Desde o dia 9 de Agosto, com o regresso do frei Filipe a
Portugal, a fraternidade de
Laleia ficou reduzida a dois irmãos.
Entretanto, em Portugal, dois novos missionários corajosamente se
preparavam para a Missão.
A poucos dias do fim do mês de Setembro, pisavam a terra
quente de Laleia, o frei Clemente e o jovem Ricardo. O frei Clemente é
um irmão capuchinho não sacerdote, natural de Vieira do Minho, e que
ultimamente estava na fraternidade de Cabanas de Viriato. O Ricardo é um
jovem leigo, do Forte da Casa, ligado ao Movimento de Jovens de cariz
bíblico e franciscano, denominado
JobiFran, dentro do qual germinou esta decisão de dedicar um ano da
sua vida à Missão.
A Messe é grande... mas já conta com mais dois
incansáveis trabalhadores. Bem-vindos, frei Clemente e jovem Ricardo!
Sexta-feira, 3 de Setembro de 2004 -
No fim da Missa em Laleia, hoje celebrada às 7h00 da
manhã por ser a primeira Sexta-feira do mês, o frei Fernando dirigiu-se
a Cairui com o carro carregado de cimento e blocos. Pensava encontrar em
Cairui um bom grupo de trabalhadores voluntários para iniciar as
pequenas obras de beneficiação da capela, mas não encontrou. Assim,
aproveitou o resto da manhã para ensaiar algumas mulheres que se foram
juntando, concluindo com a celebração da Missa. Não regressou a Laleia
sem antes combinar com o catequista uma segunda data para tentar começar
as obras: a Segunda-feira próxima, contando sobretudo com a ajuda dos
pais das cinco crianças que no próximo dia 19 deste mês serão
baptizadas.
Segunda-feira, 6 de Setembro de 2004 - O frei
Fernando deslocou-se a Cairui no princípio da manhã, carregando no jipe
alguns materiais que foi buscar a Manatuto. Desta vez encontrou já as
obras começadas, não com a colaboração prevista dos pais das crianças a
baptizar, mas com um pedreiro da terra a ganhar seis dólares por dia e a
ajuda voluntária de alguns cristãos mais zelosos.
Entretanto, a meio da manhã, o frei José Luís segue para
o Oe-cussi com o objectivo principal de, ao longo da semana, contactar
as famílias dos sete candidatos que brevemente iniciarão o aspirantado
em Laleia. Foi acolhido pelas Irmãs Franciscanas da Divina Providência,
que acolheram também a Irmã Helena e a Irmã Nieta, do Centro Missionário
Brasileiro, que acompanharam o frei José Luís nesta sua ida àquele
enclave.
No princípio da tarde, o frei Fernando deslocou-se a
Vemasse, recomeçando as tarefas interrompidas com as férias das
aspirantes. Assim, todas as segundas-feiras continuará a aula de música
às aspirantes e a celebração da Eucaristia para toda a Comunidade das
Irmãs Concepcionistas.
Daí seguiu para Baucau, a fim de celebrar a Eucaristia
para as Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias, neste dia em
que a Irmã Florinda, guardiã da comunidade, celebrava o seu aniversário
natalício. Mais uma razão para se associar também ao jantar que se
seguiu à Eucaristia.
Quarta-feira, 8 de Setembro de 2004 - A meio da
tarde, o frei Fernando deslocou-se a Samalai, mais uma vez a pé, para a
celebração de uma Missa Requiem. Depois da missa, celebrada no
cemitério, a família fez questão de convidar o padre para a
confraternização que se seguia, na “tenda” preparada junto da casa dos
familiares. Acedendo ao convite, o padre associou-se à refeição festiva,
mas antes de anoitecer despediu-se para palmilhar a pé o caminho do
regresso a casa. A família continuou a festa que se prolongaria toda a
noite com música e dança. Tudo isto para celebrar uma das tradições
deste país, chamada Kore Metan (lit. cor preta), e que assinala o
“desluto” (fim do luto), um ano após a morte de alguém.
Quando ao anoitecer o frei Fernando chegou ao convento,
esperava-o o jovem vocacionado Diogo, vindo de Díli, que ficou uma
semana por cá, pondo termo a alguns dias de vida conventual reduzida a
um frade apenas.
Quinta-feira, 9 de Setembro de 2004 -
Manhã cedo, o frei Fernando dirigiu-se a
Díli, de moto. Parou em Hera, no convento das Carmelitas, para deixar
orientações às Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias, de
Baucau, que ontem ali iniciaram o seu retiro. Dali seguiu até ao centro
da capital, mas ao fim da manhã já estava de regresso a Laleia. Quando
chegou ao convento, já os trabalhadores da Ensul tinham arrumado as
“trouxas”, dando por terminadas as pequenas obras de remodelação do
telhado.
