As
perguntas surgem em turbilhão: Porquê? E a mando de quem? A
que preço? Até quando? Como encontrar caminhos humanos e
evangélicos – dada a presença e influência da Igreja Católica
– para a construção de um País mais livre, fraterno e
solidário, onde seja agradável viver?
Por estes
dias, o aborto – em versão mais politicamente correcta, a
“interrupção voluntária da gravidez” – é um dos temas em
aberto na sociedade portuguesa e, consequentemente, na
reflexão acerca da vida humana. Segundo alguns, tudo se
limitaria a uma contenda entre os defensores da cultura da
vida e os defensores da cultura da morte… Mas a questão não é
assim tão linear ou simplista. São bem mais intrincados os
meandros e as fronteiras da temática da Vida.
Beber gratuitamente da água da Vida
Mal
abrimos as primeiras páginas da Bíblia, logo nos deparamos com
a maravilha literária e catequética de um triunfante hino à
Vida. A vida que há no dia e na noite; no firmamento, no mar e
na terra com verdura, erva com semente e árvores frutíferas;
nos dois grandes luzeiros que presidem ao dia e à noite; nos
inúmeros seres vivos que povoam as águas e em todas as aves;
nos animais domésticos, nos répteis da terra e nos animais
ferozes; e, sobretudo, no ser humano – Homem e Mulher –,
criado à «imagem e semelhança de Deus» (Gn 1,1 –
2,1-4). Daí o desafio a nos extasiarmos e comprometermos
perante a vida, com a Criador que a considerou muito boa em
todas as suas manifestações Gn 1,31).
É verdade
que, no capítulo 3, aparece a morte, com o seu cortejo de
tribulações: os sofrimentos da gravidez e do parto; o domínio
da mulher por parte do homem; o penoso trabalho de cada dia;
uma terra que produz espinhos e abrolhos; o comer o pão com o
suor do rosto… E no capítulo 4, surge o primeiro fratricídio.
Mas a Bíblia, como livro de Esperança de um Povo que acredita
no Deus da Vida, conclui no livro do Apocalipse com a
grandiosa visão de um novo céu e uma nova terra, onde «a
Morte e o Abismo foram lançados no lago do fogo» (20,14),
e onde «não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem
dor» (21,4). Daí o convite final: «O que deseja, beba
gratuitamente da água da vida» (22,17).
Francisco, um sedento da Vida
Francisco
de Assis surge no mundo como um verdadeiro sedento desta água
da vida. É certo que muitos artistas o apresentam de caveira
na mão, em temerosa contemplação da morte… Mas, desde a
juventude, ele foi um apaixonado da vida em todas suas
manifestações: música, festas, banquetes, sonhos de glória e
de aventuras guerreiras…
Assim o
descreve a Legenda dos Três Companheiros, uma das
primeiras “biografias”:
«Quando chegou à juventude, dotado de espírito vivo, exerceu o
ofício de seu pai, o comércio, mas de modo muito diferente
dele: era mais generoso e mais alegre, entregava-se aos
divertimentos e ao canto, e vagueava, dia e noite, pela
cidade, com amigos da sua idade. Era tão liberal nos gastos,
que dissipava em festins e outros folguedos tudo o que tinha
ou ganhava. (…)
Entretanto, era delicado de maneiras e de linguagem, tendo
resolvido não dizer a ninguém qualquer palavra injuriosa ou
grosseira. Mais ainda: jovem, alegre e dissipado como era,
decidira, todavia, nada responder àqueles que lhe dirigissem
palavras torpes.» (nº 2).
Não é por
acaso que as gentes de Assis o apelidam “rei da juventude”.
A
“conversão” de Francisco à vida segundo Cristo e aos valores
do Evangelho será um processo lento, doloroso, mas total e
definitivo. Por isso, oito séculos depois, há tanta gente que
se deixa tocar pela vida que emana da sua pessoa e da sua
mensagem! Ele é um caudal de vida, a jorrar por todos os
poros.
O Senhor deu-nos o corpo, a alma e a vida
A primeira
Regra que Francisco escreveu para si e para os seus irmãos
presentes e futuros tem aspectos que ainda hoje não parecem de
uma verdadeira “Regra”. Assim, o último capítulo intitula-se
“Oração, Louvor e Acção de Graças”. Podemos proclamá-lo com
ele:
«Omnipotente, santíssimo, altíssimo e soberano Deus, Pai
santo e justo, Senhor rei do céu e da terra, por ti mesmo te
rendemos graças, porque por tua santa vontade e pelo teu único
Filho com o Espírito Santo, criaste todas
as coisas espirituais e corporais, e a nós, feitos à tua
imagem e semelhança, nos colocaste no paraíso, donde
decaímos por culpa nossa. […]
Com todo o nosso coração, com toda a nossa alma, com todo o
nosso espírito, com toda a coragem e fortaleza,
com toda a inteligência e com todas as forças, com toda a boa
vontade e afecto, com todas as entranhas, com as ânsias todas
da alma, amemos todos ao Senhor Deus que a cada um de nós deu
e dá o corpo, a alma e a vida; que nos criou e remiu e
só por sua misericórdia nos salvará; que nos fez e nos faz
todo o bem.»
(1 R 23,1.8).
A “visão franciscana da vida”
Neste
peregrinar pela cultura da Vida, quando a Família Franciscana
iniciou uma caminhada de preparação para, em 2009, celebrar os
800 anos da Vocação do jovem Francisco de Assis, deixemo-nos
interpelar pelo Papa Pio XII: «É deste espírito
franciscano, é desta visão franciscana da vida que o mundo
precisa.» O apelo é de um discurso aos Irmãos
da Ordem Franciscana Secular, no dia 1 de Julho de 1956. Mas
podia ser de 2007.