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Sinais de Vida
Há dias, um amigo transcreveu-me o epitáfio que se
encontra no túmulo do filósofo espanhol Miguel de Unamuno, no
cemitério de Salamanca: "Vivamos de tal maneira, que, no caso de
haver imortalidade, Deus fosse injusto se não no-la
desse."Falávamos de Páscoa e de ressurreição, e o meu amigo
interrogava-se: Onde vemos, hoje, os sinais de que Ele (Jesus
Cristo) está vivo? A vida que vivemos é uma fuga, ou uma busca
de ressurreição/imortalidade?
«Maria
Madalena foi ao túmulo logo de manhã, ainda escuro, e viu
retirada a pedra que o
tapava».
Para o facto, encontrou apenas uma explicação natural e correu a
avisar Pedro e «o outro discípulo, o que Jesus amava» (Jo
20,1-2). Este chegou primeiro, observou, mas não entrou. Simão
Pedro chegou também, «entrou no túmulo e ficou admirado».
Ambos viram
os sinais. Cada um fez a sua leitura. Sem dúvida, uma leitura
plural, pois eram pessoas muito diferentes. Depois, algo mudou
quando «entrou também o outro discípulo, o que tinha chegado
primeiro ao túmulo. Viu e começou a crer, pois ainda não tinham
entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar
dos mortos» (Jo 20,4-9).
O que é que
mudou? Mudou o critério de discernimento. Afinal, a necessidade
de correr, ver e tocar provinha da falta de uma verdadeira
compreensão da Escritura. Sem ela, ao discípulo falta como que
um quadro de referência, uma ideia da forma como Deus age e se
manifesta, no sentido de "tomar forma", na nossa História.
Quando os
discípulos perguntam: «Rabi, onde moras?» (Jo 1,38) - o mesmo é
dizer: onde estão Deus e o seu Cristo? Onde se manifestam? - a
resposta é a mesma: é necessário estabelecer morada na
Escritura. Então, apercebemo-nos de que Jesus não multiplica
lugares religiosos, mas adentra-se por locais que diríamos
"impróprios": a turbulência do deserto, a solidão da oração, a
aproximação aos pecadores, o acompanhamento dos fracos, a paixão
pela justiça, e tantos outros lugares e situações.
Na verdade,
Jesus anunciou e tornou presente o Reino de Deus, antes de mais,
dando vida e dignificando a vida dos seres humanos; o qual quer
dizer que a mediação essencial entre o homem e Deus não é a
religião, mas a vida. Não se trata de excluir a religião, mas de
compreender que ela é uma manifestação da vida e integra-se na
vida. Já Jesus dizia à Samaritana: «chegou a hora em que, nem
neste monte, nem em Jerusalém, haveis de adorar o Pai» (Jo
4,21).
Quando
escrevo, a 14 de Janeiro, Ariel Sharon debate-se entre a vida e
a morte. Herói da pátria para uns, responsável pelos massacres
em Sabra e Chatila. para outros, ou o "Arik rei de Israel", como
o alcunharam os seus admiradores, pela influência no processo de
paz no Médio Oriente, permitindo a devolução dos colonatos
judeus da Faixa de Gaza aos palestinos.
Quando de um
homem se pode dizer tudo isto, o melhor e o pior, tomamos
consciência da complexidade do mundo de hoje. Este processo de
complexificação terminará num momento futuro, um momento de
relação total, de plenitude.
Jesus morreu
como viveu. Viveu relacionando-se com todos e não excluindo
ninguém: discípulos e adversários, gente culta e ignorante,
ricos e pobres, poderosos e débeis, judeus, samaritanos, crentes
e pagãos. Morreu, desenvencilhando as armadilhas do mal (até
Herodes e Pilatos se entenderam: Lc 23, 12), resgatando e
acompanhando as vítimas com o seu amor, vencendo a morte, esse
«último inimigo» (1 Cor 15,26), realizando o seu propósito de
sempre; «reconciliou todas as coisas» (Cl 1,20) e, por fim,
«será tudo em todos» (1 Cor 15,28).
Até lá,
quando a vida e a dignidade humana forem reconhecidas, os
mecanismos da morte forem desarmados e o vento fresco da paz e
da reconciliação acariciar o rosto da humanidade, fazendo-a
nascer de novo (Jo 3,3-8), mesmo por caminhos tortuosos - quer
dizer que Ele está vivo e, uma vez mais, a misericórdia de Deus
manifesta-se ou "toma forma" na nossa história humana.
João Lisboa |