Faz hoje, 20 de Maio de 2004, dois anos
que o povo timorense pôde, finalmente, respirar de alívio, sentindo-se
livre, dono de si mesmo, do seu destino, depois de centenas de anos de
opressão, primeiro pelos dirigentes portugueses que apenas estavam
interessados no sândalo e outras matérias-primas que hoje são raras,
depois pelos japoneses que terão morto cerca de 60 mil pessoas aquando
da ocupação deste território, durante a Segunda Guerra Mundial e,
finalmente, pelos militares indonésios que fizeram durante mais de duas
décadas aquilo que todos nós já sabemos ou, pelo menos, fazemos uma
pequena ideia.
A maior concentração de pessoas para as comemorações
deste segundo aniversário
de independência (2002-2004), estava marcada,
obviamente, para Díli, a capital desta jovem nação. Só a título
de curiosidade: em 1970, viviam em Díli 30 mil pessoas, hoje, são
quase 600 mil, sendo que este número tomou estas proporções sobretudo
após o referendo em 1999. Isto significa que em Díli vive cerca de 60%
da população do país, mais 20 vezes do que apenas alguns anos antes. Os
nossos leitores poderiam agora perguntar-se: mas, como é possível uma
cidade preparar-se estruturalmente para ter um aumento da população,
desta natureza? Não pôde, não pôde preparar-se e é, sem dúvida a cidade
mais caótica e desorganizada que nós já vimos e "caótica" e
"desorganizada" são expressões do próprio administrador do Distrito de
Díli. Mesmo assim, Díli lá recebeu mais uma enchente de
gente alegre, com vontade de se divertir, de saborear a liberdade, de se
encontrar e trocar ideias para o futuro sem medo de repressão.
Em Laleia as coisas foram mais calmas mas também marcadas pela
festa. Às 7h00, o sr. João, tocou o sino, lembrando os cristãos de
Laleia de que teriam eucaristia uma hora mais tarde. Na verdade,
começou às 8h20 porque os acólitos tinham deixado o turíbulo em
Samalai e foram buscá-lo de motorizada. Praticamente toda a
população marcou presença na praça da Vila, onde decidimos celebrar esta
eucaristia de agradecimento a Deus pelo dom da Liberdade.
As crianças e adolescentes traziam as fardas das respectivas escolas
dando um colorido engraçado à praça. Muitas senhoras,
a maior parte viúvas,
vestiram roupas
tradicionais. Ao meu lado a Dª Joana que perdeu o seu
marido em 1978, a Dª Estefânia, cujo
marido faleceu poucos meses depois da ONU entrar em Timor, não tendo
tido tempo para saborear a liberdade que buscou durante tantos anos no mato,
junto do comandante Xanana e as irmãs brasileiras. O Liurai Tomé
fez as Monições. Quando a eucaristia terminou, os freis
foram convidados pela administração do sub-distrito de Laleia a tomar um
café enquanto preparavam o içar da bandeira. Vários adolescentes
numa espécie de
parada militar seguravam orgulhosamente uma bandeira que custou muitas
lágrimas aos seus pais. Várias pessoas não
conseguiam esconder a emoção, sobretudo os mais velhos, talvez pensando
naqueles que morreram, talvez pensando o quanto gostariam que eles aqui
estivessem para também sentirem como é bom poderem expressar-se livremente.
Nos mais jovens era visível um
sentimento patriótico, talvez algo exacerbado. Esta questão de ensinarem
e obrigarem os adolescentes a poses e marchas militares é algo
discutível.
Recordo, ao escrever
este diário, o rosto de um homem que estava perto de mim, e que, quer durante a celebração da
eucaristia, quer durante o içar da bandeira, nunca se riu, nunca chorou,
nunca mexeu os lábios.
Esteve simplesmente,... sereno. Depois vim a saber que ele esteve no mato desde 1975 até 1999.
Quase esqueceu o Tétum; a sua linguagem resume-se ao Galole, dialecto
local e aos gestos, dialecto mais frequente no mato para impedir que o
"inimigo" os detectem. Não estou a falar de
estratégia militar, mas de homens que lutaram toda a sua vida por algo
em que acreditavam, a Liberdade. Oxalá as gerações mais
jovens saibam dar um sentido positivo a todo o sofrimento dos seus pais,
dos seus antepassados e ajudem a consolidar a democracia, para que este
povo seja realmente livre. Isto é só o princípio. A nação foi libertada, agora...
falta o povo!
