Depois de ter deitado fora o café por ter
visto coisas para além deste e ter um gosto estranho, partimos. Deixamos
para trás o enorme espaço do recreio da Escola de Santa Maria de Ainaro onde mais de 600
escuteiros estavam acampados. Em duas viaturas todo-o-terreno
de uma Organização das Nações Unidas, por caminhos serpenteando o início
da cordilheira de montanhas, cuja
mais alta é o Ramelau, lá fomos. Tínhamos como meta
Surucraik.
Para além dos dois motoristas, a expedição era composta por mim, 3
escuteiros, o coadjutor do pároco de Ainaro, uma representante das
Nações Unidas, o sub chefe de suco, e um jornalista.
A viagem durou cerca de uma hora e, como
em mais de 90% das estradas e caminhos de Timor, impróprios para doentes
de coluna, que é o meu caso, devido aos constantes buracos, e cardíacos,
nalguns pontos em que a pontaria
para os carros passarem tem que ser feita com profissionalismo para
evitar o despiste. A paisagem como em quase todo o maciço central, é
dominada por gigantescas árvores que crescem a partir dos profundos
vales para captar o máximo de luz e sol, palmeiras de várias espécies,
plantas, arbustos e flores. A planta do café é quase uma constante, já
que o distrito de Ainaro faz fronteira com Ermera, capital do café.
Demos boleia a crianças e mulheres que carregavam pesados sacos de arroz
e outros produtos. As crianças, devoravam com os olhos tudo o que viam
dentro da carrinha, através do vidro que separa a caixa da cabine, com
um sorriso de satisfação por tão grande oportunidade.
Esta narração bem podia ficar por aqui.
Talvez dizer que fomos como em todo o Timor, recebidos com “tais”, mas
não, quando chegamos, não foi difícil ver que Surucraik era uma aldeia
diferente. 53 casas com telhado de zinco ou folha de palmeira tinham
simplesmente desaparecido no dia 1 de Setembro. Os habitantes das mesmas
estão abrigados em toldos fornecidos pelas Nações Unidas. Das suas
habitações restavam apenas 4 ou 6 barrotes na vertical consumidos até
metade pelas chamas e o alicerce. A fúria intolerável de um de três
grupos de artes marciais provocou esta catástrofe, que infelizmente não
é a primeira depois da independência. Várias dezenas de suspeitos estão
presos à espera de julgamento enquanto Surucraik é patrulhada por cerca
de 15 agentes da polícia, com e sem farda.
Junto do posto de saúde, sob a sombra de
uma respeitosa árvore juntaram-se mais de 30 homens, jovens e crianças.
As catanas sempre afiadas e alguns galos atados por um cordel a uma
cerca e às raízes da árvore, completavam o cenário. Esta pequena
multidão estava até momentos antes da nossa chegada a preparar uma
enorme tenda com cerca de 200 metros quadrados para receber ministros e
deputados. A palavra de ordem é de reconciliação entre as famílias dos
criminosos.
Os objectivos que nos levou provavelmente
à aldeia mais triste de Timor foram essencialmente dois: explicar à
população quem eram os escuteiros e que os mesmos tinha a intenção de
oferecer às famílias que tudo ou quase tudo perderam, alguns alimentos,
no final do acampamento. A reunião demorou quase uma hora demorou, bem à
timorense, em que todos têm voz. Este encontro justificava-se para que
os escuteiros identificados com as suas fardas e lenços não fossem
confundidos como mais um grupo de marginais como os que provocaram os
desacatos no dia 1.
Não intervim com palavras, mas com a minha
presença, com o meu silêncio, com o meu contemplar, senti que dei
testemunho… rezei, cumprimentei e sorri a todos, de modo particular para
as crianças. Foi a melhor manhã de acampamento, mesmo sem café.
frei José Luís Caetano