Esta tarde o frei Fernando voltou a Samalai, de moto,
para a celebração de mais uma Missa Requiem por ocasião do
Kore Metan. Por isso, entregou aos leigos a orientação do habitual
momento de Adoração das Quintas-feiras.
Sábado, 11 de Setembro de 2004 -
Em Laleia, dentro da Eucaristia Vespertina,
fez-se a celebração do Baptismo de uma dezena de crianças. Três delas,
já razoavelmente crescidas, irão fazer este mês a Primeira Comunhão (e
Profissão de Fé).
Segunda-feira, 13 de Setembro de 2004 -
Ao fim da manhã chega o jovem vocacionado
António, de Baucau. Com ele esperava-se também o Gregório, que acabou
por não vir.
A meio da tarde, começa, em Laleia, a preparação próxima
para a Primeira Comunhão. A Irmã Helena e a Irmã Nieta, assumiram esta
preparação, com a ajuda dos catequistas de bairro e alguns poucos
jovens. Foi o início de duas semanas intensas para os mais de 100
adolescentes, que com entusiasmo ensaiaram os cânticos e as cerimónias
da celebração em que eles serão os principais protagonistas.
Terça-feira,
14 de Setembro de 2004 -
Depois das Laudes com o Povo e do
pequeno-almoço, os irmãos dirigiram-se a Díli, desta vez suficientemente
acompanhados pelo Diogo, que aproveitou a boleia de regresso a Díli,
pelo António, que aproveitou para estar com os familiares em Díli, e por
alguns leigos, que aproveitaram para resolver em Díli a compra de peças
necessárias para a descascadora da Missão. No regresso, ao fim da tarde,
com o António veio também o seu primo, que dormiu esta noite no convento
para seguirem os dois na manhã seguinte para Baucau.
Sábado,
18 de Setembro de 2004 -
Os casamentos estão de volta a Laleia, ao
fim de longos meses sem darem sinais de vida. Apesar de se ter
instituído um Sábado mensal para casamentos, só um par de noivos todo
especial aproveitou esta proposta pastoral (cf. crónica do dia 28 de
Fevereiro). Não é que o amor tenha estas escolhas, mas o intenso
trabalho da várzea entre Janeiro e Julho impede qualquer pretensão de
grandes folias. Até a “pequena folia” da Missa do Domingo fica
notoriamente fora do programa de muitos cristãos. Por outro lado, os
meses de Setembro a Dezembro, para além do descanso são também marcados
pela abundância do arroz há pouco colhido. E se o barlaque
obrigar o noivo a dar uma boa quantidade de búfalos à família para
“pagar” (?) o amor que sente pela noiva, então o arroz branco pode
ganhar outras cores e sabores de um bom “molho” timorense.
Por estas ou por outras razões, esta festa de casamento
juntou uma multidão de gente, tanto na igreja para a celebração às
16h00, antecipando a habitual missa dominical das 17h00, como, ainda
mais, na tenda da confraternização, onde as pessoas tiveram que aguardar
mais uma cadeira que entretanto se conseguiu na casa do vizinho. Quanto
a mesas não há problema, porque é só uma, ao centro, onde todos vão
buscar o seu quinhão quando o cerimonial assim o mandar. O mais que pode
acontecer é ter que haver um tempo de espera, enquanto se lava a louça e
prepara comida para um outro grupo. Esperas que não atingem nunca nem o
Amu nem os missionários, pois por respeito e exigência do
cerimonial são os primeiros a avançar.
Os irmãos, como habitualmente, foram também convidados,
marcando presença na igreja e na tenda. Mas enquanto que para os mais
foliões a festa durou toda a noite, com música e dança, os irmãos
aproveitaram para recolher bem mais cedo ao convento, pois, para além de
serem cerimoniais mais suspeitos para gente consagrada, o dia seguinte
era de intenso trabalho.
Domingo, 19 de Setembro de 2004 -
Para além das Eucaristias habituais ao Domingo,
o frei Fernando “meteu água” para a bênção de uma nova Mikrolet, em
Laleia, no fim da Missa; e para o baptismo de cinco crianças em Cairui e
outras cinco em Samalai, integrando a celebração do Baptismo dentro da
Eucaristia.
Segunda-feira, 20 de Setembro de 2004 - A
meio da manhã chegou ao convento o jovem vocacionado Cirilo, de Vemasse.