Sexta-feira, 21 de
Maio de 2004 - De manhã o frei José Luís seguiu para Díli com as
Irmãs Brasileiras para as ajudar a trocar os pneus do jipe e para as
levar ao local onde tinham uma reunião. O frei Filipe também foi para
Díli, mas só no final das aulas. Foi tratar de diversos assuntos entre
os quais o da legalização da moto. Agora só falta a matricula.
Mandaram-nos voltar lá em Agosto, o que significa que o processo de
legalização do veículo só deverá estar concluído um ano depois da sua
compra. Regressou, no entanto, cedo, a tempo de rezar Vésperas com o
frei Fernando, que ficou a guardar o Convento e a preparar o
resumo a ser usado pelas irmãs Concepcionistas para a formação de
catequistas no próximo Domingo.
Sábado, 22 de Maio de 2004 - A meio da manhã o frei
Fernando seguiu para Baucau a fim de celebrar eucaristia para as irmãs
FNSV que, de duas em duas semanas reservam toda a manhã de Sábado para
retiro que culmina com algum sermão encomendado ao frei Fernando
e a eucaristia. O frei Filipe ficou a
tratar da roupa e o frei José Luís continuou o trabalho que já havia
iniciado na semana passada, de recuperação dos velhos portões do adro da
Igreja.
Quando regressou, o
frei Fernando trouxe consigo o Martinho e o António. Ficarão connosco
até ao almoço de amanhã. A meio da tarde os
escuteiros de Laleia esperavam impacientemente alguns escuteiros de
Baucau que foram convidados para uma partida de futebol e para
pernoitarem (à mercê dos mosquitos) no adro da igreja. À noite os freis
resolveram partilhar alguns pacotes de bolachas por verem que havia
alguns rostos de quem comia mais qualquer coisita.
Domingo, 23 de Maio
de 2004 - De manhã os escuteiros
levaram água para a torre, mas voltaram a gastá-la toda! Neste Domingo,
o programa das eucaristias e da formação de catequistas foi um
pouco diferente do habitual porque, amanhã, em Samalai, é a festa da
padroeira e hoje tinham procissão. À 7h30, fizemos a
Via-Lucis entre o bairro de Umaiuk e a Igreja onde teve lugar a
celebração da eucaristia às 8h00. Depois da eucaristia duas das irmãs de
Vemasse, a irmã Cristina e a irmã Madalena apresentaram o tema desta
semana, para a formação dos catequistas e seguimos para Cairui. Em
Cairui o frei Fernando celebrou a eucaristia onde participaram as irmãs
que a seguir repetiram a formação para os catequistas de Cairui e
Samalai. Na verdade, de Samalai, só o sr. Matias, esteve
presente; todos os outros ficaram a ultimar
os preparativos para a festa da Padroeira.
Enquanto isso, o frei
Filipe esteve a dar formação franciscana, ao Martinho e ao António. O frei Fernando ficou
em Samalai e o frei Filipe regressou a Laleia com as irmãs
Concepcionistas que se puderam deliciar e retemperar forças com uma
feijoada à transmontana preparada pelo frei José Luís.
A seguir ao almoço o
Martinho e o António regressaram a Baucau e o frei José Luís foi a
Manatuto levar alguns escuteiros. Entretanto o frei Filipe seguiu no
jipe das irmãs brasileiras, com estas, para Vemasse, onde foram até à
praia. Menos de uma hora não deu para muito mas deu para matar saudades
do mar. Aqui tão perto mas, sem nunca termos tempo para saborearmos este
presente da natureza.
Ficamos também a saber
que a irmã Patrícia não
está nada bem de saúde e que, provavelmente, terá que regressar a Portugal.
Segunda-feira, 24 de
Maio de 2004 - Como habitualmente, os
freis iniciaram mais uma semana de aulas. Desta vez o frei Fernando teve
que dar "folga" aos seus alunos porque é o dia da padroeira de Samalai,
Nossa Senhora Auxiliadora, e
ele foi celebrar eucaristia. À eucaristia seguiu-se um almoço festivo,
como os timorenses bem sabem preparar. À tarde, o frei Fernando
foi dar aulas de música. Os momentos de Oração Comunitária deste dia
foram marcados pela Festa da dedicação da Basílica de São Francisco, em
Assis, animados pelo frei Filipe, habdomadário desta semana.
Terça-feira, 25 de
Maio de 2004 - Às 16h, o frei José Luís
deu uma aula de português. Às 17h houve reunião com
o Conselho Económico. Marcou presença o sr. Domingos, empreiteiro da
terra, para fazer uma avaliação dos eventuais custos com a recuperação
do telhado e outros pequenos arranjos na igreja.
frei Hermano Filipe