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Ser pequenino
Num estudo sobre a percepção e desenvolvimento mental da
criança,
Alan Slater, investigador da universidade de Exeter, na
Inglaterra,
chegou à conclusão de que os bebés, mesmo os recém-nascidos,
são atraídos pelos rostos das pessoas e voltam espontaneamente
o olhar para os mais harmoniosos e simétricos.
O olhar não
é apenas mais uma extraordinária habilidade do nosso corpo que
nos co loca,
interagindo com os outros sentidos, em comunicação com o mundo e
com os outros. Também pertence à dimensão mais profunda do
espírito humano. É o acto exterior através do qual o homem
transmite a sua interioridade, os seus pensamentos e os seus
desejos.
Assim, o
olhar, desde as suas mais tenras manifestações, quer
transmitir-nos a feliz notícia de que o natural do ser humano é
deixar-se atrair pelo belo. Na beleza está a felicidade do
homem.
«Tu,
Senhor, és Beleza» — suspirava São Francisco de Assis.
É verdade! E não existe nada de belo que não venha de Deus e não
seja divino, porque por Ele «tudo foi criado. Ele fixou tudo
pelos séculos sem fim e estabeleceu leis a que não se pode
fugir!» (Sl 148,5). Só em Deus pode o homem atingir a
plenitude da Beleza, que só Ele é.
Por isso, o
Salmista exclama: «Ó Deus, Tu és o meu Deus! Anseio
por ti! A minha alma tem sede de ti; todo o meu ser anela por
ti. Quero contemplar-te no santuário, para ver o teu poder e a
tua glória» (Sl 63,2abc.3).
Entretanto,
o homem perdeu de vista o sentido de bondade e beleza do que
existe e vive, corrompendo a imagem de Deus de que ele mesmo é
um reflexo (Gn 1,26-27). Criou o feio. E não só fez de várias
formas - o fratricídio de Caim (Gn 4,8-15), a Babel soberba (Gn
11,4-9), a adoração de falsos deuses (Sl 115,4.8) -, mas fê-lo
em todos os tempos.
Eis o feio,
hoje: em finais de Abril passado, gente de todas as partes
dirige-se para Dahab, estância turística situada no
Sinai, no Egipto, perto do Mar Vermelho, atraída pelas famosas
festas da Primavera. Se alguma estação oferece, ao insaciável
apetite da sensibilidade e da inteligência humana, infindas
oportunidades para desfrutar uma experiência do belo, é a
Primavera. Mas um atentado transforma a experiência do belo em
feio, cruel e horrível cenário de sofrimento e morte: cerca de
trinta mortos e mais de uma centena de feridos.
O nosso
destino seria dramático se, sobre esta história de negação e
desgraça, a misericórdia de Deus não tivesse decidido edificar
uma história de luz e graça e não tivesse enviado ao mundo o «resplendor
da sua glória e imagem fiel da sua substância» (Heb 1,3) -
Jesus Cristo, «o mais belo dos filhos dos homens» (Sl
45,3).
E onde
encontrar actuante essa luz e graça? Jesus diz aos seus
discípulos: «quem não receber o Reino de Deus como um
pequenino, não entrará nele» (Mc 10,15).
Gosto de
interpretar este "ser pequenino" como a possibilidade de uma
nova criação marcada por um apelo ao homem para ser fiel a si
mesmo e procurar a beleza; mas procurá-la da mesma forma que a
busca o recém-nascido, na sua "existência imaculada":
naturalmente, como uma emoção ou um profundo movimento interior
espontâneo, que o faz sair de si mesmo e procurar de modo
instintivo o Outro do qual depende radicalmente, fazendo-se e
comprazendo-se na contemplação da bondade e do amor que tudo
refaz.
Penso que
Albert Einstein tinha razão ao dizer que a busca da beleza é um
campo em que nos é permitido ser criança toda a vida.
Este é o
olhar dos inocentes, e também o dos santos. É um olhar
contemplativo, capaz de ver as realidades por dentro, de ir mais
além das formas e das aparências transitórias dos objectos, e
atingir - com e através deles - a Verdade, a Beleza, o Amor.
Esta é a
possibilidade. Este é o processo. Mas, como diz o Apóstolo,
nada disto se actuará, sem a energia transformadora do Espírito
do Senhor (2 Cor 3,18).
João Lisboa |