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Natal: uma opção pelas Crianças

Natal: uma opção pelas Crianças

Rezam as estatísticas que, em cada ano, morrem de fome

900 mil crianças. Em Belém – que significa “casa do pão” –

nasceu Jesus, o Pão da Vida, Aquele que vem até nós

para matar a fome de um Mundo mais justo

e fraterno, mais humano e solidário,

em que todos vivam em abundância.

 

Em 2020, uma em cada quatro crianças será subnutrida

 

Na nossa Europa grassa um fenómeno cada vez mais alastrante: os jovens julgam que é aceitável não ter filhos. Tornar-se pai ou mãe exige responsabilidade humana, social, financeira, e muitos não estão dispostos a assumir tal missão. Há mesmo, nalguns casos, certa mentalidade e cultura “anti-crianças”, fruto de egoísmos, de falta de segurança, sem perspectivas de futuro… Um pai feliz passeava calmamente os seus dois filhos pequenos junto a um lago e dois ciclistas, ao passar, gritaram: “Os miúdos devem andar de trela!”

 

 

O Natal de Deus marcou Francisco de Assis

 

O Natal é a festa de um Deus Omnipotente que se faz criança, nascido num presépio em Belém, segundo a narrativa evangélica de São Lucas (Lc 2, 1-20).

 

O Infinito faz-se finito, mergulhando no tempo e no espaço. O Omnipotente assume a fragilidade e a vulnerabilidade de um bebé. O Totalmente Outro faz-se nosso Irmão. Um Deus distante e transcendente torna-se solidário com as nossas interrogações perante a vida, o sofrimento, a alegria, o amor, a liberdade…

 

Foi este mistério insondável de um Deus surpreendente que marcou definitivamente a vida e a espiritualidade de Francisco de Assis.

 

 

As motivações “daquele Natal” de 1223

 

O biógrafo Tomás de Celano apresenta-nos uma síntese teológica das motivações que levaram S. Francisco a sonhar e a concretizar o que é considerada a primeira “representação ao vivo” do Natal do Senhor, em Greccio, na noite de 25 de Dezembro de 1223:

 

A suprema aspiração de Francisco, o seu mais vivo desejo e mais elevado propósito era observar em tudo e sempre o Santo Evangelho e seguir a doutrina e os passos de Nosso Senhor Jesus Cristo com suma aplicação da mente e fervor do coração.

 

Reevocava as suas divinas palavras em meditação assídua e jamais deixava de ter presentes, em aprofundada contemplação, os passos da sua vida. Tinha tão vivas na memória a humildade da Incarnação e a caridade da Paixão, que lhe era difícil pensar noutra coisa.

(Vida Primeira 84,1-3)

 

 

Fontes da Menoridade e Fraternidade universal de Francisco

 

Francisco viveu dois eixos centrais no Mistério Pascal de Jesus: a Incarnação e a Paixão. E neles colheu duas atitudes profundas, geradoras de uma Fraternidade universal e cósmica: Humildade e Caridade.

 

É neste contexto que podemos entender a interminável ladainha de louvores ao Senhor Deus vivo e verdadeiro que brota do seu coração como de uma inesgotável cachoeira:

 

Tu és bom, todo o bem,

o soberano bem!

Tu és caridade, amor!

Tu és sabedoria!

Tu és humildade!

Tu és paciência!

Tu és formosura!

Tu és mansidão!

Tu és gozo e alegria!

 

Aquela noite de Greccio – resumindo a engenhosa descrição de Celano – resplandecia como o dia. Francisco está de pé diante do presépio, submerso em gozo inefável; com voz sonora e doce, canta o Evangelho, convidando os presentes às mais altas alegrias.

 

Pregando ao povo, tem palavras doces como o mel para evocar o nascimento do Rei pobre e a pequena cidade de Belém. Por vezes, ao mencionar o nome de Jesus Cristo, abrasado de amor, chama-lhe o “menino de Belém”, e, ao dizer “Belém”, era como se imitasse o balir duma ovelha e deixasse extravasar da boca toda a maviosidade da voz e toda a ternura do coração. Quando lhe chamava “menino de Belém” ou “Jesus”, passava a língua pelos lábios, como para saborear e reter a doçura de tão abençoados nomes.

 

Tão inefável alegria tem apenas uma fonte: o Amor entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo irrompeu no nosso mundo, como força de comunhão e de unidade: “Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito” (Jo 3,16). “E o Verbo fez-se homem e veio habitar connosco. E nós contemplámos a sua glória, a glória que possui como Filho Unigénito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1, 14).

Em Cristo Jesus “manifestou-se a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com os homens” (Tt 3, 4).

 

 

Salmo de S. Francisco para o Tempo de Natal

 

Francisco de Assis, no seu conhecido “Ofício da Paixão do Senhor”, compôs um Salmo para o Tempo de Natal (Salmo 15), para cantar a “paixão” de Deus por nós. Transcrevo alguns versículos:

 

Naquele dia o Senhor Deus mandou a sua misericórdia,

e um cântico que encheu a noite.

Eis o dia que o Senhor fez;

exultemos e alegremo-nos com ele.

Porque nos foi dado o santíssimo e dilecto Menino,

e por nós nasceu durante uma viagem

e foi deitado num presépio,

por não haver lugar para ele na estalagem.

Glória a Deus no mais alto dos céus,

e na terra paz aos homens de boa vontade.

Oferecei-Lhe o vosso corpo para levar a sua santa cruz

e segui até ao fim os seus mandamentos santíssimos.

 

 

O Natal de cada dia

 

Em cada Eucaristia acontece Natal: nos humildes sinais do pão e do vinho torna-se presente o mesmo Jesus de Belém, o Senhor Crucificado e Ressuscitado. Todos os Domingos, ao proclamar eclesialmente a nossa Fé, fazemos memória da realidade assombrosa do Natal: “E por nós, homens, e para nossa salvação desceu dos Céus. E encarnou pelo poder do Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e Se fez homem”.

 

São Paulo não se cansava de saborear este “por nós e para nossa salvação”. Ou, dito ao seu jeito: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. E a vida que agora tenho na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl 2, 30).

 

 

Consequências para o Natal do nosso dia-a-dia

 

Alegria pela nossa dignidade de pessoas. Francisco de Assis assim se expande:

 

Ó homem, considera a quanta grandeza o Senhor te levantou, pois te criou, dando-te um corpo à imagem do seu Filho dilecto, e dando-te um, espírito à sua própria semelhança (Exortação 5, 1).

 

Intimidade agradecida com Jesus. Mais uma vez, é Tomás de Celano, falando deste enamoramento de Francisco de Assis:

 

Que intimidades as suas com Jesus! Trazia Jesus no coração, Jesus nos lábios, Jesus nos ouvidos, Jesus nos olhos, Jesus nas mãos, Jesus presente sempre em todos os seus membros! (Vida Primeira 115, 5).

 

Anúncio alegre e comprometido, com a palavra e o exemplo, do amor de Jesus por cada um de nós e por toda a Humanidade:

 

Indo ele de longada pelo mundo, quantas vezes, meditando e cantando a Jesus, interrompia e esquecia a caminhada para convidar as criaturas todas a louvarem com ele o Criador (Vida Primeira 115, 7).

 

Opção destemida pelas Crianças. Por todas as Crianças do mundo.

 

 

frei Acílio Mendes

 

 
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