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A época das chuvas parece longe do fim

Dame no Kmanek

Quando nos princípios de Maio tivemos alguns dias de intenso calor, suficiente para secar as poucas ervas que se atreveram a nascer nesta árida região, pensamos que a época das chuvas teria chegado ao fim. Bem nos enganamos. Nas últimas duas semanas tem chovido constantemente e de forma, às vezes, algo assustadora. Sobretudo à noite, o barulho da chuva a bater com força nas chapas de zinco que constituem o telhado, deixa qualquer um alerta.

Ao longo da estrada para Díli já se vêm extensas áreas queimadas. As (raras) tabuletas colocadas pelo Ministério da Agricultura, Pescas e Florestas a alertar para a necessidade de preservação das (escassas) florestas, não conseguem mudar mentalidades. Muitos pastores (bibi-atan) acreditam que, se não queimarem as ervas secas, não nascerão novas no ano seguinte. Conclusão, ardem ervas, ardem árvores, arde tudo o que sentir o beijo do fogo.

Outra grave consequência destas queimadas são os deslizamentos de terras. É sabido que as raízes das plantas e árvores fixam o solo; havendo queimadas, com as primeiras chuvas, toneladas de terra descem encostas abaixo até chegar ao mar tendo, para isso, muitas vezes, atravessado estradas e aldeias. Juntamente com estas terras vêm minerais, o que piora ainda mais a qualidade da terra nas zonas que os perderam.

O mau tempo fez temer o pior, depois de várias semanas de preparação para o Pentecostes Hamutuk mas, felizmente, só começou a chover a meio da tarde.

Quarta-feira, 26 de Maio de 2004 - Hoje fazia parte do programa a ida a Díli. Paramos alguns quilómetros depois de Manatuto, numa zona tranquila, para celebrar a eucaristia em Fraternidade. A poucos metros do mar, protegidos pela sombra de árvores de grande porte, alguns velhos troncos serviram de bancos e uma pedra lisa de altar.

Depois do almoço e de tratarmos de diversos assuntos, o frei Fernando foi para o Seminário pois no dia seguinte aí daria uma aula sobre Exegese de São João, poupando assim duas viagens. O frei José Luís e o frei Filipe regressaram a Laleia ao entardecer.

Quinta-feira, 27 de Maio de 2004 - Ao final da tarde, vieram chamar o frei Fernando para sacramentar um doente (até o Sacramento do Matrimónio). À noite, alguns familiares deste senhor pediram às irmãs brasileiras se podiam ir a Cairui buscar um mediku-timor, uma espécie de curandeiro, para dar remédios tradicionais ao doente. Elas tinham tido um pequeno acidente na véspera e o motorista delas estava bastante cansado, para além de que teriam que ir para Laclubar no dia seguinte. Então as irmãs pediram-nos para irmos nós a Cairui, no jipe delas e o frei Filipe lá os acompanhou.

Apesar de cedo (20h), era já noite escura e o céu estava carregado de nuvens, prontas a fazer das suas. O combinado tinha sido eu parar no bairro de UmaKlalan para que alguém da família me acompanhasse pois eu não conhecia o tal mediku. Quando parei o jipe, entraram três homens para dentro e outros tantos, pelo menos, para a parte de trás. Dois traziam lanternas, os outros catanas (catana: faca com cerca de meio metro de lámina bem afiada). Fui e vim sem perceber para que as levaram. Será um velho hábito que não querem perder? Seja como for, lá saímos em direcção a Cairui.

A viagem foi demorada porque tinha chovido toda a tarde e o caminho estava coberto de lama. À passagem por Samalai, as luzes do jipe certamente ofuscaram a ténue luz das velas, único meio de iluminação acessível aos habitantes desta pequena aldeia, que iluminava as mesas à volta das quais as famílias estariam reunidas, àquela hora.

Continuamos, agora mais próximos da ribeira. Apenas uma pequena várzea nos separa de um rio que algumas semanas atrás se resumia a um regato. As fortes chuvas que se têm feito sentir nesta região aumentaram o caudal do rio o que constitui uma ameaça para a produção do arroz, praticamente o único sustento destas populações. Para já, as chuvas não causaram grandes estragos, mesmo nos sítios onde está pronto a colher mas, se isto continua, não se sabe o que poderá acontecer, comentaram alguns, com o olhar no futuro e nalguma má experiência do passado.

