No comboio, em plena serra da Beira
Interior, Dalila (Verde Pino)
liga-me para informar que está confirmada
a viagem para o dia 25.
Só que, até Londres, terei de ir na TAP e
as irmãs Júlia e Alda
(Nª Sª das Vitórias) irão 30 minutos
depois na BA. Depois,
encontrar-nos-íamos em Londres para seguir
juntos até Dili.
Assim deveria ter
acontecido se a TAP não tivesse saído 45 minutos depois da
hora prevista e as precauções de segurança inglesas tivessem sido mais
simples. Consequências: em vez de chegar na quarta-feira a Dili, cheguei
apenas sexta.
Nada de extraordinário
se atendermos à distância. Há 450 anos, outros portugueses levaram mais
tempo a chegar ali.
Em Londres, depois da grande espera, o controlo electrónico acusa um
elemento perigoso na minha bagagem de mão. Depois de uma minuciosa
investigação: what’s this? Eu tentei explicar… e - conclusão
burlesca! - a iminência do crime estava num envelope com algumas rolhas
de cortiça que frei Acácio, à última hora, me entregou a pedido de frei
José Luís em Laleia.
E porque o atraso da TAP e estas burocracias da segurança me fizeram
perder o avião para Hong Kong, lá tive de enfrentar o meu incipiente
inglês para não perder os dois voos que havia ainda nesse dia. Ainda bem
que, ao aproximar-me do balcão da Cathay Pacific, quando
balbuciei um tímido my fligth to Hong Kong…, alguém de imediato
propõe do outro lado: “prefere falar em português”?
Neste intercâmbio de
línguas, enfrento agora um senhor inglês com
olhos de chinês, ou
talvez o contrário, a tentar explicar-me a existência de outro voo para
a manhã seguinte e a apontar-me para o hotel, no fundo do aeroporto,
onde devia ficar aquela noite; até que, a meio da minha atrapalhação,
interpõe-se um outro funcionário para explicar melhor o assunto,
pensando ele que o aflito era o outro e não eu.
Da China até Bali foi meu companheiro de avião um cidadão indonésio que
falava francês (a minha situação ia melhorando) e, em Bali, encontro
duas irmãs de língua espanhola que, em Dili, andavam a estudar
português. Esta peregrinação de línguas, não podia ter acabado melhor.
Fui compreendendo que, embora caminhasse ao encontro do sol, era eu que
esperava por ele em cada aeroporto; passava por mim, ele seguia e eu
ficava, deixando-me a dialogar com os ponteiros meio descontrolados do
relógio.
Bali tem nome
internacional de grande procura pelas agências turísticas. É do sol, das
praias e das discotecas que lhe vem a nobreza, a fama e o proveito. Mas
também dos monumentos, da história, da mistura de culturas. Pude
observar tudo isto durante o dia que deambulei por aquela cidade. Daí, o
significado do nome decifrado de Bali:
B – Bagus – Belo
A – Asri – Aventura
L – Lestari – Lenda
I – Indah – Imaginação
Ali estive retido quase dois dias. Não vi as praias, mas senti o sol, a
mistura de sons, cores, raças, religiões e línguas; milhares de Budas e
símbolos indianos nas praças e ruas e, devido à ausência de transportes
públicos, milhões de motas em todas as direcções da cidade, ond
e
todos se respeitam nas pressas e nas transgressões, em verdadeira
confusão organizada. Tudo ao ritmo da promiscuidade, estoicismo e
tolerância, com o tokée, (lagarto cantante) a ouvir-se, à noite,
a indicar que não estávamos longe de Timor-Leste.
Finalmente, já com Dili no horizonte, pude observar algumas das mil e
200 ilhas da Indonésia, a partir do avião da Merpati, donde acenei um
distante teramakasi, Bali.
Alguns consideraram-me perdido porque me perderam de vista; o problema,
de facto, foi deles, e não meu, porque sempre soube onde estava e onde
estavam os outros. E via-os aflitos e sabia porque é que eles não me
viam sereno.
A caminho já da nossa casa,
em Motael, o mesmo calor
abafado, as mesmas tendas de refugiados e aquela patrulha da GNR em
velocidade de emergência.
Nem sempre o mesmo caminho tem a mesma distância e nem sempre a mesma
distância se percorre com a mesma duração. Mas, o caminho é já uma
chegada, quando nos sentimos em peregrinação e quando, ao andar, o
importante não é caminho, mas o peregrino.