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O
Trabalho
Ficou-me na memória um dito de Ovídio, já não sei em que
obra,
que dizia, “o trabalho retira ao amor o arco e as
flechas”. Os homens
grandes intuem de forma natural algo do verdadeiro Deus.
Jesu s a dada altura da sua missão chamou doze para estarem
com Ele (Mc 3, 13). A finalidade de tal intento era, antes de mais, comungarem uns
com os outros, apanharem os “tiques” uns dos outros, aprenderem a conhecer-se, a
aceitar-se e a amar-se reciprocamente. Jesus era o Mestre e
também Ele se deu a conhecer. Falou-lhes de tudo: de quando
estava com o Pai, do seu nascimento de Maria, da sua actividade
no meio dos homens, da sua Morte e Ressurreição, da sua Ascensão
aos Céus e de como estava “programado” regressar, “Deus sabe
quando”, para junto dos seus.
A finalidade imediata do “estar” era, numa palavra com
conteúdo, amarem-se. Mas havia um outro objectivo, indissociável
deste, o envio com a missão de pregar o Reino de Deus. A entrega
dos discípulos a esta incumbência foi tal que Jesus lhes teve
que dizer, “Vinde, retiremo-nos para um lugar deserto e
descansai um pouco” (Mc 6, 31).
Este cuidado de Jesus em proporcionar aos seus momentos de
comunhão e de repouso, depois da dispersão, das canseiras e dos
sacrifícios e privações típicas dos trabalhos de evangelização,
é próprio da forma preocupada e atenta de Deus ser em relação à
sorte do seu povo.
É certo, como dizia Mantegazza, inspirando-se no relato da
queda dos nossos primeiros pais (Gn 3, 17-19), que “o trabalho é
a primeira redenção do delito”, mas o trabalho quando é
excessivo, em vez de atenuar a dureza da vida torna-a
insuportável. Confirmação disso mesmo é a verificação e denúncia
que Deus faz dos sofrimentos do seu povo no Egipto (Ex 3, 7),
submetido a “trabalhos forçados” (Ex 1, 11) que o impediam de
prestar culto a Deus. A primeira tarefa de Moisés, foi
proporcionar um tempo para o encontro e a possibilidade de,
livremente, fazer uma festa com Deus (Ex 5, 3).
Vivemos numa sociedade que, sobretudo em alguns sectores,
ainda vive rendida à cultura do trabalho e, direi mesmo,
idolatra a ocupação e não concede tempo ao lazer, ao encontro de
pessoas, ao gosto de ser e de viver livre, ao prazer de saborear
uma refeição com tempo e bem acomodados, antes, come-se rápido e
de pé (o que não se identifica muito com os comportamentos
característicos da espécie humana). Emerge então uma civilização
que não dá espaço ao amor. O amor é relação, estar com o outro e
no outro, ouvir o seu apelo e apelar-lhe. Sem essa relação e sem
essa vocação a vida é como uma onda que não tem praia onde cair
e descansar.
Claro que isto é um absurdo, como absurdo é o trabalho que
de si mesmo só sabe dizer “tem que se trabalhar, fazer qualquer
coisa!”, sem o para quê do amar e ser. Sem amor o trabalho é
castigo, não é missão. Não espanta que nessa circunstância o
trabalho seja pesado, o arco não tenha projecção, nem a seta
acutilância.
Deparei-me um dia com um texto interessante. Pode ser uma
iluminação. Sinal dos tempos, disse, depois de o ter lido.
Transcrevo o texto: “Durante muito tempo fomos uma sociedade de
esforço, de produto, de horas, de taxas de poupança elevadas, de
uso maciço de recursos... Isso traduziu-se numa baixa
produtividade, porque uma coisa é a intensidade do esforço,
outra é a capacidade de orientar esse esforço para criar valor.
“Valor” significa riqueza, tempo para o lazer, para a família.
Temos de ter uma ética do valor e da produtividade e não uma
ética do trabalho. A ética do trabalho é uma coisa ultrapassada.
Nós temos de saber criar valor, saber viver”.
Este não é o texto de uma homilia, nota pastoral, ou
conclusão de semanas de estudo. Não é mais, e é muito, que uma
análise sobre o que bloqueia hoje a sociedade portuguesa, feita
pelo coordenador do Plano Tecnológico do actual governo do eng.
José Sócrates, João Albuquerque Tavares.
Sinal dos
tempos.
João Lisboa |