De facto, a Dei Verbum
abriu perspectivas para uma relação mais amistosa e sadia entre a Bíblia
e a Igreja. No entanto, os objectivos propostos há quarenta anos pelo
Concílio, ainda estão longe de ser atingidos. Por isso vamos olhar para
a Dei Verbum e para a Igreja, ao mesmo tempo, em ordem a
encontrar as lacunas que ainda existem na Igreja.
1.
“Conversão” da
Igreja à Palavra
Esta é a pedra de toque, o
ponto de referência, em ordem a cumprir a DV e o Concílio, em
geral. Tudo depende deste ponto, que não podemos separar da conversão a
Cristo. Não nos convertemos a Cristo sem a conversão à sua Palavra;
pois, como diz a DV, citando S. Jerónimo: «Desconhecer a Bíblia é
desconhecer a Cristo.» Portanto, um primeiro passo a dar, por parte da
Igreja em relação à Bíblia, é a maior aproximação à Palavra. Isto exige,
sobretudo da parte dos sacerdotes e de outros agentes de Pastoral, uma
autêntica “conversão” à Palavra de Deus, ou seja, uma passagem do
sacramentalismo, em que nos deixámos cair, talvez por preguiça, à
evangelização pela Palavra.
2.
Não à ruptura entre os exegetas e o povo de Deus
Ainda existe um certo
distanciamento e, por vezes, ruptura entre a Igreja-povo de Deus e os
exegetas. No número 23, a DV lembra que os exegetas são a guarda
avançada da reflexão da Bíblia dentro da Igreja, ao serviço de toda a
comunidade eclesial. Mediante o seu estudo tornam-se instrumentos
preciosos do Magistério, pois é através deles que a Igreja aprofunda a
Palavra. No entanto, os exegetas são muitas vezes objecto de
desconfiança por parte de alguns sectores ou de algumas pessoas da
Igreja. Desta crise de confiança mútua resulta uma certa desconfiança
nos biblistas por parte de alguns sectores da Igreja, e a mesma
desconfiança dos biblistas acerca do modo como em certos sectores da
Igreja se lê a Bíblia.
Com o seu estudo científico
da Bíblia, desconhecida por 99,9% dos cristãos, os biblistas abriram
muitas possibilidades para a compreensão do texto bíblico; mas esse
estudo foi demasiado teórico e pouco voltado para a pastoral. Deste
modo, a Bíblia tornou-se, por vezes, um livro fechado, “a sete selos”,
aberto apenas aos peritos, continuando o povo sem ela. Desta crise de
confiança resultou que, mesmo pessoas com certa responsabilidade na
Igreja, se considerassem “leigos na matéria” e começassem a ter medo
de falar da Bíblia.
3.
Mediação dos Agentes da Pastoral
O que faltou na Igreja,
para evitar essa ruptura entre o estudo científico da Bíblia e as
comunidades eclesiais? Faltou uma actividade mais frequente e assídua
para levar ao povo as aquisições das ciências bíblicas, por parte dos
Agentes de Pastoral. Estes teriam como função derrubar os muros que
encerram o jardim das Escrituras, para o abrir de par em par ao povo de
Deus.
Ao exegeta compete o estudo
científico da Bíblia; ao Agente de Pastoral, o papel intermediário de
levar ao povo tais aquisições, para que o povo alimente sua fé com o pão
da Palavra. E “todos os métodos devem estar, directa ou indirectamente,
ao serviço da evangelização” (João Paulo II).
Pela especificidade do seu
trabalho, o estudioso da Escritura corre o risco permanente de se isolar
na sua torre de marfim e de esquecer o objectivo principal da Bíblia
como Palavra de Deus, que é a evangelização permanente do povo. Porém,
“a fidelidade à sua tarefa de interpretação exige do exegeta, que não se
contente em estudar aspectos secundários dos textos bíblicos, mas
coloque em evidência a sua mensagem principal, que é uma mensagem
religiosa, um apelo à conversão e uma boa-notícia de salvação, capaz de
transformar cada pessoa e toda a sociedade humana, introduzindo-a na
comunhão divina” (João Paulo II).
Deve exigir-se ao estudioso
duas coisas: ter presente a realidade do povo a ser evangelizado, e que
ele próprio deve ser o primeiro a deixar-se evangelizar pela Palavra.
