1. Gostaria de não ter de mostrar as fotografias desta
página, aqui, onde procuramos colocar apenas mensagens de paz e bem. Mas
foram elas que me procuraram, durante vários dias, porque têm sido uma
presença constante nas ruas, nas praças, nos bairros e nos mares desta
cidade de Dili.

Durante estes dias não pude deixar de ver colchões, latas
de conserva e garrafas de água à porta das igrejas e residências paroquiais; não
pude fugir ao olhar de centenas de mães e crianças à procura de um lugar
onde ficar porque a casa fora incendiada; não pude deixar de abrir a
porta do nosso quintal a pessoas que foram ameaçadas ou andavam à
procura da mulher, dos filhos ou do marido. Os armazéns fecharam-se, as
ruas estavam vazias e os barcos de pesca foram substituídos por navios
de guerra.

Aquilo que para muitos não passava de boatos acabou por ser
realidade para todos. Sabe-se como tudo começou; ninguém sabe como vai
acabar. Além das vítimas mortais já causadas, além dos incêndios das
casas, além das fugas para fora da cidade e do país… o pânico, a
incerteza, a dúvida, tomaram conta das pessoas e ninguém sabe até quando
e até onde pode ir esta situação geral de pessimismo e desespero. Entre
os atingidos, estão dois padres: o padre Mouzinho, reitor do seminário
menor, foi atingido quando transportavam populares para lugares de
refúgio e teve de ser levado para Darwin para ser operado; o padre
Agostinho Soares, Vigário Episcopal para a Pastoral, foi vítima de
incêndio na própria residência.
Aqui, em Dili, de um lado a montanha, o caminho do êxodo, o
desconhecido e o silêncio; do outro lado o mar, o mistério e o infinito;
no centro, o labirinto, as lágrimas, o fogo e a morte. (Ironicamente, o
palácio presidencial é conhecido pelo nome de Palácio das Cinzas).
2.
Os militares estrangeiros chegaram, mas nem por isso chegou
a tranquilidade e a segurança. Circulam apenas em determinadas zonas e
têm limitações quanto à sua actuação em frente dos bandos armados.
Muitos timorenses têm esperança na GNR de Portugal. Dizem
que é uma polícia com muita competência, que já a conhecem e é a única
que entende o povo de Timor.

3.
Eram duas horas e 20 da madrugada. Os cães foram os
primeiros a dar sinal; logo se ouviram os disparos; logo um alarido de
mulheres dentro das casas e, de seguida os jovens e os homens tomaram
conta das ruas. Um carro de pessoas armadas tinha tentado assaltar as
casas. Depois de vários disparos fugiram em debandada, mas foi o
suficiente para deixaram este bairro em sobressalto o resto da noite.
Passou-se na nossa rua, em Motael. Várias mães com suas
crianças, entraram no nosso quintal à procura de melhor abrigo. Aí
ficaram até amanhecer, enquanto vários piquetes de moradores organizaram
a vigilância do bairro.
4.
Durante estes últimos dias estivemos retidos em casa. Os
acontecimentos não permitiam a circulação nas ruas.
Agora o ambiente parece que começa a desanuviar-se. Há já
algumas lojas a abrir, alguns carros circulam pela cidade e muitas
pessoas começam a perder o medo e atrevem-se a enfrentar os riscos e
tentar resolver a sua vida.

O futuro está nas mãos de Deus, na capacidade dos
governantes e na boa vontade de todos os que podem colaborar na
pacificação dos espíritos.
O ambiente geral, porém, continua a ser de expectativa.
Antes era a expectativa em torno da reunião do Presidente com o Conselho
de Estado; agora que se sabe das conclusões é a expectativa sobre a sua
aplicação e até que ponto essas medidas serão suficientes para resolver
a crise. Para todos Dame no kmanek.