Tarde eu Te amei, ó
Beleza tão antiga e tão nova, tarde eu Te amei!” (João Paulo II,
Carta aos Artistas, 04.05. 1999)
No dizer do card. Dulls, a religião, não
precisa de recair num pietismo tacanho, no dogmatismo ou no moralismo.
Ela fomenta o Bem ao promover os empreendimentos intelectuais e
artísticos, identificando-se assim com o Verdadeiro e o Belo. A Igreja
torna-se mais atraente, mais crível e mais influente na medida em que
abraça o vasto mundo da Cultura, aceitando, purificando e elevando os
frutos da criatividade humana.
Olhai as aves e os
lírios…
Não vos inquieteis quanto à vossa vida, com o
que haveis de comer ou beber, nem quanto ao vosso corpo, com o que
haveis de vestir. Porventura não é a vida mais do que o alimento, e o
corpo mais do que o vestido?
Olhai as aves do céu:
não semeiam nem ceifam nem recolhem em celeiros; e o vosso Pai celeste
alimenta-as. Não valeis vós mais do que elas? Qual de vós, por mais
que se preocupe, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida?
Porque vos preocupais com o vestuário?
Olhai como crescem os
lírios do campo: não trabalham nem
fiam! Pois Eu vos digo: nem Salomão, em toda a sua magnificência, se
vestiu como qualquer deles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo,
que hoje existe e amanhã será lançada ao fogo, como não fará muito
mais por vós, homens de pouca fé?» (Mt
6,25-30).
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Pensar,
a partir da beleza interior:
Em que ponto estou?
«Tarde eu Te amei,
Beleza tão antiga e tão nova! Tarde eu Te amei...
Tu estavas dentro de
mim, e eu Te procurava fora, onde me precipitava sobre as belas coisas
da terra, tuas obras.
Tu estavas comigo, e
eu não estava contigo, mantido longe de Ti por aquelas criaturas, que,
se não estivessem contigo, não existiriam.
Tu estavas dentro de
mim, e eu estava fora.
Tu chamaste, gritaste
e rompeste a minha surdez.»
(Santo
Agostinho,
Confissões, X, 27)
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Se verificar
que me perdi, posso dispor-me à conversão, como fez Santo
Agostinho! É sempre hora de voltar para Deus ou de acelerar o
passo ao encontro do Bem Infinito!
Frei
Dino Costa
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