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No III Domingo do Advento / Ano A

 

 

Advento (João Baptista)

 

Meu caro João Baptista,

 

acabo de reler, no Evangelho de São João,

o teu diálogo com os sacerdotes e levitas

que foram de Jerusalém ter contigo ao Jordão,

onde estavas a baptizar, por volta do ano 32 da nossa era.

E tenho a sensação arrepiante de te ver e ouvir hoje,

de tal modo são actuais as tuas respostas e a tua atitude.

 

Quando tantos apresentam os seus fundadores

ou os seus líderes como incontestáveis iluminados,

– os teus discípulos dizem de ti:

Ele não era a Luz,

mas vinha para dar testemunho da Luz.               (Jo 1,8)

 

Quando tantos se auto-promovem como portadores

de salvação para os males individuais ou colectivos,

tu apagas-te, respondendo:

Eu não sou o Messias,

mas apenas o enviado à sua frente.          (Jo 1,20b; 3,28)

 

Quando tantos pedem a palavra ou gritam

como se tivessem ou fossem a última e a única palavra,

tu limitas-te a ser a voz de uma palavra alheia:

Eu sou a voz de quem grita no deserto:

‘Rectificai o caminho do Senhor’,

como disse o profeta Isaías.          (Jo 1,23; Mt 3,3; Lc 3,4)

 

Quando tantos se põem em bicos de pés

para darem nas vistas ou serem vistos,

tu apontas para um Outro:

No meio de vós está quem vós não conheceis.

É aquele que vem depois de mim,

a quem eu não sou digno de desatar

a correia das sandálias.                              (Jo 1,26b-27)

Ele é que deve crescer e eu diminuir.                  (Jo 3,30)

 

Quando tantos são meros faladores

ou repetidores do mesmo,

tu és profeta e anuncias caminhos novos:

Preparai o caminho do Senhor,

e endireitai as suas veredas.                             (Lc 3,4b)

 

Quando tantos se arrogam em donos da verdade

ou inventores do que outros lhes legaram,

tu sabes pôr-te no teu lugar de servo:

Um homem não pode tomar nada como próprio,

se isso não lhe é dado do Céu.                          (Jo 3,27)

 

Quando tantos vão atrás do primeiro visionário

ou do primeiro vendedor de novidades santas,

tu, apesar de conheceres a honestidade de Jesus,

tens a liberdade e a lucidez de mandar interpelá-lo:

És Tu aquele que há-de vir,

ou devemos esperar outro?              (Mt 11,3; Lc 7,19-20)

 

Quando tantos se aproximam do poder,

evitando atitudes politicamente incorrectas,

tu és decapitado por denunciares o poderoso

e rejeitares o seu abuso de autoridade:

Não te é lícito possuir

a mulher do teu irmão.                        (Mt 14,4; Mc 6,18)

 

Quando eu digo que são tantos

e sei apenas de mim,

tu só falas do que vives

e testemunhas o que viste:

Eis o Cordeiro de Deus,

que tira o pecado do mundo!

É aquele de quem eu disse: ‘Depois de mim

vem um homem que me passou à frente,

porque existia antes de mim.’

Eu vi e dou testemunho

de que este é o Filho de Deus.                 (Jo 1,29-30.34)

 

Afinal, baptizando apenas com água,                            (Jo 1,26)

tu és um profeta, e mais que profeta:

és o maior dentre os nascidos de mulher;                 (Lc 7,26-28)

e eu, nascido da água e do Espírito,                               (Jo 3,5)

apenas transmito doutrinas aprendidas.

 

Mas, oh dom maravilhoso da graça:

embora eu seja o mais pequeno do Reino de Deus,

sou maior do que tu!                                             (Mt 11,11)

Desculpa, foi teu primo quem o disse;

e Ele – disseste-o tu, e eu creio – «é o Filho de Deus»

que havia de vir ao mundo,

veio há dois mil anos

e virá brevemente.

 

«Ámen! Vem, Senhor Jesus!»                      (Ap 22,20) 

 

 

 

Lopes Morgado

In em minha memória

DB (Fátima, 2004) 118-121

 

 
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