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Moisés
I
«Moisés clamou ao Senhor,
dizendo:
“Que hei-de fazer a este
povo?”»
(da 1ª Leitura: Ex 17,3-7)
A voz o sangue foi mais
forte.
Ele era povo, e não podia
limitar-se a escrever
o diário dos escravos à
varanda do palácio:
saltou para o meio,
tingiu-se no sangue dos
capatazes,
comprometeu-se com seus
irmãos na mesma trincheira.
A partir daí, Moisés
tornou-se um fugitivo:
fugitivo do palácio do
opressor
para o lamaçal dos
oprimidos;
fugitivo da guerrilha
para o esconderijo dos
montes;
fugitivo de Deus
para a instalação na vida;
fugitivo de si próprio
para o encontro com seu
irmão Aarão;
fugitivo da desistência
para o terreno da
resistência activa;
fugitivo da passividade
para o diálogo, a
conscientização e a luta;
fugitivo da terra da
emigração
para a casa da pátria…
… porque a fé desinstala!
O crente vive a caminho
sem se importar que se
apaguem os passos no deserto:
pois é o deserto passagem, e
o oásis, miragem;
só o Jordão lava da lama do
Egipto;
só em Jericó florescem as
palmeiras sonhadas no deserto;
só em Canaã se encontra a
Terra Prometida –
talvez com menos alhos e
cebolas,
mas com pão mais quente e as
mãos livres
para a ceifa, a vindima, a
recolha dos figos
e a carícia dos filhos,
e com mais certezas para os
olhos
no céu mais azul e mais
alto.
II
«O Senhor responde a
Moisés:
“Passa para a frente do
povo.”» (1ª
Leitura)
E pôs-se à frente do povo,
no mês de Abib,
ergueu o bastão sobre os
Lagos Amargos,
bateu com a vara no rochedo
de Massa e Meriba
(duas vezes, como quem perde
os sentidos),
celebrou a Aliança entre
Deus e o povo,
destruiu o bezerro da
idolatria,
tornou-se Legislador,
Pontífice e Vítima.
Ele pôs-se à frente do povo
desde o monte Sinai até ao
monte Nebo
e ali ficou vendo-o entrar
na Terra Prometida,
como se contemplasse o
Invisível! (Heb
11,27)
Lopes Morgado
in Crer – raízes da minha fé
(Editorial Perpétuo Socorro, 1988) 62-63.
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