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A rosa e a náusea

 

 

A rosa e a náusea

 

 

“Desde tempos imemoriais a rosa significa mistério. Nas catacumbas de Roma, grandes cemitérios subterrâneos, os cristãos costumavam decorar os sepulcros com rosas. Assim, com a flor representavam a primavera, a renovação, a plenitude da vida com Deus e, na cor vermelha e nos espinhos, significavam a dádiva da vida, a confissão da fé, o martírio. Por isto, a rosa descreve bem o mistério da Páscoa. É justo que Jesus esteja na glória de Deus porque Ele realizou, com a entrega total da vida, por amor a Deus e aos homens, a obra mais digna a que pode aspirar a condição humana, “não há maior amor do que dar a vida” (Jo 15, 13).” Foi mais ou menos assim que vi introduzida a bênção das rosas num dos domingos deste tempo pascal.

 

Ao mesmo tempo, enquanto na Igreja portuguesa decorria a “semana da vida” e, por entre “campanhas de apoio à mãe”, alguns jornais (poucos), tanto de venda ao público como de distribuição gratuita, noticiavam que a Optimum Population Trust (OPT), uma organização não governamental dedicada a defender o controle da natalidade, pela voz do seu presidente John Guillebaud, terá afirmado que ultrapassar a “fertilidade de reposição”, isto é, dois filhos por casal, deveria ser considerado crime contra o ambiente. Daí que, o melhor que uma pessoa pode fazer para beneficiar o clima da terra, ser mais livre e ter outros benefícios, é ter menos filhos.

 

Na verdade, temos que encontrar um modo de vida racional e harmónico que garanta o equilíbrio, a continuidade e a sobrevivência da terra e dos seus vários ecosistemas. Mas, o constante pôr em dúvida a excelência única, a todos os títulos, da vida humana, em nome da modernidade, da civilização, da sobrevivência da terra e das outras espécies, sem nunca colocar em causa, por exemplo, a sociedade do desperdício; a defesa de modelos de vida pobres de relação e afecto, mas recheados de coisas e de animais de estimação; o domínio dos sistemas que hoje produzem poder (o sistema financeiro, o tecnológico e o militar) os quais têm como único objectivo auto-alimentarem-se excluindo todos os outros valores de ordem moral, religiosa, humanitária, ecológica, etc., faz-me duvidar destas propostas de salvação e felicidade e leva-me a imaginar um futuro sem riso nem vida, sem rosas nem perfume. Sem riso nem vida porque a humanidade, a ser assim, constrói para si uma grande solidão e “é raro que um homem só tenha vontade de rir” como escrevia Sartre em A náusea. Sem rosas nem perfume porque o homem vivendo a pensar unicamente em si acabará por se convencer, de facto, de que “os minerais são os seres menos horrorosos”, como diz o mesmo autor em A náusea.

 

Necessitamos do Evangelho. Deixar-se orientar por ele é percorrer o caminho certo da felicidade e da alegria.

 

O que Jesus quer é que a nossa alegria seja plena (Jo 15, 11). Mas essa felicidade e alegria não é a que o mundo nos quer vender. Antes de mais, tudo começa por uma situação difícil, de perda e sofrimento (Lc 15, 1-32): ora é o pastor que perde a ovelha, a mulher que perde a moeda, ou o pai que perde um filho. O passo seguinte é uma espécie de “arregaçar de mangas” que nada tem a ver, também, com tranquilidade e felicidade: ora é o pastor que busca com afinco, a mulher que trabalha incansavelmente, ou o pai que resiste à desesperança. Nunca a felicidade está no centro destas vidas, mas sim as aflições e as canseiras. No fim, só no fim de tudo, é que está a felicidade e esta tem sempre a ver com o encontro, que resulta de todas as lutas empreendidas, e com a partilha da alegria suscitada pelo encontro: ora da ovelha, da moeda, ou do filho.

 

Isto ainda não é suficiente para a erradicação definitiva da náusea. Quando os discípulos regressam da missão, cheios de entusiasmo porque tinham vencido os demónios da mentira, da perfídia, da violência e da desumanização, Jesus partilha com eles a alegria da missão cumprida, mas aponta-lhes uma razão maior para o entusiasmo, razão que não depende deles “alegrai-vos, antes, por estarem os vossos nomes escritos no Céu.” (Lc  10, 20). Esta era a rosa que faltava! Puro dom. Mistério.

 

 

João Lisboa

 

 
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