Sexta-feira, 1 de Outubro de 2004 - O frei José Luís e o Ricardo
chegam ao porto de Díli para buscar sete jovens do enclave do Oekussi.
Sete jovens que se vão juntar a outros três, já em Laleia, para iniciar
a sua caminhada como aspirantes à vida Franciscana Capuchinha. Estes
jovens, com idades compreendidas entre os 19 e os 24 anos, decidiram
dizer sim ao chamamento de Deus. Com a Graça de Deus, serão eles um dia
a espalhar as “sementes de Assis” aqui em Timor! De regresso a Laleia,
não houve tempo para descansos. A noite foi de cinema! Pôs-se uma
televisão, oferta de um grupo de portugueses que por aqui passou, no
fundo da igreja, e passámos um filme sobre São Francisco. O som era o da
televisão e de um microfone de lapela ligado a um megafone que estava na
torre da igreja e as legendas eram em português. Dado que a televisão
não é muito grande, as pessoas que conseguiriam ler as legendas seriam
as da frente, isto é, ocupadas por crianças que só entendem galolen. Mas
isso pouco importava! A alegria das crianças ao verem uma caixa com
pessoas lá dentro era contagiante e exprimia-se com muitos “oohhh!” e “aaahhhh!,
sobretudo quando disparava o flash da máquina fotográfica. Isto fez-me
sentir mais perto de um ideal!
Sábado, 2 de Outubro de 2004 - O frei Clemente e o jovem Ricardo
(assim ficou conhecido por estas bandas) foram apresentados, durante a
eucaristia, à comunidade. Uma apresentação em breves palavras,
manifestando a sua vontade de servir. Houve ainda tempo para apresentar
os Aspirantes à Comunidade; uma apresentação bastante bonita que
terminou com uma música cantada e tocada por eles. A população acolheu
todos os recém chegados de braços abertos e um rasgado sorriso. O
ambiente foi deveras agradável mas não foi possível disfarçar a grande
saudade que o Frei Filipe deixou.

Segunda-feira, 4 de Outubro de 2004 - Dia de São Francisco!
Houve, naturalmente, uma celebração verdadeiramente franciscana. Os
aspirantes fizeram uma encenação ao som do cântico “Hoje São Francisco
podes ser tu” e animaram, juntamente com o jovem Ricardo, os restantes
cânticos. Após a missa, houve festa na Estação Missionária! Várias
congregações vindas de vários locais juntaram-se a nós para celebrarmos
o Irmão Universal. Os preparativos foram exaustivos e a rigor, onde não
faltou um bolo de bolacha decorado com motivos franciscanos. Estavam os
anfitriões na cozinha a rematar os últimos pormenores quando descobriram
que tinham companhia. O irmão escorpião resolveu fazer-nos uma visita
(sem convite). O serão terminou com dois pequenos “concertos” de
aspirantado. Primeiro das Aspirantes Concepcionistas e depois dos
Aspirantes Capuchinhos (a prata da casa). Foi um belo dia! Celebrado em
comunidade, entre amigos, entre irmãos…
Quarta-feira, 6 de Outubro de 2004 - Usando todos os meios ao seu
dispor, o jovem Ricardo e três aspirantes, o Aquiles, o Januário e o
Diogo, foram a Kairui dar a conhecer à população a vida de São
Francisco. Foi um grande momento para mim, pois aquilo que começou por
ser uma pequena matiné para meia dúzia de miúdos passou a ser uma
reunião da comunidade que, atenta, passou a conhecer um pouco mais a
vida de Francisco de Assis.
