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Na Quinta-feira Santa / Ano A

 
 

LAVA-PÉS DA IGREJA

 

«Ó Senhor! Não só os pés,

mas também as mãos e a cabeça!»

 

Pedro (Jo 13,9b)

 

 

1

 

Os Pés

 

Pode ler-se, primeiro: Mt 10,5-15

 

Senhor, Pedro talvez não precisasse:

Ainda não sentira o pó da História.

Dois mil anos depois, se me não lavas,

Ninguém verá em mim a tua Esposa.

 

Senhor, lava meus pés – os pés descalços

Com que fui proclamar teu Evangelho.

Deixei que muito pó se lhes pegasse,

E não o sacudi como aconselhas.

 

Partindo sem cajado nem alforge,

Servi-me e rodeei-me de prestígio,

De bens e de poder, mais confiando

Nas minhas estruturas, que no Espírito.

 

Senhor, lava estes pés de Mensageira

Da paz e do perdão, e não da espada,

Que às vezes pretendeu impor-te à força

Com armas, guerras santas e Cruzadas.

 

Senhor, lava estes pés, a quem foi dado

Um guia para a Terra Prometida,

E às vezes preferiram o regresso

À antiga servidão, aquém da vida.

 

(Em grupos pequenos pode

fazer-se, aqui, um gesto de lava-pés)

 

Novamente, Senhor, de pés lavados,

Contigo irei passar o Mar Vermelho

Do teu suor de sangue e do teu Sangue,

Ali deixando, enfim, o mundo velho.

 

Senhor, lava meus pés: sou tua Igreja

E quero tomar parte no teu Reino.

Admite-me, Senhor, à tua mesa

Na Páscoa sempre nova da tua Ceia.

 

(Um cântico, a critério do Grupo)

 

 

2

 

As Mãos

 

Pode ler-se, primeiro: Mc 10,13-165

 

Agora as mãos, Senhor. Lava-as também.

Deviam ser de bênçãos e perdões,

E em vez disso brandiram com anátemas,

Em teu Nome lançando excomunhões.

 

Em dois braços, à imagem da tua cruz,

Deviam fazer pontes, indulgentes;

Imóveis, cada uma no seu extremo,

Criaram Oriente e Ocidente.

 

Em vez de acolher pobres e excluídos,

Saudaram poderosos e corruptos.

Devendo exercitar-se na partilha,

Fizeram-se, demais, ao contributo.

 

Chamadas ao abraço da parábola

Do filho regressado, reclamaram

As horas do trabalho em tua Casa,

Esquecendo a gratuidade que pregaram.

 

Ungidas pela Ordem para serem

Também crucificadas como as tuas,

Trocaram a toalha do Serviço

Pelo báculo do mando e da estrutura.

 

Lava estas mãos, Senhor, que vêm manchadas

De morte, de injustiça e muita fome,

E tingidas pelo sangue derramado

Nas guerras abençoadas em teu Nome.

E lava-me de, ao jeito de Pilatos,

Também ter presumido de inocente,

Embora Te confesse o meu pecado

Ao lavá-las, no altar, perante a gente.

 

(Pode fazer-se assim: diante de todos, um elemento segura numa bacia com água, e outro, numa toalha. Todos, ou quem quiser, formam uma fila e vão lavando e enxugando as mãos. Entretanto, vai-se cantando.)

 

 

3

 

A Cabeça

 

Pode ler-se, primeiro:  Jo 19,1-5.

 

Finalmente, Senhor, minha cabeça. (Pausa)

Pelas vezes que levou tiaras e mitras,

Privilégios e glória, vendo outras

Sangrando sob a coroa dos espinhos.

 

Pelas vezes que trocou o meu caminho

Da berma do assaltado, pelo do templo,

E as vezes que levou as minhas mãos

A agir contra o sinal do teu exemplo.

 

Pelas vezes que a si mesma se julgou

Cabeça de si própria, não o Corpo

Do qual és a Cabeça de unidade,

O centro e o sentido fiel do todo.

 

Pelas vezes que não soube dar aos membros

A sua vez de agir e de crescer,

Manipulando as leis da Comunhão

E Participação a bel-prazer.

 

(Pode fazer-se, aqui, um gesto parecido ao do lava-mãos, mas aplicado à cabeça. Ou então, aspergir-se o grupo com água benta, em silêncio.)

 

Eu sei que, no caminho desta Páscoa,

Se foi todo o meu Corpo já lavando;

E, embora pecadora, cada membro

Se foi, por tua graça, reanimando.

 

Penitente chamada à santidade,  (LG 8)

Eu me banho, Senhor, na Água da Vida,

Para entrar na tua Casa como Esposa

Sem ruga, na tua Morte renascida.

 

Do Monte do Envio, hei-de gritar

A todas as Nações do Mundo inteiro:

“Aquele que velais, ressuscitou!” (Mt 28,5-6.20)

E, sempre Missionária do teu Reino,

 

Cantar tua presença garantida,

Até vir a Cidade em que Tu fores

O único Senhor, altar e templo

Sem mais as nossas luzes nem as flores.

 

 (ver Lumen Gentium,8; Mt 28,5-6.20; Ap 21,22-23)

 

_____________________________________________________

 

(Concluir com a proclamação de Ap 21,9-11. 21-27,

seguindo-se o canto de um refrão, com várias estrofes:

 

Povo de Reis, Assembleia santa,

Povo sacerdotal,

Povo de Deus, bendiz o teu Senhor!

 

Ou então:

 

Eu vi a cidade santa, a nova Jerusalém

que descia do Céu de junto de Deus

qual esposa adornada,

qual Esposa adornada para o seu Esposo.

 

_____________________________________________________

 

 

 

Lopes Morgado

Lisboa, 27 de Março de 1986: Quinta-Feira Santa.

05 de Agosto de 1987: 25 anos de sacerdote.

 

 
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