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O Natal de São Francisco
(relativo à origem do
Presépio popular)
Francisco preparava o seu Natal
de mil duzentos vinte e três, em Greccio,
pensando no Jesus da Encarnação.
Já no final, bateu-lhe ao coração
a ideia dum presépio.
E, em gruta igual à de Belém,
quis evocar toda a pobreza
do Deus Menino e sua Mãe.
Um homem, cujo nome era João,
seria o mensageiro dessa ideia.
Francisco dedicava-lhe afeição,
pois, mais que pelo sangue e a linhagem,
honrava-o, pela vida, toda a aldeia.
Contou-lhe o santo o seu intento:
que preparasse a manjedoura
com feno, o boi e o jumento.
Chamou-se todo o povo. Convocaram
os frades dos conventos em redor.
Com círios e archotes, transformaram
a noite em dia claro. Da floresta,
Já sobem os louvores do Senhor.
Francisco, em pé, junto ao presépio,
submerso em gozo e em piedade,
suspira ao ver tanta humildade.
Na Missa, faz de altar a manjedoura.
O diácono Francisco, revestido,
proclama o Nascimento, em voz sonora.
Mas, ao pregar, a voz potente e doce
transforma-se em balido.
Ao ele dizer: «Jesus», «Belém»,
repercutiam as quebradas:
«Jeru…salém, Jeru…salém.»
E quando o sacerdote fez descer
Jesus ao Pão do altar, na Eucaristia,
extático, Francisco pôde ver
que, sobre o feno quente do pesebre,
a imagem dum Menino lhe sorria.
(Natal é Deus que veste, inteiro,
A carne de ser Homem natural.)
Um ano após, no Monte Alverne,
o Irmão Francisco era marcado
pelo Senhor Crucificado.
O que ele comungara, pelo Natal,
enchera-lhe de amor o coração,
tomara-lhe a estatura natural
brotando agora dele, em cinco fontes
de Páscoa numa nova Encarnação.
Natal é só começo da viagem
de Deus dentro dum homem natural.)
Lopes Morgado
In Neste Natal
Paulinas (Lisboa, 1989) 42-44 |