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Viver a Quaresma

no Ano de São Mateus

 

 

A QUARESMA

no Ano de S. Mateus

 

 

Neste ano litúrgico 2007-2008, o Evangelho de S. Mateus vai ser proclamado na maior parte dos Domingos. Mas na Quaresma, por exemplo, em dois Domingos, o Evangelho é de João, pois, no caminho para a Páscoa do Senhor, este evangelista apresenta Cristo como fonte de vida para os que nele crêem. Resolvemos explicar todos estes Evangelhos, pois é a melhor forma de ajudarmos os leitores a compreendê-los e a compreenderem a pedagogia da Igreja ao seleccioná-los para a Liturgia do Tempo forte da Quaresma.

 

 

I DOMINGO

 

Deixar-se guiar pelo Deus da Palavra

 

Porquê 40 dias de Quaresma? Os 40 dias da Quaresma estão ligados às três tentações de Jesus, pois os Evangelhos dizem que, antes de ser tentado, Jesus foi para o deserto, onde jejuou durante 40 dias. Daí os cristãos, logo nos primeiros séculos, terem determinado um tempo de penitência antes da Páscoa. Ao falarem deste jejum no deserto, os Evangelhos pretendem dizer-nos que Jesus é o novo Moisés, que vem para fundar um novo povo. A relação entre Moisés e Jesus é clara: 40 dias no Sinai e 40 anos de viagem pelo deserto, o alimento milagroso do maná, o jejum e a palavra de Deus.

 

As tentações de Jesus, em Mateus. Depois do jardim do Génesis, a narrativa das tentações de Jesus é a primeira em que o homem e o diabo se encontram frente a frente. Só Mateus e Lucas narram de tentações concretas; Marcos apenas diz que Jesus foi tentado, sem dizer em quê, e João nem fala de tentações de Jesus.

 

O texto de Mateus situa-se depois do Baptismo, com que Jesus inaugura a sua vida pública. Esta “tentação” é um modo de dizer quem é Jesus: o Filho de Deus feito verdadeiro homem. Não se trata, portanto, de uma tentação como as nossas. Mateus narra-as em três cenas e uma conclusão; uma tem lugar no deserto, e duas em lugares altos. Vejamos.

 

1ª CENA: No deserto. Ao recusar fazer um milagre, Jesus pretende mostrar duas coisas: que tem na palavra de Deus (citada por Ele: Dt 8,3) o ponto de referência para o seu projecto de salvação da humanidade, e que é um verdadeiro homem; por isso, assume as consequências de passar fome e sede, como qualquer ser humano. Mas, se o primeiro homem pecou por comer da árvore proibida (Gn 3), Jesus vem remir esse pecado, pelo seu jejum.

 

2ª CENA: No pináculo do templo. Lançar-se abaixo do alto do templo diante dos judeus poderia ser um trunfo para Jesus mostrar que era o Messias; além disso, o Tentador cita-lhe o Sl 91,11-12 para justificar essa acção. Jesus recusa mostrar quem era por esse caminho, como um qualquer milagreiro barato. Ele mostrará que é o Filho de Deus, não pelos milagres que faz, mas pela palavra do Pai que vai proclamar e também pelo seu amor, não descendo do alto do Templo, mas subindo à cruz. É aí que o Pai o glorifica.

 

3ª CENA: Num monte muito alto. Sendo Filho de Deus, Jesus sente que poderia destruir todos os inimigos do povo judeu e tornar-se o senhor do Mundo. Era a tentação de um messianismo político, que não obedece aos projectos de Deus para o homem (Mt 16,16). Mas Jesus é o Homem livre, apenas com um projecto: cumprir a palavra do Pai, pelos caminhos da simplicidade e do sofrimento, próprios da nossa humanidade. Mateus conclui: «Então, o diabo deixou-o e chegaram os anjos e serviram-no.» Jesus não veio ao mundo para mudar a nossa condição humana, nem a sua. Todas as condições em que vivemos são o lugar do nosso cumprimento da vontade de Deus. O diabo, aqui, é o sonho infantil de viver num outro mundo diferente daquele em que o Criador amorosamente nos colocou, para fazermos nosso o seu programa.

 

Em 11 versículos, o Adversário de Jesus é citado seis vezes com os nomes de Diabo (v.1. 5.8.11), Tentador (v.3) e Satanás (v.10). Quem é ele? É um personagem que caracteriza as forças do Mal; neste caso, tudo o que se opõe ao projecto messiânico de Jesus, que veio para salvar a humanidade decaída, não com as honrarias que o Adversário lhe promete, mas dando a vida por todos. Jesus, Filho de Deus, defrontou e venceu o seu Adversário. Em cada um de nós travam-se também batalhas semelhantes, entre o projecto que Deus tem para nós e os projectos pessoais e egoístas que nós arranjamos. A qual dos dois projectos queremos obedecer?