Este último princípio serve para todos: todos temos que entrar na
Bíblia, em todos os seus livros, sintonizando o nosso espírito com o
Espírito que nela se encontra. Isto é, como diz Ezequiel, «comer o
livro» (Ez 2,8-9; ver Ap 10,9-10).
Deve, pois, haver uma
relação estreita entre o exegeta e o pastoralista, sob pena de os
estudos bíblicos não terem qualquer impacte real na leitura da Bíblia
feita na Igreja. Não se trata de uma dependência do Agente de Pastoral
em relação ao exegeta, mas de uma mútua colaboração; pois, se o exegeta
precisa do pastoralista, este precisa que o exegeta lhe diga com rigor
os conteúdos da Bíblia, para depois escolher a linguagem e os métodos
adequados para transmiti-los aos seus destinatários na catequese e na
evangelização (DV 25-26).
A falta de intervenção dos
pastoralistas teve duas consequências negativas: criou vários núcleos ou
grupos de exegetas, que discutem a melhor metodologia para chegar mais
depressa à compreensão da Bíblia; mas foi ocasião de muitos cristãos
lerem a Bíblia nos seus grupos, não já a partir dos métodos científicos,
mas sim a partir da sua subjectividade, conduzidos por guias iluminados
de ortodoxia duvidosa.
A colaboração dos
estudiosos com o Magistério tem sido preciosa, sobretudo na produção de
documentos, o mais importante dos quais foi a Dei Verbum; mas,
geralmente, ainda não se encontrou a necessária articulação entre Bíblia
e pastoral. E esse é, a meu ver, um dos principais dramas da Igreja de
hoje; pois o povo, mesmo aquele que é culto noutras áreas do saber, sem
o necessário apoio da Palavra, que está na Bíblia, descambou para todo o
tipo de devoções, peregrinações e superstições... se é que não aderiu a
seitas milagreiras e apocalípticas do nosso tempo, ou a certos
movimentos vindos de outras paragens e filosofias. Enfim, a separação
entre exegetas e pastoralistas levou ao esvaziamento da exegese e da
pastoral: a Igreja ficou mais pobre sem a Bíblia e a Bíblia ficou mais
pobre sem a Igreja.
A
relação vital entre os estudos bíblicos e a Igreja assenta em duas
fidelidades inseparáveis: a fidelidade à Igreja e a fidelidade à
Bíblia. Não se pode ser fiel à Igreja sem a Bíblia e não se pode ser
fiel à Bíblia fora da Igreja. Por outro lado, a Igreja, como
instituição, terá que ser fiel à Bíblia para ser fiel a si própria,
fazendo da Palavra a fonte inexaurível da sua vida espiritual e de todos
os seus membros.
Esta pastoral bíblica deve
ainda passar por uma “desclericalização da Bíblia”. Isto
significa que o clero não poderá continuar com o monopólio da Bíblia nem
da sua explicação. É urgente que sejam os leigos a assumir essa missão
da pastoral bíblica: os que estudaram Bíblia na UCP ou noutra
instituição superior teriam aqui uma bela missão pastoral, em plena
sintonia com o bispo da diocese e com o clero local, que em grande parte
já não tem capacidade física para tal missão. Por isso, ou os leigos a
assumem plenamente, ou continuaremos com um povo católico distanciado da
Bíblia.
4.
Intensificar acções de Pastoral bíblica
Certas acções de pastoral
têm origem numa estrutura mental pouco enraizada na Bíblia, tanto por
parte do clero como dos leigos. Por isso, urge:
●
Tornar mais bíblica a pregação de certas devoções,
ou seja: cristianizar algumas devoções dos cristãos pouco
enraizadas no Evangelho e na Bíblia em geral, e criar neles uma profunda
devoção à “obrigação” de ler e rezar a Bíblia como Palavra de
Deus. Esse seria o grande trabalho da pastoral. As devoções e o
culto dos Santos entraram na Igreja para substituir a Bíblia, sobretudo
a partir do tempo em que se abandonou a pregação bíblica. A prova de
quanto afirmamos está no facto de “a missa inteira” do preceito eclesial
dos domingos e dias santos de guarda, noutros tempos, não incluir a
parte da Liturgia da Palavra e de as pessoas – sobretudo os homens –
saírem calmamente da igreja para o adro no momento das Leituras bíblicas
(que eram em voz baixa, de costas e em Latim!) e da homilia. Isto nada
tem a ver com o que diz o nº 21 da Dei Verbum!
●
Corrigir certas leituras da Bíblia.
