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O processo
No Natal de 2006 ressoou uma
insólita mensagem nos microfones da BBC. Ramos Horta, prémio
Nobel da Paz e primeiro-ministro de Timor–Leste ,
endereçava a sua saudação natalícia ao “irmão” Bin-Laden. Pode
ser, explicava Ramos Horta, que se ouvir estas “palavras
fraternas” se lhe desperte a “consciência”.
Em Maio do ano passado a revista
“National Geographic” agitou a opinião pública ao dar a notícia
da tradução de um manuscrito escrito em copta ele mesmo uma
tradução, também, do original escrito em grego antigo por volta
do ano 150 depois da morte de Judas. O tipo de relação entre
Judas e Jesus sempre foi intrigante. Entretanto, o que ficou
para a história e foi decisivo é que Judas traiu o Mestre.
Esta imagem que dele ficou a tal ponto entrou na nossa cultura
que para afirmar com vigor que alguém não merece confiança
diz-se que é “falso como Judas” ou é “traidor como Judas”. O
primeiro a chamar “traidor” a Judas foi evangelista Mateus (Mt
26, 48). João dizia que ele era “ladrão” (Jo 12, 5). A morte de
Judas também não foi boa. Lê-se nos Actos dos Apóstolos, “Esse
homem, depois de ter adquirido um terreno com o salário do seu
crime, precipitou-se de cabeça para baixo, rebentou pelo meio, e
todas as suas entranhas se espalharam.” (At 1, 18).
Saber porque é que Judas traiu
Jesus foi sempre um enigma para cristãos e não cristãos. As
teorias são muitas e não é isso que agora interessa. O que
interessa, e nos faz ser muito cautelosos na hora de julgar os
outros, é que há uma palavra no evangelho que não explicando o
mistério do mal de Judas, nos coloca diante dele de uma forma
impressionante e impregnante “Satanás entrou nele” (Jo 13, 27).
E há uma outra palavra no evangelho a que não é dado o nome de
Satanás mas é tão impressionante, invasiva e letal como ele.
Judas deu-se conta do seu erro “Pequei, entregando sangue
inocente”, mas ninguém atendeu ao drama interior de Judas,
antes zombaram dele e replicaram-lhe: “Que nos importa? Isso
é lá contigo.” E Judas cedeu ao desespero e roído de
remorsos e abandonado foi-se enforcar, conclui o evangelista (Mt
27, 1-6).
O maior pecado de Judas não foi
ter traído o Mestre, foi ter desesperado. Esta é a questão. O
que levou Judas ao desespero foi o abandono e o desprezo em que
se viu quando reconheceu o erro. O desespero é que mata, não a
traição. Pedro também traiu, todos os apóstolos abandonaram o
Mestre, mas voltaram e Cristo perdou-lhes e recolheu-os com a
mesma amizade e confiança de sempre. Para a salvação dos
apóstolos contou o encontro com a misericórdia e a amizade do
Senhor. Para o desespero de Judas contou a indiferença e a
crueldade dos homens. Nestes dias, e não posso deixar de
estabelecer certo paralelo com todo este processo que vimos
descrevendo, somos confrontados com mais um episódio de barbárie
e absoluto desrespeito dos direitos humanos verificados nas
nossas sociedades ditas civilizadas, o enforcamento de Saddam
Hussein. E que teria acontecido se ele tivesse ouvido uma
palavra fraterna, amiga... Afinal, quem enforcou Judas?
Certo dia um sacerdote iniciou a
sua homilia em Quinta-feira Santa de uma forma estranha mas
comovedora e que soava mais ou menos assim: “Peço-vos queridos
irmãos que nesta hora tenhais um pouco de piedade para com o
nosso irmão Judas. Não vos envergonheis desta fraternidade. Eu
não me envergonho porque tantas vezes traí o Senhor e ao
chamar-lhe irmão, nós estamos a usar a linguagem do Senhor,
porque quando recebeu o beijo da traição o Senhor respondeu-lhe
com as palavras que não devemos esquecer: “Amigo”(Mt 26, 50).
Os Apóstolos são os amigos do Senhor, bons ou não, generosos ou
não, fiéis ou não, traidores ou não, aos seus olhos e no seu
coração eles são sempre os seus amigos. Judas é sempre o amigo
do Senhor mesmo no momento em que com um beijo consuma a
traição. Eu não posso não pensar que também para Judas a
misericórdia de Deus, aquela palavra “amigo” dita por Jesus, não
tivesse feito caminho no seu coração e que, no último momento,
ele não tivesse pensado que o Senhor ainda o amava e que ele
ainda fazia parte dos seus. Gosto de pensar que talvez tenha
sido Judas o primeiro apóstolo a entrar no Reino juntamente com
os dois malfeitores. É um cortejo que não honra muito o Filho de
Deus mas é a manifestação da grandeza da sua misericórdia”.
Não podemos compreender a razão de
tanto mal que brota do coração do homem. Mais difícil ainda é
perceber a razão de uma misericórdia, ainda maior, que sai do
coração de Deus. Mas nesta é que está a chave de compreensão de
tudo. Como dizia Leão Tolstoi “compreender tudo, é tudo
perdoar”.
João Lisboa |