Ficou toda a semana, revelando-se um grande mestre de culinária à moda
timorense.
Terça-feira, 21 de Setembro de 2004 -
Mais uma vez, o frei José Luís prestou o
serviço fraterno de uma viagem a Díli, para resolver assuntos que só na
capital poderão eventualmente ter solução. Saiu de manhã cedo e voltou
já depois da hora do jantar, trazendo o carro cheio, mas ainda não de
todas as coisas que são necessárias para acolher minimamente os 12
aspirantes que no próximo dia 1 de Outubro deverão dar entrada neste
convento.
Pouco antes da hora do almoço, chegam os jovens
vocacionados Antonino e Pedro, de Díli. O Antonino ficou até Quinta,
prometendo voltar na próxima semana para ajudar o frei José Luís nalguns
trabalhos da oficina. O Pedro ficou até Sábado. Um e outro esperarão o
programa de actividades vocacionais a propor aos que ficam na “lista de
espera” para uma futura entrada no convento, após discernimento
favorável.
Quarta-feira, 22 de Setembro de 2004 -
O frei José Luís aproveitou a manhã deste dia
para ir à Ribeira buscar areia, acompanhado dos três jovens
vocacionados. Pelo caminho, um cão preguiçoso não se afastou a tempo,
acabando por ser vítima do jipe dos freis. O que, à ida, parecia apenas
um simples atropelamento, revelou-se, à vinda, um acontecimento trágico
ao encontrarem o cão morto à beira da estrada. Para cumprir a obra de
misericórdia, carregou-se o animal defunto para o jipe e, chegados a
casa, procedeu-se ao enterro.
Já de tarde, vem o dono exigir o pagamento do cão, que
tinha comprado para guardar os búfalos. Como o ecónomo não estava em
casa, ficou de vir no outro dia. Na altura em que esta crónica se
escreve, dois dias depois, ainda não voltou a reclamar a indemnização.
Terá compreendido que o cão é que foi culpado, e não o condutor? Ou teme
enfrentar o ecónomo, por ser Amu e Nailulik (= senhor
sagrado/padre)? Ora, aqui está uma das situações típicas duma terra onde
a justiça tem as suas leis e procedimentos que nem sempre passam pelos
tribunais, advogados e juízes.
Quinta-feira, 23 de Setembro de 2004 -
O programa do frei José Luís para esta manhã
teve uma alteração imprevista. A máquina descascadora do arroz
pertencente à Missão acusou mais uma avaria, facilmente reparável com
uma viagem a Baucau para soldar uma pequena peça, nos serviços
“metalúrgicos” da Diocese.
À hora marcada, já a Igreja de Laleia estava composta
com a presença dos adolescentes que no próximo Domingo farão a Primeira
Comunhão. Hoje vieram mais cedo que nos dias anteriores, para celebrar,
pela primeira vez, o Sacramento da Reconciliação. Após uma pequena
celebração comunitária orientada pelo frei Fernando, seguiu-se a
confissão e absolvição individual. Ao fim de duas horas, o “confessor”
absolvia o último destes 103 adolescentes que assim renovaram a graça do
Baptismo.
Com uma hora de atraso, seguiu-se a Adoração com a
presença de todos eles e mais alguns cristãos que pacientemente
esperaram o fim das “confissões”. Apesar de abreviado, foi um momento de
oração muito participado por todos eles.
Sexta-feira,
24 de Setembro de 2004 -
No início da manhã, o frei Fernando vai a
Díli, de moto. O motivo principal era concluir o processo de
regularização temporária de permanência. Assim que conseguiu resolver
este assunto no Ministério do Interior, regressa a Laleia, onde chega um
pouco antes das 17h00.
Sem grandes demoras, troca a moto pelo jipe e segue para
Baucau, a fim celebrar a Eucaristia às irmãs Franciscanas de Nossa
Senhora das Vitórias, neste dia em que a Irmã Alda Miranda celebrava 44
anos de vida. Depois do jantar voltou a Laleia, encontrando o frei José
Luís e os dois jovens vocacionados a rezar o terço na varanda.
Sábado, 25 de Setembro de 2004 -
Ir a Díli pode parecer uma passeio, mas
trata-se sobretudo de uma obrigação. O frei José Luís cumpriu mais uma
vez esta obrigação fraterna, desta vez para ir juntando o material
necessário para acolher os candidatos que entretanto começarão a sua
formação neste convento. Para o ajudar nas compras, acompanhou-o a Irmã
Beatriz. Também o jovem vocacionado Pedro aproveitou a boleia de
regresso a Díli. Ao fim da tarde estava de volta.
