[da
Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae]
6.
A dar maior actualidade ao relançamento do Rosário temos algumas
circunstâncias históricas. A primeira delas é a urgência de invocar
de Deus o dom da paz. O Rosário foi, por diversas vezes, proposto pelos
meus Predecessores e mesmo por mim como oração pela paz. No início de
um Milénio, que começou com as cenas assustadoras do atentado de 11 de
Setembro de 2001 e que regista, cada dia, em tantas partes do mundo
novas situações de sangue e violência, descobrir novamente o Rosário
significa mergulhar na contemplação do mistério d'Aquele que «é a
nossa paz», tendo feito «de dois povos um só, destruindo o muro da
inimizade que os separava» (Ef 2, 14). Portanto não se pode recitar o
Rosário sem sentir-se chamado a um preciso compromisso de serviço à
paz, especialmente na terra de Jesus, tão atormentada ainda, e tão
querida ao coração cristão.
39.
A Igreja reconheceu sempre uma eficácia particular ao Rosário,
confiando-lhe, mediante a sua recitação comunitária e a sua prática
constante, as causas mais difíceis. (...) À eficácia desta oração,
confio de bom grado hoje – como acenei ao princípio – a causa da
paz no mundo e a causa da família.
40.
As dificuldades que o horizonte mundial apresenta, neste início de novo
milénio, levam-nos a pensar que só uma intervenção do Alto, capaz de
orientar os corações daqueles que vivem em situações de conflito e
de quantos regem os destinos das Nações, permite esperar num futuro
menos sombrio.
O
Rosário é, por natureza, uma oração orientada para a paz,
precisamente porque consiste na contemplação de Cristo, Príncipe da
paz e «nossa paz» (Ef 2, 14). Quem assimila o mistério de Cristo –
e o Rosário visa isto mesmo – apreende o segredo da paz e dele faz um
projecto de vida. Além disso, devido ao seu carácter meditativo com a
serena sucessão das “Avé Marias”, exerce uma acção pacificadora
sobre quem o reza, predispondo-o a receber e experimentar no mais fundo
de si mesmo e a espalhar ao seu redor aquela paz verdadeira que é um
dom especial do Ressuscitado (cf. Jo 14, 27; 20, 21).
Depois,
o Rosário é oração de paz também pelos frutos de caridade que
produz. Se for recitado devidamente como verdadeira oração meditativa,
ao facilitar o encontro com Cristo nos mistérios não pode deixar de
mostrar também o rosto de Cristo nos irmãos, sobretudo nos que mais
sofrem. Como seria possível fixar nos mistérios gozosos o mistério do
Menino nascido em Belém, sem sentir o desejo de acolher, defender e
promover a vida, preocupando-se com o sofrimento das crianças nas
diversas partes do mundo? Como se poderia seguir os passos de Cristo
revelador, nos mistérios da luz, sem se empenhar a testemunhar as suas
“bem-aventuranças” na vida diária? E como contemplar a Cristo
carregado com a cruz ou crucificado, sem sentir a necessidade de se
fazer seu “cireneu” em cada irmão abatido pela dor ou esmagado pelo
desespero? Enfim, como se poderia fixar os olhos na glória de Cristo
ressuscitado e em Maria coroada Rainha, sem desejar tornar este mundo
mais belo, mais justo, mais conforme ao desígnio de Deus?
Em
suma o Rosário, ao mesmo tempo que nos leva a fixar os olhos em Cristo,
torna-nos também construtores da paz no mundo. Pelas suas características
de petição insistente e comunitária, em sintonia com o convite de
Cristo para « orar sempre, sem desfalecer » (Lc 18, 1), aquele
permite-nos esperar que, também hoje, se possa vencer uma “batalha”
tão difícil como é a da paz. Longe de constituir uma fuga dos
problemas do mundo, o Rosário leva-nos assim a vê-los com olhar
responsável e generoso, e alcança-nos a força de voltar para eles com
a certeza da ajuda de Deus e o firme propósito de testemunhar em todas
as circunstâncias «a caridade, que é o vínculo da perfeição» (Col
3, 14).
Carta
Apostólica Rosarium Virginis Mariae,
do
Sumo Pontífice João Paulo II ao
Episcopado ao Clero e aos Fiéis,
sobre o Rosário
(16
de Outubro de 2002, início do vigésimo quinto ano de Pontificado),
nn.
6, 39 e 40