 

 

II DOMINGO

 

O risco de se deixar guiar pela Palavra de Deus

 

O que é a transfiguração? No 1º Domingo, Jesus fora levado a dois lugares altos onde manifestou o seu domínio sobre o Mal. Hoje, Ele próprio conduz três Apóstolos ao Monte da Transfiguração. Este monte é o ponto alto de uma caminhada: começou na confissão de fé de Pedro (Mt 16,16) e termina neste texto da Transfiguração de Jesus, com outra profissão de fé implícita na sua divindade.

 

O fenómeno da “transfiguração” de Jesus encontra-se também no Antigo Testamento, sobretudo em Moisés, na montanha do Sinai, mediante os símbolos da luz, da brancura, da nuvem e do Sol: «a nuvem cobria a montanha e a glória do Senhor permaneceu sobre a montanha do Sinai e a nuvem envolveu-o durante seis dias» (Ex 24,16-17). Por isso «não sabia, enquanto descia o monte, que a pele do seu rosto resplandecia, depois de ter falado com Deus» (Ex 34,29-30). Mas Jesus não resplandece apenas na face: é toda a sua pessoa que irradia a luz divina significada na nuvem que, por sua vez, significa a presença do próprio Deus; sendo o Filho, irradia toda a luz do Pai.

 

Com Moisés e Elias. São os que estiveram em maior contacto com a glória de Deus, no AT (Ex 33,18-23; 1 Rs 19,11-13); e ambos subiram ao céu (2 Rs 2,10-12; Dt 34,6). Representam a Lei de Deus e o profetismo, respectivamente. Todo o AT, que Jesus vem aperfeiçoar, está assim presente. Ou seja: o Deus que se revelou no AT por meio dos profetas, revela-se agora perfeita e plenamente em Jesus.

 

Escutai-o. Uma voz proclama bem alto a identidade de Jesus: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus todo o meu agrado. Escutai-o» (v.5). É a voz do Pai que anuncia o seu Filho, com Isaías 42,1 que anunciava a vinda de um servo do Senhor, e o Sl 2,7 sobre a vinda de um rei que seria «filho de Deus». Tal como no Baptismo (Mt 3,17), também agora Jesus é apresentado como «Messias, Servo e Filho de Deus». Por isso deve ser tanto ou mais escutado que Moisés, a quem o seu povo escutou durante séculos: «O Senhor suscitará no meio de vós, de entre os teus irmãos, um profeta como eu; a Ele deves escutar» (Dt 18,15).

 

Como é bom estarmos aqui! Com estas palavras exclusivas na boca de Pedro, Mateus pretende dizer aos discípulos de todos os tempos: o melhor reconhecimento de Jesus como Messias é, sobretudo, escutar a sua Palavra como palavra salvadora para a humanidade. Escutar Jesus é, também, a melhor oração que podemos fazer-lhe.

 

 

III DOMINGO

 

Quem beber da água que Eu lhe der,

nunca mais terá sede

 

Neste Domingo, a Igreja Mateus apresenta o belo texto da Samaritana, exclusivo de João, para nos falar da água viva que é Jesus, vindo ao mundo para matar todas as sedes fundamentais da humanidade. Compreendiam-no bem os monges que, nos claustros do seu mosteiro tinham sempre um poço de água, não apenas para regar as flores dos jardins, mas para ver nele o coração aberto de Cristo oferecendo-nos a verdadeira água da vida.

 

Quem é Jesus? Um judeu. Maior que Jacob? Um profeta. O Messias? Junto do Poço de Jacob, um homem chamado Jesus discute com uma mulher da localidade sobre… água. É que há muitas espécies de água. Num primeiro malentendido (v.7-26) fica manifesto que, além da água que bebemos todos os dias, existe a água, símbolo da vida. Fica também claro que aquele que pedia água do poço tinha uma outra água para oferecer; e quem lhe ia dar água para beber, é que lhe vai pedir da água que dá vida (v.14). Depois, a mulher vai descobrir naquele judeu diferente (até fala com uma Samaritana!) o próprio Messias. Mas, antes, descobre que Ele é maior que Jacob (v.12) e um profeta (v.19), que lhe diz quais são os verdadeiros adoradores de Deus (v.21-24). Finalmente, o próprio Jesus lhe declara quem é o Messias: «Mulher, sou Eu que falo contigo» (v. 26).