À noite a fauna visível é mais abundante do que de dia. Dezenas de insectos, desde os pequenos mas mortíferos mosquitos até aos gafanhotos com dimensões suficientemente generosas para serem procurados como petisco (será como o marisco para nós, em Portugal), nesta altura do ano, teimam em entrar no jipe e distrair-nos o olhar dos bonitos mochos que vigiam os canais de irrigação onde não faltarão ratos e pequenas cobras. As grandes, não as vimos mas elas andam por aí. Daí a admiração dos homens quando vimos dois javalis a atravessar a estrada. Dizem eles que, nesta altura, as jiboias andam particularmente activas e por isso é que têm sempre alguém a olhar pelas crias de búfalo (sim, as jiboias conseguem engolir uma cria de búfalo). Dizem que só há uma maneira de as apanhar: esperar que elas apanhem um cabrito ou um porco e, então sim, apanhá-las de barriga cheia. No ano passado os homens apanharam uma e mostraram-na às irmãs de Vemasse, pensando que elas teriam gosto em vê-la. Enganaram-se,... elas terão desatado aos gritos.

Chegámos a Cairui. Muitas pessoas, admiradas pela presença de um carro, deixaram as suas pequenas cabanas, alumiadas pela lua, e vieram para a rua. Nós seguimos até ao fundo da aldeia e fomos em direcção à casa do mediku que, é também o director da escola deste lugar. Esperamos cerca de meia hora para que ele preparasse o remédio e regressamos.

Sexta-feira, 28 de Maio de 2004 - De manhã o frei Fernando deu folga aos seus alunos para poder participar num encontro promovido pela Comissão Catequética da Diocese de Baucau sobre a realidade da Catequese em Timor, e que contou com a presença do Bispo, D. Basílio do Nascimento. Infelizmente, as novidades apresentadas não foram muitas, mas ficou marcado um outro encontro para Junho. À tarde foi a Samalai, de bicicleta, dar a formação catequética em atraso e a Cairui ajudar o coro nos ensaios para a festa do "Pentecostes Hamutuk".

Sábado, 29 de Maio de 2004 - Às 17h tivemos eucaristia (pouco) animada pelos escuteiros.

Domingo, 30 de Maio de 2004 - A noite previa-se curta, e assim foi. De madrugada, poucas horas depois de se deitarem (pareceram minutos), os freis levantaram-se para tomar o pequeno-almoço e rezar Laudes. Estava marcado para as 6h30 o encontro com o povo e a partida em direcção a Samalai. À mesma hora, os cristãos de Cairui, também deveriam partir em direcção a Samalai. As duas horas de caminhada seriam coroadas de significado: caminhar ao encontro do irmão! Para isso nada melhor do que celebrar uma via-lucis com muitos cânticos, em Tétum e Português, à mistura. Quando chegámos a Samalai passamos pela ribeira para nos lavarmos e tentarmos tirar alguma da lama da nossa roupa. Fica o registo do hábito do frei Fernando. Antes da eucaristia tomamos um pouco de café e farinha de milho com coco. Fizeram-se os últimos ensaios e começou a celebração da eucaristia, onde não faltaram elementos simbólicos tais como a libertação de três pombas pelos três Liurais da Estação Missionária ou as danças perpetradas por crianças vestidas com tais, levando para o altar sete cartazes com os dons do Espírito Santo e sete velas que envolveram o altar e os três círios pascais dos três centros de culto por nós animados. O almoço foi uma pequena merenda que cada um se encarregou de levar. Apesar disso, Samalai preparou um pouco de arroz para quem quisesse. Para a tarde estavam reservados vários jogos. O mais participado foi o das fisgas. Os adolescentes de cada equipa tinham que acertar em letras para formar palavras. O regresso fez-se debaixo de chuva intensa.

Segunda-feira, 31 de Maio de 2004 - Hoje, ao contrário do que é habitual, a eucaristia não foi nem às 6h30, nem na igreja mas às 17h, e na gruta. Assim é costume tanto na abertura como no encerramento do mês de Maria. Orientados pelo frei José Luís, alguns escuteiros estiveram desde as 19h até às 22h a limpar canas de bambu para a vedação da igreja.

Terça-feira, 1 de Junho de 2004 - À tarde, o frei Fernando reuniu com o conselho económico da "Quase Paróquia de Laleia", enquanto o frei Filipe reuniu com a equipa de Liturgia do bairro de Linau e o frei José Luís com quatro escuteiros.

frei Hermano Filipe

 

 
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