Concretamente:
a)
A
pregação moralista sem qualquer
suporte bíblico ou com uma ligação duvidosa à Palavra. Infelizmente,
ainda é muito frequente na Igreja, pois o “pregador” reduz o texto
bíblico à sua mensagem moral preconcebida, transformando a Boa-Nova no
medo de um qualquer castigo divino, fazendo do texto bíblico uma arma de
ameaça e de ataque à sociedade e aos indivíduos. O pior desta leitura
moralista da Bíblia é não explicar o sentido do texto, de modo que o seu
ouvinte saiba perfeitamente por que motivo deve agir dessa maneira e não
de outra.
b)
A leitura fundamentalista,
que impõe uma compreensão literal do texto, não respeitando, nem as
diferentes formas de linguagem do mesmo, nem as pessoas que tentam
encontrar na Bíblia uma resposta certa para os graves problemas das suas
vidas. Os seguidores desta leitura da Bíblia forçam os seus adeptos a
seguir tais critérios, manipulando as pessoas e as suas vidas.
c)
A leitura espiritualista,
que, juntando uma espécie de moralismo e fundamentalismo ao mesmo tempo,
reduz a leitura da Bíblia a uma forma de piedade individual, fora do
contacto com os outros e com a própria vida. É uma leitura
fundamentalmente alienante.
●
Promover e
difundir as “Comunidades da Palavra” em diferentes lugares das paróquias,
onde não há possibilidade de qualquer celebração. Estas comunidades
reunir-se-iam sempre que não fosse possível a celebração da Eucaristia
nem a Celebração da Palavra, e seriam presididas por um Ministro
ou Agente da Palavra. A organização dessas comunidades estaria a
cargo das dioceses e paróquias, e seria a resposta à falta da Eucaristia
dominical, que afecta a maior parte das comunidades da Igreja Católica
actualmente.
Esta instituição da Palavra
responderia também a outra necessidade: a leitura orante da Bíblia, que
tem na comunidade o seu espaço natural e próprio. Por isso, não iria
organizar-se apenas quando falte o padre na paróquia, mas seria de
implementar quanto antes, para pessoas que já não podem deslocar-se à
Eucaristia ou a uma celebração da Palavra, por motivos de saúde ou
económicos.
●
Formar, com a
devida preparação, e credenciar oficialmente os “Ministros da
Palavra”
(DV 23).
Criaram-se ministérios em ordem à Eucaristia, aos sacramentos:
Acólitos, Leitores e Ministros Extraordinários da Comunhão.
Para quando os Ministros da Palavra? A DV afirma que o
trabalho dos biblistas e dos teólogos pretende precisamente preparar os
Ministros da Palavra (DV 23, 24, 25). Onde estão eles? Não serão
apenas os padres, que já existiam antes da DV… Esta parece ser
uma grave lacuna da Igreja do pós-Vaticano II.
Tais Ministros deveriam
receber, tal como os Diáconos, uma formação específica, que contemplasse
a formação académica, mas também os diferentes métodos de leitura da
Bíblia em grupo, ou não, “de modo que o maior número possível de
ministros da Palavra de Deus possa oferecer frutuosamente ao Povo de
Deus o alimento das Escrituras, que ilumina a mente, fortaleça a vontade
e inflame os corações dos homens no amor de Deus (DV 23).
Mas todos os fiéis devem
ser minimamente instruídos, de modo a usar rectamente os livros da
Bíblia, como livro de estudo e sobretudo de alimento da fé cristã. Isso
evitará uma leitura fundamentalista, ainda tão corrente na Igreja.
●
Fazer da Bíblia
o principal instrumento da catequese de adultos, mediante a “Escola
Bíblica” ou “Escola da Palavra”.
A Palavra deve
ser estudada, para que os fiéis não caiam em leituras
fundamentalistas ou moralizantes. Para uma leitura correcta da Bíblia, é
necessário um conhecimento minimamente exegético, a fim de a conhecer
como Palavra de Deus: não é possível ser um bom Agente de Pastoral, sem
viver e ensinar a palavra de Deus; e isso exige um conhecimento
minimamente actualizado da Bíblia. Há várias razões para exigir esse
estudo actualizado da Sagrada Escritura:
1) Uma razão forte para
isso é a distância histórica e cultural entre os livros da Bíblia e o
nosso tempo e cultura. Pelas suas raízes históricas, a Sagrada Escritura
é tributária de uma mentalidade e de culturas muito diferentes da nossa.
