Em Lorosa’e e também no Loromonu, o outro lado da Ilha, celebramos o
Natal oito horas antes. Há muitas razões para Deus, aqui, chegar
primeiro.
Aqui, é a terra de Lorosa’e,
onde Deus e o sol chegam mais cedo.
Aqui as montanhas são mais altas,
porque as pessoas são mais humildes.
Aqui, o Pai-Natal ainda dorme,
por isso a festa é dos mais pobres,
Aqui a floresta é mais verde,
porque a esperança não tem fim.
Aqui, o tempo não é dinheiro,
porque Deus está nu e sem relógio.
Aqui, a céu tem mais estrelas,
porque Deus ilumina a cidade
Aqui, o mar é mais largo,
porque é Deus o horizonte.
Aqui, é o mundo inteiro
e, para todos, o País-do-Sol-Nascente,
porque, aqui e em todas as utopias,
Deus nasce sempre mais cedo.
Foi o meu primeiro Natal, em Timor.
O Natal não tem geografia. Somos nós que, no mapa das fronteiras
humanas, lhe vamos riscando os traços dos nossos limites.
Também se diz que o Natal não tem dia, mas que é o kairós do “glória a
Deus e paz aos homens” que os Anjos prolongaram até hoje. Mas, a verdade
é que o Natal tem muitos rostos; tantos, quantas as interpretações
surgidas das atitudes de cada um.
Pode-se dizer que o Pai-Natal ainda dorme, em Timor; mas há já por aqui
muitos crocodilos e tubarões a tentar acorda-lo. Em Laleia, o nosso
Natal não foi assim tão pobre. Graças a algumas fraternidades
capuchinhas e a familiares e amigos dos missionários, não faltou o
bacalhau, o bolo-rei, o vinho do Porto e as nozes.
O Natal, nas ruas, tinha menos luz, menos música, menos balões de ar,
menos montras iluminadas; mas tinha mais sinais cristãos: em cada bairro
havia um presépio feito pelos moradores e em cada casa havia um Menino
Jesus.
A preparação foi mais procura de luz e menos praça iluminada; o Advento
foi mais caminho bíblico e menos concorrência comercial. Por isso, o
natal foi mais festivo e menos folclórico.
Acção de fundo neste Natal foi o curso bíblico de uma semana, dado nas
três principais estações missionárias: Kairui, Samalai e Laleia; acção
celebrativa foi a apresentação do novo Coro Central, em 4 vozes mistas,
dirigido por Frei Fernando.
No prolongamento destas festas, houve ainda o Natal lusófono, com a
presença de todos os missionários de língua portuguesa da diocese, para
partilhar a oração, o canto, a comida, o convívio e a água cálida da
praia, com a baía de Baucau aos pés e as ilhas da Indonésia no
horizonte.
Ó mar salgado,
obrigado!
Quanto
do teu encanto
deu mais verde à floresta
e mais festa
a este povo!
Para fechar este Natal, este ano e esta crónica, uma promessa fica:
há-de vir outra crónica, num outro ano, com todos os nomes e rostos de
natais que nós formos descobrindo.