Em Laleia, o frei Fernando presidiu a um Casamento, na
Missa Vespertina habitual das 17h00. Foi o casamento mais “à moda”
portuguesa que se viu por estes lados. O noivo é professor.
Notava-se!... O Frei José Luís representa a fraternidade na
confraternização que se seguiu.
Após esta celebração em Laleia, o frei Fernando seguiu
para Samalai e Cairui, onde celebrou a Eucaristia Vespertina às 18h30 e
19h30, respectivamente. Assim, com esta mudança de horário nas
celebrações dominicais, se garantia um horário mais apropriado para a
celebração da Primeira Comunhão, em Laleia, no dia seguinte.
Mais pelo convento, nas lides domésticas, ficou o jovem
vocacionado Cirílo que o frei Fernando levou a casa da família, em
Vemasse, em hora já adiantada da noite. Concluía assim uma semana de
presença na fraternidade à qual prestou vários serviços fraternos.
Domingo, 26 de Setembro de 2004 -
Com pontualidade, rara nestas terras,
iniciou-se às 10h00 da manhã a celebração da Festa da Primeira comunhão
de 103
adolescentes, na Igreja de Laleia. Seguiu-se a confraternização no
Centro Comunitário, organizada pelos pais em colaboração com os
catequistas de bairro. Ficou o apelo a continuar a formação, por grupos,
até ao Crisma.
Antes desta celebração, tivemos a visita inesperada do
jovem vocacionado Augusto, de Railaco. A ânsia de ser franciscano, ou a
incapacidade de compreender as muitas vezes que se lhe disse já que só
em fins de Outubro é que lhes seria comunicado o programa de contactos
vocacionais, levou-o a fazer esta viagem um pouco “em vão”. Regressou ao
fim da Missa da Primeira Comunhão.
Ao princípio da tarde, nova visita, também inesperada,
do jovem vocacionado Pedro, que no dia anterior tinha regressado a Díli
com o frei José Luís mas voltou hoje para pegar o saco que havia
esquecido. Distracções acontecem... até aos timorenses!
Menos imprevista foi a falta de água. Em virtude das
canalizações do saneamento estarem muito danificadas, esta nossa “irmã
tão útil, e humilde, e preciosa e casta”, entra muito pouca no depósito.
E a que entra continua a sumir-se, não se sabe bem como. Mais uma vez,
como acontece de há uns dias para cá, ficámos sem pinga de água no
depósito, valendo-nos da que ficou armazenada no poço que o frei José
Luís construiu no jardim do convento.
Terça-feira, 28 de Setembro de 2004 -
Os irmãos da fraternidade, depois de terem
rezado as Laudes abreviadas na capela do convento, juntaram-se a um
razoável
grupo de fiéis de Laleia que hoje iniciaram a Novena de Preparação para
a festa da Padroeira, a Senhora do Rosário. Após a colocação da imagem
(a suplente, que a “Rainha” não pode sair do pedestal) no andor
preparado ao lado do altar, os leigos orientaram as orações e cânticos
tradicionais da novena, em língua portuguesa. Depois, pelas 7h00, deu-se
início à Eucaristia, aproveitando o momento da homilia para uma reflexão
sobre Nossa Senhora, a partir da Carta Apostólica sobre o Rosário. Esta
reflexão fez-se nos três primeiros dias da novena, nos dois primeiros
orientada pelo frei Fernando e no último pela Irmã Helena.
Quarta-feira, 29 de Setembro de 2004 -
A fraternidade, desde o dia 9 de Agosto
reduzida a dois irmãos, foi hoje reforçada com a chegada do frei
Clemente e do jovem Ricardo. Para os trazer do aeroporto, onde aterraram
às 8h15, o frei José Luís deslocou-se a Díli, saindo bem cedo de casa.
Ao fim da manhã já pisavam o chão de Laleia. À noite, após o jantar,
fizeram a primeira visita ao Centro Missionário Brasileiro, acompanhados
pelo frei José Luís.
Enquanto o frei José Luís andou nestas andanças
fraternas, o frei Fernando viu-se obrigado a voltar-se mais para as
lides pastorais, agora intensificadas com a preparação das festas de São
Francisco e da Padroeira de Laleia.
Quinta-feira, 30 de Setembro de 2004 -
Os recém-chegados missionários acompanharam
o frei José Luís numa ida a Baucau. A visita às Irmãs Franciscanas de
Nossa Senhora das Vitórias acabou por lhes garantir o almoço,
regressando a Laleia no início da tarde.