Antes do Deus de Jesus Cristo aqui ter chegado e ser celebrado nas
Uma Kreda do cr
istianismo actual, já o Deus do mar e das florestas
era reconhecido e venerado nas Uma Lulik das aldeias
ancestrais. Deus chegou ao povo, primeiro através das montanhas da
natureza; só depois o povo acreditou nas montanhas da Bíblia.
O Deus da História manifestou-se primeiro na Natureza, e o cume das
montanhas foi sempre um lugar privilegiado para os cenários das
grandes teofanias bíblicas; não porque Deus, para falar com os homens,
tivesse necessidade de descer, mas porque o homem, para se encontrar
com Deus, deve subir das realidades e caminhar até lá onde o céu e o
sol ficam mais perto.
As
montanhas da Bíblia
Na montanha,
Abraão
encontrou o
horizonte de todas as escaladas para Deus, que supôs deixar a terra
natal, a família, os bens e pôr-se a caminho «para a terra que Eu
te indicar» e ser berço de um novo povo (Gn 12, 1-9).
Na montanha,
Moisés
ouviu o trovão de Deus a apelar à paciência para com esse povo que lá
em baixo se deixou contaminar pelo oiro da ambição e a ilusão dos
ídolos (Ex 31,18; 32,1-14).
Na montanha,
Elias
rezou com o rosto
por terra e a chuva caiu abundante como bênção para o povo, sedento de
respostas de Deus (1 Rs 18,44).
No monte
das
Oliveiras, Jesus proclamou as bem-aventuranças (Mt
5, 1-12). S. Lucas diz que foi na planície: mais uma vez, não é
o lugar, a hora e o texto que contam, mas o seu conteúdo e simbolismo.
No monte da
Transfiguração,
Pedro, Tiago e João
testemunharam o cumprimento das profecias,
ouviram a voz do Pai e viram a glória do Filho (Mc 9,2-10).
No monte
Calvário, Jesus, pelo sacrifício da cruz, passou à
Páscoa e realizou a grande transfiguração humana (Jo 19,17-30).
As
montanhas da História
Na montanha,
Francisco de Assis
foi marcado com os sinais da Paixão de Cristo, perante o cenário
festivo do Alverne e a aclamação de todas as criaturas.
Na Montanha,
Bento de Núrsia
implantou a frente avançada de um exército de oração e trabalho.
Na montanha,
Konis Santana e
Xanana Gusmão encontraram um refúgio, fizeram um
santuário e alimentaram uma esperança. E à voz subterrânea e lendária
desta montanha de Ramelau é que o povo de Timor ainda agora
sobe, peregrino, para ouvir a voz do Deus de Jesus Cristo.
Na serra
da
Estrela, são ainda os pastores que melhor representam o povo
das montanhas na escuta da beleza de Deus, e a transmitem aos turistas
transformada em lã, queijo e sabedoria.
Na montanha
da Leba, o povo Kuanhama do sul de Angola celebra as crenças
antigas, baptizadas no santuário e no culto de hoje à Senhora do
Monte.
As
montanhas da vida
A Bíblia fala ainda
de outras montanhas, que são outras presenças de Deus no peregrinar do
povo, novos apelos à desinstalação das rotinas e denúncias ao
conformismo horizontal. O povo bíblico gostava de subir, pensando que
Deus estava lá em cima; Deus gostava de descer, sabendo que o povo
tinha consciência das suas planícies de lágrimas e exílios.
Hoje, a montanha é
também um convite à libertação do mundo provisório, de
horizontes curtos e monótonos e deixar-se conduzir até à nuvem da
aventura e do mistério, lugar onde Jesus montou a tenda da nossa
transfiguração.
O montanhismo é
aliciante não só pelo que tem de aventura, desporto e libertação, mas
também pelo que exige de catarse, disciplina mental, renúncia e auto
domínio.
Deus, tanto fala na
montanha como na planície, mas o homem, só quando se eleva, consegue
distinguir os sons divinos.
Frei Manuel Rito
Dias
Díli
(Timor-Leste)