Cada dia tem a duração de sete noites.
PRIMEIRO DIA
O Frei Pedro esteve no Ministério da Justiça com 3 dos
nossos postulantes tratar de alguns papéis. Só estavam a trabalhar os
porteiros e dois ou três empregados inferiores. Os chefes? Tinham fugido
para a montanha com receio de se verem implicados no processo das armas
não identificadas e que levaram ao mandato de captura do ex-Ministro do
interior.

Em Dili, existe a cidade comercial e dos serviços públicos,
com segurança e o movimento dos carros que não foram para as províncias;
e a cidade periférica, com as casas queimadas as interrogações e o medo.
Dois meses depois, tudo parece sereno em Timor. Porém toda
a gente sabe que há muitas coisas escondidas nas montanhas e muitos
enigmas na cabeça dos políticos que podem perturbar novamente a
atmosfera de Timor. Há grupos armados no interior do país, há
processos políticos em curso...

Os tumultos pararam, mas as razões que deram origem aos
conflitos persistem. O doente está melhor, mas não curado. Aí estão as
marcas desse convalescente: bairros queimados; pessoas sem casa;
estruturas destruídas; muitas instituições paradas; o ano lectivo, já na
fase final, anulado; sobretudo os milhares de deslocados. Os que foram
para o interior do país, tarde regressarão a Dili; dentro da cidade,
tarde voltarão às suas casas, ou porque as não têm já, ou porque foram
ocupadas por outros, ou porque lá não se sentem seguros.
SEGUNDO DIA
A cidade está na rua. Chegam em camião das províncias de
Ermera, Manatuto, Liquiçá, Ailéu e Baucau. São milhares. Manifestam-se
em toda a cidade contra o governo actual. Os militares australianos
fazem o controlo das viaturas à entrada de Dili, mas dentro da cidade
são os próprios grupos das manifestações que montam a vigilância em
ordem a não permitir qualquer tipo de armamento. De facto, durante todos
estes dias de grande agitação na cidade não se tem ouvido qualquer
disparo de arma.

As pessoas concentram-se junto dos centros
governamentais: Parlamento, Palácio do Governo e Sede da Fretilin. Há
discursos, música, palavras de ordem e distribuição de panfletos. Ao
meio-dia tudo pára para almoço. A própria organização dispõe de um
serviço de distribuição de comida aos participantes. Acabo por ficar na
dúvida se se trata mesmo de um protesto contra alguém ou se é um
pretexto para uma festa.
TERCEIRO DIA
As pressões eram demais: manifestações populares,
exigências de alguns militares, a palavra dos Bispos, algumas vozes
estrangeiras… faltava abrir uma porta. Essa porta abriu-se quando o
Primeiro-Ministro fechou a do seu gabinete para nunca mais ali entrar.
E agora? Ficam muitas perguntas à espera de resposta:
O novo Primeiro-Ministro será do agrado de todos?
Qual a reacção das bases da Fretilin?
Quantos grupos armados (por Rogério Lobato) ainda restam
nas montanhas?
Quem vai reconstruir os bairros?
Qual a missão das Nações Unidas?
Quando começam a regressar as populações às suas casas?
Finalmente,
Qual o papel da Igreja?
Constou-me que em Portugal, alguns meios de comunicação
social se têm referido mais de uma vez ao silêncio da Igreja de Timor
durante a fase dura deste conflito.
Antes de mais, os dois bispos de Timor têm feito os
esclarecimentos necessários e suficientes sobre a situação. Além disso,
como sabemos, há muitas maneiras de falar. Se um padre, (Mouzinho),
director de um seminário, foi baleado, se a casa de um outro padre,
porta-voz da Diocese, foi incendiada, terá sido por estarem calados?
Mais: nesta fuga generalizada, onde é que os populares, têm encontrado
refúgio? Sobretudo aqueles que não puderam fugir para o interior, os que
não têm carro para fugir ou dinheiro ou outro lugar para onde ir, os
pobres mais pobres onde é que encontraram acolhimento? Em Dili, foi na
paróquia de São João Bosco, no complexo escolar das Irmãs canossianas,
nos dois seminários e nas paróquias. Eu próprio estou a dar as últimas
aulas do ano lectivo numa escola primária, pois todo o espaço do
seminário maior foi ocupado com estes deslocados. Porque é que não foram
para outras instituições, para as ONG's, ou as embaixadas?

Há muitas
maneiras de falar… e, nestas ocasiões, é assim que a Igreja costuma
falar: enfrentando o risco da própria vida e envolvendo-se em acções de
solidariedade para com as vítimas, os mais fracos, os mais pequenos.
Posfacio
Entretanto, o Mundial de Futebol tem ajudado o povo
timorense, sobretudo de Dili, a esquecer tantos ponta-pes na sua
dignidade.
Todas as noites
(aqui os jogos coincidem entre a meia noite e as 4 da manha) Dili vibra
com a bola, sobretudo quando joga Portugal, o Brasil e a Itália. Razoes
desta preferência de simpatias: a unidade cultural, a língua e o Papa.