Os estudos exegéticos pretendem lançar uma ponte entre esses dois
mundos, para tentar compreender o que significa o texto bíblico. É um
trabalho árduo, sem o qual nos arriscamos a falar da Palavra de Deus
como qualquer crente de uma qualquer seita fundamentalista e dizer
aquilo que o Espírito Santo nunca quis dizer na Bíblia.
2) A necessidade do estudo
científico da Bíblia advém ainda do ambiente cultural em que nos tocou
viver; um ambiente que talvez ignore as verdades essenciais do
cristianismo, mas que, possuindo uma certa cultura laica, já não se
contenta com respostas fáceis e superficiais por parte das pessoas da
Igreja acerca dos textos bíblicos.
3) Um outro motivo
importante que nos deve levar a um estudo sério da Palavra de Deus é o
facto de a própria Bíblia ser um dos sinais dos tempos, desde há uma
meia centena de anos a esta parte. Todos sabemos que a Bíblia é o livro
mais vendido: encontra-se traduzida em mais de 2000 idiomas e anda nas
mãos de toda a gente. As seitas levam-na de porta em porta; os
intelectuais querem conhecê-la melhor, na sua relação com a História
Comparada das Religiões e as ciências modernas. Mas é sobretudo a Igreja
que, depois do Vaticano II, diz que a Bíblia é a base de toda a sua vida
e actividade (DV 22.25; SC 36.51...). Por tudo isso,
deveríamos investir um pouco mais neste estudo, individualmente e nos
nossos encontros de formação.
|
APOSTAR NA FORMAÇÃO
Pastoralmente falando, recai, pois,
sobre nós a grande responsabilidade de informar e de formar os
cristãos em geral e os novos agentes de Pastoral, que serão a
Igreja do futuro. Não podemos argumentar com a falta de preparação
das pessoas, porque elas só a terão quando as prepararmos; e a
principal responsabilidade de um Agente de Pastoral não é “gerir”
a sua função, mas preparar quem o substitua num futuro mais ou
menos próximo. Também não podemos perder tempo: vivemos numa
sociedade que ainda é sensível aos valores cristãos, mas que já se
paganiza rapidamente.
Herculano Alves |
●
Alertar os
párocos para a urgência do apostolado bíblico.
A exegese e os
estudos de Teologia, por si sós, não são suficientes para conduzir o
seminarista e o sacerdote a descobrir “a força e o poder da Palavra de
Deus” (DV 21). Nota-se que muitos leigos sentem mais entusiasmo
pela Palavra do, que muitos sacerdotes e outros Agentes de Pastoral. E
são os próprios leigos a queixarem-se disso. Por sua vez, muitos párocos
queixam-se da falta de tempo para esse apostolado. Mas tudo depende dos
critérios e das prioridades a ter em conta. Se alguém tem
responsabilidades na matéria são os sacerdotes, que recebem formação
científica específica para este efeito.
A deficiência não parece
ter origem nos estudos em si mesmos, mas na formação humana e religiosa
que lhes é oferecida nos Seminários e noutras casas de formação. Estas
têm como missão fazer que a Bíblia desça da cabeça ao coração, sem
deixar de ficar na cabeça, mediante celebrações e encontros de partilha
da Palavra. Se os futuros párocos não tiverem um amor especial pela
Palavra, não haverá nada a fazer neste campo, dada a profunda
clericalização da Igreja: o que o padre não propõe, promove ou apoia,
não tem futuro. As paróquias ainda são quase os únicos espaços e
ambientes de formação dos nossos cristãos.
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O PREÇO DA NEGLIGÊNCIA
O
preço deste “descuido” e negligência da Igreja, a propósito da
Bíblia, foi, é e continuará a ser bem pesado:
●
muitas pessoas católicas procuram matar a sua sede da Palavra nas
águas sujas e envenenadas do fundamentalismo de muitas seitas e
grupos anticatólicos, que se apresentam como detentores da
verdadeira interpretação da Bíblia;
●
a
juventude não recebe uma evangelização capaz, de modo a resistir a
tantas solicitações do mundo de hoje, colocando em sérios riscos o
futuro da Igreja.
Uma
igreja que não tem a consciência lúcida da responsabilidade do
anúncio da Palavra não é ainda uma comunidade segundo o projecto
de Jesus para hoje.
Herculano Alves
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