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O Povo das Montanhas

 

Um grande vulcão terá dado origem às ilhas

dispersas por esta zona austronésica,

semeando de montes, ribeiras e florestas

o território de Timor.

 

 

Antes do Deus de Jesus Cristo aqui ter chegado e ser celebrado nas Uma Kreda do crNa foto, montanhas de Timor-Lesteistianismo actual, já o Deus do mar e das florestas era reconhecido e venerado nas Uma Lulik das aldeias ancestrais. Deus chegou ao povo, primeiro através das montanhas da natureza; só depois o povo acreditou nas montanhas da Bíblia.

 

O Deus da História manifestou-se primeiro na Natureza, e o cume das montanhas foi sempre um lugar privilegiado para os cenários das grandes teofanias bíblicas; não porque Deus, para falar com os homens, tivesse necessidade de descer, mas porque o homem, para se encontrar com Deus, deve subir das realidades e caminhar até lá onde o céu e o sol ficam mais perto.

 

 

As montanhas da Bíblia

 

Na montanha, Abraão encontrou o horizonte de todas as escaladas para Deus, que supôs deixar a terra natal, a família, os bens e pôr-se a caminho «para a terra que Eu te indicar» e ser berço de um novo povo (Gn 12, 1-9).

 

Na montanha, Moisés ouviu o trovão de Deus a apelar à paciência para com esse povo que lá em baixo se deixou contaminar pelo oiro da ambição e a ilusão dos ídolos (Ex 31,18; 32,1-14).

 

Na montanha, Elias rezou com o rosto por terra e a chuva caiu abundante como bênção para o povo, sedento de respostas de Deus (1 Rs 18,44).

 

No monte das Oliveiras, Jesus proclamou as bem-aventuranças (Mt 5, 1-12). S. Lucas diz que foi na planície: mais uma vez, não é o lugar, a hora e o texto que contam, mas o seu conteúdo e simbolismo.

 

No monte da Transfiguração, Pedro, Tiago e João testemunharam o cumprimento das profecias, ouviram a voz do Pai e viram a glória do Filho (Mc 9,2-10).

 

No monte Calvário, Jesus, pelo sacrifício da cruz, passou à Páscoa e realizou a grande transfiguração humana (Jo 19,17-30).

 

 

As montanhas da História

 

Na montanha, Francisco de Assis foi marcado com os sinais da Paixão de Cristo, perante o cenário festivo do Alverne e a aclamação de todas as criaturas.

 

Na Montanha, Bento de Núrsia implantou a frente avançada de um exército de oração e trabalho.

 

Na montanha, Konis Santana e Xanana Gusmão encontraram um refúgio, fizeram um santuário e alimentaram uma esperança. E à voz subterrânea e lendária desta montanha de Ramelau é que o povo de Timor ainda agora sobe, peregrino, para ouvir a voz do Deus de Jesus Cristo.

 

Na serra da Estrela, são ainda os pastores que melhor representam o povo das montanhas na escuta da beleza de Deus, e a transmitem aos turistas transformada em lã, queijo e sabedoria.

 

Na montanha da Leba, o povo Kuanhama do sul de Angola celebra as crenças antigas, baptizadas no santuário e no culto de hoje à Senhora do Monte.

 

 

As montanhas da vida

 

A Bíblia fala ainda de outras montanhas, que são outras presenças de Deus no peregrinar do povo, novos apelos à desinstalação das rotinas e denúncias ao conformismo horizontal. O povo bíblico gostava de subir, pensando que Deus estava lá em cima; Deus gostava de descer, sabendo que o povo tinha consciência das suas planícies de lágrimas e exílios.

 

Hoje, a montanha é também um convite à libertação do mundo provisório, de horizontes curtos e monótonos e deixar-se conduzir até à nuvem da aventura e do mistério, lugar onde Jesus montou a tenda da nossa transfiguração.

 

O montanhismo é aliciante não só pelo que tem de aventura, desporto e libertação, mas também pelo que exige de catarse, disciplina mental, renúncia e auto domínio.

 

Deus, tanto fala na montanha como na planície, mas o homem, só quando se eleva, consegue distinguir os sons divinos.

 

 

Frei Manuel Rito Dias

Díli (Timor-Leste)

 

 
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