Na altura do
recreio, e como que por encanto, girândolas de risos e de límpidas
gargalhadas subiam lá do pátio vizinho e invadiam-lhe
as portas da casa
e do espírito. Aquela santa algazarra deixava-o intrigado: Por que
motivo se riam tanto aquelas monjas?! Como podiam ser felizes vivendo
com tão pouco? Que deitavam nos seus olhos para terem aquele brilho?
Rogou então à Superiora que lhe
desvendasse tal segredo. A boa Madre não lhe disse que, se o pão não
lhes sobrava na mesa, sobrava-lhes o amor que sacia todas as fomes; e
que, quando nos fiamos das nossas riquezas e seguranças, a alegria do
Espírito Santo foge de nós como gato escaldado. Declarou, apenas: «Somos
testemunhas da ressurreição.»
Aquele sábio não compreendeu, mas
lembrou-se de ter lido, no Diário de Montalembert, uma
página comovente, redigida no momento em que a sua filha deixava o lar
paterno para dar entrada num mosteiro:
«Quem é esse amante invisível
que tira a carne da nossa carne para a fazer inteiramente sua? Quem é
esse jardineiro que leva as mais bonitas flores dos nossos jardins
para as replantar nos seus? Pode ser, porventura, um homem morto? E
morto e sepultado, para mais, há tantos séculos?»
Efectivamente, a grande prova de
que Cristo está bem vivo e se recomenda é que ainda hoje existem
homens e mulheres que se entregam inteiramente a Ele. Ninguém faz isso
por Napoleão nem por Alexandre Magno.
O próprio Jesus, no Evangelho,
associou a profissão da virgindade à futura ressurreição (Lc 20,35).
Se hoje em dia escasseiam as vocações ao sacerdócio e à vida
consagrada, é porque também anda muito escassa a fé na vida eterna.
Uma criança ou um jovem, a quem os pais entopem os ouvidos com sonhos
de imensos bens materiais e com desejos de chupar até ao osso os
prazeres desta vida, como poderão escutar o divino apelo a deixar tudo
para seguirem a Cristo, que lhes promete um tesouro, sim, mas... lá no
Céu (Mc 10,21)?
Os antigos
Padres gregos chamavam à vida consagrada uma “especialização pascal”,
um ir “de Páscoa em Páscoa até à Páscoa eterna”. Mas todo o cristão
sabe que também ele tem de se enterrar até ao pescoço no mistério
pascal de Jesus Cristo. A fé na ressurreição não é um calmante que
suprime a dureza da vida e a limitação da morte, mas dá sentido e cor
a todas as realidades. Sem ela, a vida cristã não passaria de um
cortejo fúnebre atrás de Cristo morto...
Julien Green,
quando a ideia de converter-se ao catolicismo já bulia na sua alma,
postava-se à porta das igrejas para ver a cara dos homens e das
mulheres que saíam das celebrações. “Se foram mesmo encontrar-se com o
Senhor ressuscitado, os seus rostos hão-de brilhar como brasas
gloriosas” – pensava ele. Infelizmente, muitos saíam encurvados,
chuvosos, deprimidos… Mesmo assim, o romancista francês acabou por
converter-se.
Muitas mais pessoas aceitariam o
Divino Salvador se nós cristãos fizéssemos um tratamento urgente de
alegria. E temos razões de sobra para isso: Alguém ressuscitou antes
de nós! Agora é a nossa vez de vivermos como salvos e ressuscitados.
Abílio Pina Ribeiro