 

Jesus, verdadeiro alimento. Enquanto a mulher se ausenta, chegam os discípulos de Jesus (v.27-38). Ao contrário da Samaritana, não sabem quem Ele é; chamam-lhe apenas “rabbi”, mestre, um título comum, então, a muitos outros. Por isso, estão preocupados apenas com o alimento material, desconhecendo o alimento da vontade do Pai (v.34). Para a cumprir, Jesus vai semeando a Palavra, desde a Galileia até à Samaria, passando por Jerusalém. Segundo Mateus, Ele é o divino Semeador da semente da Palavra divina cujos frutos já aparecem na conversão dos samaritanos (v.39-42).

 

Jesus, o Salvador do mundo. A 3ª parte do texto (v.39-42) apresenta o resultado do testemunho da samaritana junto dos seus: pedem para ficar com Ele, ou seja, apresentam-se como seus discípulos, e proclamam-no Salvador do mundo. E é curioso que este título de Jesus, o mais verdadeiro dos apresentados pelo texto, venha precisamente dos “heréticos” samaritanos!

 

A grande novidade do texto reside no facto da mulher ter optado pela água da vida, que é Jesus, deixando de lado as águas sujas dos cinco ou seis maridos, que ela pensava serem uma água capaz de matar a sua sede de felicidade. Ou seja, a “esposa infiel” encontrou finalmente o Esposo. Neste sentido, o texto torna-se uma alegoria da relação de Israel com o seu Deus, ou melhor, de Jesus com a sua Igreja. E, porque não, com cada um de nós?

 

 

IV DOMINGO

 

Há cegos… e cegos

 

O Evangelho, também exclusivo de João, opõe duas classes de cegos – um cego de nascença e os fariseus cegos – para concluir que estes últimos são os maiores cegos. Jesus cura o cego de nascença, mas conserva-se alheio aos debates do cego com a família e com os fariseus. Apenas intervém no início, curando-o, e no fim, ajudando-o a dar o último passo: aceitá-lo com a fé de discípulo. Com saliva e um pouco de barro – como Deus em Gn 2,7 – Jesus dá ao cego uns olhos novos; mas o que Ele pretende, em último termo, é dar-lhe um novo olhar interior: o olhar da fé na sua pessoa. Depois, envia-o à piscina de Siloé, qual Messias, que nos dá uma nova vida pelo baptismo. É com o baptismo que se cava a separação entre a Igreja e a sinagoga dos judeus, cuja cegueira é tal que se nega a ver a cura do cego.

 

O encontro com Jesus. O cego ainda não tinha visto Jesus, depois de os seus olhos terem sido curados. Está num processo catequético de conhecimento do Mestre, sem o ver plenamente. Para que ele atinja a última etapa, Jesus interroga-o: «Crês no Filho do Homem? O cego responde: Eu creio Senhor! E prostrou-se diante dele.» Agora é um discípulo de Jesus; mas, ao confessá-Lo, é enjeitado da sinagoga, porque não se pode estar do lado da luz e das trevas, ao mesmo tempo.

 

Fariseus e cristãos. Como fundo deste Evangelho, já está o duro debate, no início do Cristianismo, entre fariseus e cristãos acerca de Jesus. Os fariseus insistem em ser os únicos intérpretes da Lei de Moisés e de todo o AT, recusando que Jesus possa ser o herdeiro de Moisés: «Este homem não vem de Deus…». O cego – os primeiros cristãos – reclamam para Jesus a fidelidade absoluta a Deus e a Moisés: «Nós sabemos que Deus não ouve os pecadores…».

 

Esta oposição poderia resumir-se assim: os fariseus são adeptos da lei, do direito; os cristãos reconhecem a fidelidade a Moisés pelos factos: de cegos que eram passaram a ver. Portanto, é necessário ultrapassar os critérios jurídicos, para descobrir em Jesus aquele que nos traz a luz de Deus mediante a sua Palavra. Não estamos isentos deste defeito dos fariseus: ainda hoje pode acontecer que as leis matem o espírito, pois é mediante o Espírito que aceitamos Jesus pela fé como nosso Salvador.

 

Donde vem a cegueira? Embora o profeta Ezequiel já anunciasse que o mal não era hereditário e cada um era responsável pelas próprias culpas, pensava-se que a doença e o mal eram castigos do pecado. Daí a pergunta dos discípulos a Jesus: «Quem pecou: ele, ou seus pais?» Jesus nega qualquer ligação entre a cegueira e o pecado do cego ou dos seus pais. Deus não nos envia castigos, quando nos portamos mal. Pelo contrário, como diz Jesus, através do que nos parece um mal, pode manifestar-se a glória de Deus.