Quinta-feira, 7 de Outubro de 2004 - Festa de Nossa Senhora do
Rosário, Rainha de Laleia. Numa celebração muito participada e emotiva
fica como nota o facto de o Frei José Luís, sem saber, se ter sentado na
cadeira reservada ao Liurai Tomé! Depois da missa, os Freis, o
Ricardo e os aspirantes foram convidados para uma pequena festa-convívio
no salão da Pastoral da Criança. Festejava-se também o primeiro
aniversário da presença dos Capuchinhos em Laleia. Estavam presentes as
irmãs brasileiras, as irmãs de Vemasse e o Pe. Domingos, pároco de
Manatuto. Foram várias as pessoas que tomaram a palavra para enaltecer
os feitos dos irmãos Capuchinhos, em particular do Frei Fernando,
Guardião da Fraternidade e “quase-pároco” da “quase-paróquia” de Laleia.
No meio dos elogios houve, porém, quem aproveitasse a oportunidade para
pedir ao pároco de Manatuto que “explicasse aos freis como poderiam
mostrar mais respeito pela Santa”. Mas uma voz não são vozes e o
povo fez questão de demonstrar aos freis que estão muito satisfeitos com
o trabalho desenvolvido e o quão gratos estão por isso.
Sexta-feira, 8 de Outubro de 2004 - Após uma primeira semana de
habituação (para os reforços de Portugal e para os aspirantes), chegou a
altura de reflectir, projectar e planear o trabalho deste ano que agora
começa. Assim, todo o convento foi à praia para o Capítulo da
Fraternidade. Numa primeira fase, reuniu-se com os aspirantes para
procurar perceber o que esperam deste ano de Aspirantado. Foram feitas
várias sugestões, definiram-se as regras de funcionamento da casa e as
várias funções que cada um irá desempenhar ao longo do ano ano. Após o
almoço, o Capítulo prosseguiu, agora já só com os Irmãos e o jovem
Ricardo. Discutiram-se várias ideias acerca da formação, oração e
trabalhos diversos assim como quem ficaria responsável por cada área.
Numa primeira fase, definiu-se que o Frei José Luís ficaria responsável
pelas várias tarefas e trabalhos que são necessários na casa e espaços
amexos, o frei Clemente daria apoio à cozinha, tarefas domésticas e
ensino do Português, o Frei Fernando, para além das funções sacerdotais,
ficaria com a formação cristã e o jovem Ricardo estaria também na
formação cristã e com a formação humana. Decidiu-se também que,
quinzenalmente, a Fraternidade e o Ricardo se reuniriam para avaliar e
redefinir tudo o que fosse necessário. Numa terceira parte, o Capítulo
avançou só com os três Irmãos Capuchinhos onde se tratou dos assuntos da
Fraternidade.
Quarta-feira, 13 de Outubro de 2004 - A catequese é um dos
grandes desafios deste ano; um trabalho que já começou a ser preparado
no ano pastoral anterior, com a formação de catequistas. Hoje começou
uma formação mais intensiva dos catequistas. Os temas desta formação
serão dados sobretudo pelo Frei Fernando, a irmã Helena, a irmã Cristina
e o jovem Ricardo. Nesta formação participam os aspirantes Capuchinhos,
as aspirantes Concepcionistas e alguns jovens catequistas. A formação,
que decorre até ao fim do mês, terminará com uma simulação real de uma
sessão de catequese.

Quinta-feira, 14 de Outubro de 2004 – Hoje foi a vez do jovem
Ricardo se estrear na formação de catequistas, perante uma plateia de
entendedores de tétum que se perdia em gargalhadas cada vez que o
Ricardo arriscava alguma frase em tétum. Talvez tivesse sido mais uma
formação de tétum para o Ricardo do que uma formação de catequistas para
a assembleia. Apesar disso, a formação foi conseguida e num ambiente
agradável. O Frei José Luís tirou o dia de folga e aproveitou para
estrear a sua cana de pesca. Depois de algum tempo e bastantes
tentativas, concluiu que era necessário arte e engenho para lançar a
linha (quanto mais apanhar peixe…) e decidiu ter uma atitude
franciscana para com os peixes: atirou a comida ao mar. Ainda ficou
um pouco mais por ali, à espera de uma mostra de gratidão por parte de
algum peixe que, de barriga cheia, lhe saltasse para o colo mas, teve
mesmo que regressar a Laleia de balde vazio.