Natal: uma opção pelas Crianças
Rezam as
estatísticas que, em cada ano, morrem de fome
900 mil
crianças. Em Belém – que significa “casa do pão” –
nasceu Jesus, o
Pão da Vida, Aquele que vem até nós
para matar a
fome de um Mundo mais justo
e fraterno,
mais humano e solidário,
em que todos
vivam em abundância.

Na nossa Europa
grassa um fenómeno cada vez mais alastrante: os jovens julgam que é
aceitável não ter filhos. Tornar-se pai ou mãe exige responsabilidade
humana, social, financeira, e muitos não estão dispostos a assumir tal
missão. Há mesmo, nalguns casos, certa mentalidade e cultura
“anti-crianças”, fruto de egoísmos, de falta de segurança, sem
perspectivas de futuro… Um pai feliz passeava calmamente os seus dois
filhos pequenos junto a um lago e dois ciclistas, ao passar, gritaram:
“Os miúdos devem andar de trela!”
O
Natal de Deus marcou Francisco de Assis
O Natal é a festa
de um Deus Omnipotente que se faz criança, nascido num presépio em
Belém, segundo a narrativa evangélica de São Lucas (Lc 2, 1-20).
O Infinito faz-se
finito, mergulhando no tempo e no espaço. O Omnipotente assume a
fragilidade e a vulnerabilidade de um bebé. O Totalmente Outro faz-se
nosso Irmão. Um Deus distante e transcendente torna-se solidário com
as nossas interrogações perante a vida, o sofrimento, a alegria, o
amor, a liberdade…
Foi este mistério
insondável de um Deus surpreendente que marcou definitivamente a vida
e a espiritualidade de Francisco de Assis.
As
motivações “daquele Natal” de 1223
O biógrafo Tomás
de Celano apresenta-nos uma síntese teológica das motivações que
levaram S. Francisco a sonhar e a concretizar o que é considerada a
primeira “representação ao vivo” do Natal do Senhor, em Greccio, na
noite de 25 de Dezembro de 1223:
A
suprema aspiração de Francisco, o seu mais vivo desejo e mais elevado
propósito era observar em tudo e sempre o Santo Evangelho e seguir a
doutrina e os passos de Nosso Senhor Jesus Cristo com suma aplicação
da mente e fervor do coração.
Reevocava as suas divinas palavras em meditação assídua e jamais
deixava de ter presentes, em aprofundada contemplação, os passos da
sua vida. Tinha tão vivas na memória a humildade da Incarnação e a
caridade da Paixão, que lhe era difícil pensar noutra coisa.
(Vida Primeira 84,1-3)
Fontes da Menoridade e Fraternidade universal de Francisco
Francisco viveu
dois eixos centrais no Mistério Pascal de Jesus: a Incarnação e a
Paixão. E neles colheu duas atitudes profundas, geradoras de uma
Fraternidade universal e cósmica: Humildade e Caridade.
É neste contexto
que podemos entender a interminável ladainha de louvores ao Senhor
Deus vivo e verdadeiro que brota do seu coração como de uma
inesgotável cachoeira:
Tu
és bom, todo o bem,
o
soberano bem!
Tu
és caridade, amor!
Tu
és sabedoria!
Tu
és humildade!
Tu
és paciência!
Tu
és formosura!
Tu
és mansidão!
Tu
és gozo e alegria!
Aquela noite de
Greccio – resumindo a engenhosa descrição de Celano – resplandecia
como o dia. Francisco está de pé diante do presépio, submerso em gozo
inefável; com voz sonora e doce, canta o Evangelho, convidando os
presentes às mais altas alegrias.
Pregando ao povo,
tem palavras doces como o mel para evocar o nascimento do Rei pobre e
a pequena cidade de Belém. Por vezes, ao mencionar o nome de Jesus
Cristo, abrasado de amor, chama-lhe o “menino de Belém”, e, ao dizer
“Belém”, era como se imitasse o balir duma ovelha e deixasse
extravasar da boca toda a maviosidade da voz e toda a ternura do
coração. Quando lhe chamava “menino de Belém” ou “Jesus”, passava a
língua pelos lábios, como para saborear e reter a doçura de tão
abençoados nomes.
Tão inefável
alegria tem apenas uma fonte: o Amor entre o Pai, o Filho e o Espírito
Santo irrompeu no nosso mundo, como força de comunhão e de unidade:
“Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito”
(Jo 3,16). “E o Verbo fez-se homem e veio habitar connosco. E nós
contemplámos a sua glória, a glória que possui como Filho Unigénito do
Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1, 14).
Em Cristo Jesus
“manifestou-se a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para
com os homens” (Tt 3, 4).
Salmo de S. Francisco para o Tempo de Natal
Francisco de
Assis, no seu conhecido “Ofício da Paixão do Senhor”, compôs um Salmo
para o Tempo de Natal (Salmo 15), para cantar a “paixão” de
Deus por nós. Transcrevo alguns versículos:
Naquele dia o Senhor Deus mandou a sua misericórdia,
e
um cântico que encheu a noite.
Eis o dia que o Senhor fez;
exultemos e alegremo-nos com ele.
Porque nos foi dado o santíssimo e dilecto Menino,
e
por nós nasceu durante uma viagem
e
foi deitado num presépio,
por não haver lugar para ele na estalagem.
Glória a Deus no mais alto dos céus,
e
na terra paz aos homens de boa vontade.
Oferecei-Lhe o vosso corpo para levar a sua santa cruz
e
segui até ao fim os seus mandamentos santíssimos.
O
Natal de cada dia
Em cada Eucaristia
acontece Natal: nos humildes sinais do pão e do vinho torna-se
presente o mesmo Jesus de Belém, o Senhor Crucificado e Ressuscitado.
Todos os Domingos, ao proclamar eclesialmente a nossa Fé, fazemos
memória da realidade assombrosa do Natal: “E por nós, homens, e
para nossa salvação desceu dos Céus. E encarnou pelo poder do Espírito
Santo, no seio da Virgem Maria, e Se fez homem”.
São Paulo não se
cansava de saborear este “por nós e para nossa salvação”. Ou, dito ao
seu jeito: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. E
a vida que agora tenho na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus que me
amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl 2, 30).
Consequências para o Natal do nosso dia-a-dia
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Alegria pela nossa dignidade de pessoas. Francisco de
Assis assim se expande:
Ó
homem, considera a quanta grandeza o Senhor te levantou, pois te
criou, dando-te um corpo à imagem do seu Filho dilecto, e dando-te um,
espírito à sua própria semelhança
(Exortação 5, 1).
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Intimidade agradecida com Jesus. Mais uma vez, é Tomás de
Celano, falando deste enamoramento de Francisco de Assis:
Que intimidades as suas com Jesus! Trazia Jesus no coração, Jesus nos
lábios, Jesus nos ouvidos, Jesus nos olhos, Jesus nas mãos, Jesus
presente sempre em todos os seus membros!
(Vida Primeira 115, 5).
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Anúncio alegre e comprometido, com a palavra e o exemplo, do
amor de Jesus por cada um de nós e por toda a Humanidade:
Indo ele de longada pelo mundo, quantas vezes, meditando e cantando a
Jesus, interrompia e esquecia a caminhada para convidar as criaturas
todas a louvarem com ele o Criador
(Vida Primeira
115, 7).
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Opção destemida pelas Crianças. Por todas as Crianças do
mundo.
frei Acílio Mendes