 

Um texto baptismal. Cada cristão é chamado a tornar-se discípulo de Jesus, fazendo o mesmo processo de cura do cego, de etapa em etapa: 1. ao princípio, é cego e não sabe quem é Jesus; depois, 2. ouve falar nele; 3. quer curado da sua cegueira; 4. confronta-se com muitos tipos de oposição, que o tentam desviar de Cristo; 5. conhece teoricamente quem é Jesus; 6. confessa que Ele é o Filho de Deus e adora-o como seu Deus.

 

No texto confrontam-se três tipos de pessoas: os fariseus e o cego (as pessoas que militam por uma causa), e os pais do cego, que se afastam da cena, com medo de represálias (os tímidos, medrosos, que não ousam tomar partido pela luz de Cristo). Dá vontade de dizer que grande parte dos baptizados é como este terceiro grupo…

 

 

V DOMINGO

 

Revelação da ressurreição

 

A revelação do mistério da ressurreição foi feita progressivamente, já desde o Antigo Testamento. Mas é com Jesus que o mistério se desvela mais perfeitamente.

 

A Revelação plena da ressurreição. A ressurreição de Lázaro, outro exclusivo de João, é um anúncio da Ressurreição de Jesus e da nossa própria ressurreição, descrito no centro do IV Evangelho como um tema central da palavra de Jesus. É o último “sinal” de Jesus na primeira parte deste Evangelho, e o seu ponto alto. Aconteceu em Betânia, perto de Jerusalém, depois do diálogo com Maria, irmã de Lázaro, em que Jesus proclama: «Eu sou a ressurreição e a vida». No texto aparecem outros títulos de Jesus: Senhor, rabbi, Filho de Deus; e diante do sepulcro, Ele fala com o Pai, com a confiança de Filho.

 

O anúncio da Paixão de Jesus. Pela oposição dos judeus que acompanham este acontecimento, ficamos a saber que nele se anuncia já a paixão de Jesus (v.36-37). De facto, alguns elementos da sepultura de Lázaro são comuns à de Jesus: o modo de o enfaixar e a pedra que fecha o sepulcro (Jo 11,38-39.44 e 20,1.5-6). Depois deste caso, os judeus tomam a decisão de matar Jesus (11,45-54). Alguns versículos depois, assistimos a uma refeição em que Lázaro está presente e Maria, sua irmã, derrama sobre os pés de Jesus um frasco de perfume de grande valor, que é interpretado como anunciador da unção para o dia da sua sepultura (12,1-8).

Neste sentido, o episódio é um texto charneira entre as duas grandes partes deste Evangelho: conclusão solene da série de “sinais” da primeira parte e abertura para a segunda (Paixão-Ressurreição). Por um lado, anuncia que a ressurreição não depende de um acontecimento futuro indeterminado, mas está ao alcance dos que acreditam em Jesus; por outro, mostra que a paixão e a morte são acontecimentos funcionais: preparam e conduzem à ressurreição e à glória (11,4; 13,1).

 

Diferentes atitudes de fé. O texto revela diferentes atitudes perante a pessoa de Jesus. É evidente que fala mais sobre quem é Jesus do que sobre Lázaro. Jesus é a personagem central. Os títulos que Ele recebe das outras personagens definem, de algum modo, o que elas pensam acerca dele.

 

Curiosamente, os discípulos chamam-lhe apenas “rabbi”, enquanto outros, com menor “responsabilidade”, o apelidem com nomes mais profundos e divinos… Estes diferentes personagens exprimem várias formas de acreditar em Jesus.

 

> Os discípulos manifestam uma fé hesitante, mas que seguem-no com entusiasmo, sem saberem bem para onde (vv.7-16).

> Marta, ao afastar-se dos que choram por Lázaro, para ir acolher Jesus (vv.17-27), representa o perfeito crente que faz um acto de fé: «Sim, Senhor, eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus.»

> Maria, pelo contrário, preocupa-se mais pelos lamentos da morte do irmão (vv.28-37); no entanto, a sua atitude é positiva: prostra-se aos pés de Jesus com uma confiança ilimitada (vv.31-32) e sublinha a humanidade de Jesus, enquanto Marta insiste na sua divindade.

> Lázaro, que não diz qualquer palavra, é o tipo de ser humano que tudo recebeu de Jesus: a vida; é a figura do discípulo que se deixa conduzir e aceita a vida nova que Ele trouxe para todos nós. A qual destes personagens se assemelha a minha fé?

 

 

frei Herculano Alves

 

 

 

 

 
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