Já não seria possível, àquela
hora, subirmos até ao cume do "Matebian". Já o
sabiamos desde o dia
anterior. Eram necessárias cerca de quatro horas para lá chegar mas, ao
menos alguns metros, fazíamos questão de escalar para cantarmos nas
montanhas, "É grande, é admirável, Teu nome em toda a terra, Senhor".
Porque não tínhamos guia, fomos
confirmando os trilhos junto de pessoas que encontrava-mos no caminho.
Junto da imponente massa rochosa que nos levaria ao ponto mais alto,
caso tivéssemos tempo, estava uma pequena aldeia.
Entramos para pedir informações
e de lá não saímos porque o relógio não parou. Já passava das 9.30 de
manhã. Depois da nossa apresentação a algumas pessoas da comunidade,
propus ao grupo que cantássemos o cântico previsto, o que aconteceu
depois de um breve ensaio. Seguiu-se um momento de descontracção e
descanso antes do regresso ao acampamento que distava cerca de três
quilómetros.
Uma das jovens do nosso grupo
ofereceu-me uma bolacha. Aceitei e fui oferece-la a uma menina que
estava doente e perdida no meio de tantos estranhos. Teria cerca de 3
aos. Vestia um vestido muito sujo com tons cor-de-rosa e com quase um
terço da bainha descosida. Os seus olhos tinham cor da terra e muito
sujos. Não tirava a mão da boca por nada, excepto quando me aproximei
para lhe oferecer a bolacha. Disse-lhe que deveria procurar uma sombra,
o que aconteceu momentos depois.
Quando nos preparávamos para
regressar, o chefe do agrupamento veio-me dizer que alguém da aldeia
estava a preparar um chá para nós. Esperamos e tomamos o chá,
acompanhado de soja torrada. Que bem soube. Mas o meu olhar de vez em
quando fixava-se na menina dos olhos doentes e tristes. Fui levar-lhe
soja que imediatamente aceitou.
Tínhamos que regressar e
começamo-nos a despedir. A menina foi para junto do pai, o senhor Cosme,
que entre outras profissões, é ferreiro. Disse-lhe que a menina
precisava de ir ao médico, que estava doente. O senhor Cosme
compreendeu-me e respondeu-me dando à sua filha o único medicamento que
tinha naquele momento: abraçou-a e aconchegou-a com cuidado e ternura
contra o seu peito, não evitando um forte brilho nos olhos, quase
transformado em lágrimas.
Prometi voltar em Outubro para
comprar uma catana ao senhor Cosme, ver a sua menina e em último lugar e
só se tiver tempo, escalar o Matebian.
Não tirei fotos nem cheguei a
perguntar o nome da menina. Era o menos importante. Com ou sem nome, com
ou sem imagens, a menina do vestido descosido, cor-de-rosa e da cor da
terra, ficará registado na minha memória muito mais tempo do que em
qualquer CD ou “Memory Stick”. Quando lá regrassar, acho que vou
levar um vestido novo para a menina sem nome.
frei José Luís Caetano