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São Francisco de Assis

O mundo precisa da visão franciscana da vida

 

 

O mundo precisa

da visão franciscana da vida

 

Em 2006 tive a graça de celebrar a festa de São Francisco de Assis,

a 4 de Outubro, em Bali (na Indonésia) e, sobretudo, em Timor-Leste.

Dias depois, numa das ruas de Díli,

deparava-me com uma perturbadora surpresa:

a abundância de sangue na estrada confirmava que, horas antes,

ali tinham ceifado barbaramente mais uma vida humana.

 


 

As perguntas surgem em turbilhão: Porquê? E a mando de quem? A que preço? Até quando? Como encontrar caminhos humanos e evangélicos – dada a presença e influência da Igreja Católica – para a construção de um País mais livre, fraterno e solidário, onde seja agradável viver?

 

Por estes dias, o aborto – em versão mais politicamente correcta, a “interrupção voluntária da gravidez” – é um dos temas em aberto na sociedade portuguesa e, consequentemente, na reflexão acerca da vida humana.  Segundo alguns, tudo se limitaria a uma contenda entre os defensores da cultura da vida e os defensores da cultura da morte… Mas a questão não é assim tão linear ou simplista. São bem mais intrincados os meandros e as fronteiras da temática da Vida.

 

 

Beber gratuitamente da água da Vida

 

Mal abrimos as primeiras páginas da Bíblia, logo nos deparamos com a maravilha literária e catequética de um triunfante hino à Vida. A vida que há no dia e na noite; no firmamento, no mar e na terra com verdura, erva com semente e árvores frutíferas; nos dois grandes luzeiros que presidem ao dia e à noite; nos inúmeros seres vivos que povoam as águas e em todas as aves; nos animais domésticos, nos répteis da terra e nos animais ferozes; e, sobretudo, no ser humano – Homem e Mulher –, criado à «imagem e semelhança de Deus» (Gn 1,1 – 2,1-4). Daí o desafio a nos extasiarmos  e comprometermos perante a vida, com a Criador que a considerou muito boa em todas as suas manifestações Gn 1,31).

 

É verdade que, no capítulo 3, aparece a morte, com o seu cortejo de tribulações: os sofrimentos da gravidez e do parto; o domínio da mulher por parte do homem; o penoso trabalho de cada dia; uma terra que produz espinhos e abrolhos; o comer o pão com o suor do rosto… E no capítulo 4, surge o primeiro fratricídio. Mas a Bíblia, como livro de Esperança de um Povo que acredita no Deus da Vida, conclui no livro do Apocalipse com a grandiosa visão de um novo céu e uma nova terra, onde «a Morte e o Abismo foram lançados no lago do fogo» (20,14), e onde «não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor» (21,4). Daí o convite final: «O que deseja, beba gratuitamente da água da vida» (22,17).

 

 

Francisco, um sedento da Vida

 

Francisco de Assis surge no mundo como um verdadeiro sedento desta água da vida. É certo que muitos artistas o apresentam de caveira na mão, em temerosa contemplação da morte… Mas, desde a juventude, ele foi um apaixonado da vida em todas suas manifestações: música, festas, banquetes, sonhos de glória e de aventuras guerreiras…

 

Assim o descreve a Legenda dos Três Companheiros, uma das primeiras “biografias”:

 

«Quando chegou à juventude, dotado de espírito vivo, exerceu o ofício de seu pai, o comércio, mas de modo muito diferente dele: era mais generoso e mais alegre, entregava-se aos divertimentos e ao canto, e vagueava, dia e noite, pela cidade, com amigos da sua idade. Era tão liberal nos gastos, que dissipava em festins e outros folguedos tudo o que tinha ou ganhava. (…)

 

Entretanto, era delicado de maneiras e de linguagem, tendo resolvido não dizer a ninguém qualquer palavra injuriosa ou grosseira. Mais ainda: jovem, alegre e dissipado como era, decidira, todavia, nada responder àqueles que lhe dirigissem palavras torpes.» (nº 2).

 

Não é por acaso que as gentes de Assis o apelidam “rei da juventude”.

 

A “conversão” de Francisco à vida segundo Cristo e aos valores do Evangelho será um processo lento, doloroso, mas total e definitivo. Por isso, oito séculos depois, há tanta gente que se deixa tocar pela vida que emana da sua pessoa e da sua mensagem! Ele é um caudal de vida, a jorrar por todos os poros.

 

 

O Senhor deu-nos o corpo, a alma e a vida

 

A primeira Regra que Francisco escreveu para si e para os seus irmãos presentes e futuros tem aspectos que ainda hoje não parecem de uma verdadeira “Regra”. Assim, o último capítulo intitula-se “Oração, Louvor e Acção de Graças”. Podemos proclamá-lo com ele:

 

«Omnipotente, santíssimo, altíssimo e soberano Deus, Pai santo e justo, Senhor rei do céu e da terra, por ti mesmo te rendemos graças, porque por tua santa vontade e pelo teu único Filho com o Espírito Santo, criaste todas as coisas espirituais e corporais, e a nós, feitos à tua imagem e semelhança, nos colocaste no paraíso, donde decaímos por culpa nossa. […]

 

Com todo o nosso coração, com toda a nossa alma, com todo o nosso espírito, com toda a coragem e fortaleza, com toda a inteligência e com todas as forças, com toda a boa vontade e afecto, com todas as entranhas, com as ânsias todas da alma, amemos todos ao Senhor Deus que a cada um de nós deu e dá o corpo, a alma e a vida; que nos criou e remiu e só por sua misericórdia nos salvará; que nos fez e nos faz todo o bem.» (1 R 23,1.8).

 

 

A “visão franciscana da vida”

 

Neste peregrinar pela cultura da Vida, quando a Família Franciscana iniciou uma caminhada de preparação para, em 2009, celebrar os 800 anos da Vocação do jovem Francisco de Assis, deixemo-nos interpelar pelo Papa Pio XII: «É deste espírito franciscano, é desta visão franciscana da vida que o mundo precisa O apelo é de um discurso aos Irmãos da Ordem Franciscana Secular, no dia 1 de Julho de 1956. Mas podia ser de 2007.

 

Frei Acílio Dias Mendes

 

 
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