É de noite
«Meu Deus, meu Deus, porque
me abandonaste?»
(do Evangelho: Mt 27,46)
Náufrago em pleno oceano,
ave solitária num tecto de
casa abandonada, (Sl
101,8)
viajante perdido no meio do
deserto,
sentinela em noite de
trevas,
eu espero pela aurora!
Quase fora do tempo e do
espaço,
não sei se é de Apocalipse
ou de Génesis,
a minha hora!
Não sei se já tudo acabou,
ou se ainda a luz não foi
criada,
a terra não emergiu das
águas,
no firmamento não foram
acesos o sol a lua e as estrelas,
os céus e os mares não foram
povoados,
da terra não brotaram as
plantas e as flores,
a forma do homem não foi
cheia pelo teu sopro…
Tacteando, imóvel, no vazio
da noite,
procuro um sinal, uma voz,
um apoio…
“Meu Deus, meu Deus, porque
me abandonaste?» (Sl
22,2)
…mas ninguém responde.
Quem me livrará desta
angústia?
Quem me dará asas como a
pomba? (Sl 55,7)
Lopes Morgado
in Crer – raízes da minha fé
(Editorial Perpétuo Socorro, 1988) 24-25