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Matris munus

 

 

Matris munus

 

Vinham, mãe e pai, bem chegados um ao outro.

A mãe estreitava, trémula, a frágil vida que brotara das

profundas fibras do seu ser. Chorava! Que levará um casal

a sair debulhados em lágrimas da sala de partos da

maternidade? A resposta vem entrecortada pelos soluços:

“Eu nunca pensei que ser mãe era tão bom!”. Não eram

lágrimas de dor, mas o extremo

sorriso do amor.

 

A felicidade de Sara (Gn 21,6-8); a gratidão de Ana (1 Sm 1,20-2,1-10); o enlevo de IsA felicidade de Sara (Gn 21,6-8); a gratidão de Ana (1 Sm 1,20-2,1-10); o enlevo de Isabel e, sobretudo, o êxtase de Maria, mãe de Jesus (Lc 1,39-47), pelo cumprimento do seu matris munus, isto é, dom de ser mãe, estava embebido destas lágrimas de felicidade.abel e, sobretudo, o êxtase de Maria, mãe de Jesus (Lc 1,39-47), pelo cumprimento do seu matris munus, isto é, dom de ser mãe, estava embebido destas lágrimas de felicidade.

 

Claro que disso não temos um testemunho histórico, mas pressentimos que assim teria sido porque estas são existências realizadas, existências que tocam o céu.

 

Dizia Chateaubriand: «É necessário ter o coração colocado alto para derramar certas lágrimas; a nascente dos grandes rios encontra-se no cume dos montes que avizinham o céu.» É do céu que se toma parte do amor maior, Cristo «que nos amou até ao fim» (Jo 13,1). “Amar até ao fim” significa que não existe amor mais perfeito. Cristo é o amor perfeito. E «o amor de Deus foi derramado nos nossos corações», diz S. Paulo (Rm 5,5). É desta participação no amor perfeito com que fomos amados, que, em última análise, nascem os autênticos sorrisos de amor.

 

Portanto, não existem só lágrimas de dor. Existem lágrimas de amor. O mal é que destas não se fala. Não se fala por motivos ideológicos e, quando delas se fala por motivos ideológicos, fala-se de forma falseada.

 

Acontece que, muitas vezes, é difícil entendermo-nos e comunicarmos sobre as coisas essenciais da vida e da felicidade das pessoas. Há palavras cujo significado, construído sobre a experiência de incontáveis gerações e purificado ao longo de séculos para poderem exprimir os conceitos e os sentimentos mais profundos e delicados da humanidade, é forçado para significar outra coisa.

 

Por exemplo, sempre se entendeu que o matrimónio, onde a mulher tem um papel preponderante na transmissão da vida, como aliás a própria palavra diz (do latim matris munus, função da mãe), significa a união estável, com reconhecimento civil ou religioso, entre um homem e uma mulher e que dá origem a uma família.

 

Pois hoje, contra o significado histórico e lógico da palavra, pretende-se que signifique também a união transitória entre duas pessoas podendo mesmo ser duas pessoas do mesmo sexo, masculino ou feminino.

 

Mais, é da nossa experiência comum que a realidade mãe e pai não se podem considerar meros vocábulos. Em todos os tempos, culturas e civilizações, ela existe antes da génese da língua e está na sua origem. Com o tempo transformou-se em palavras, as mais familiares, com as quais nascemos, crescemos, nos educamos e morremos. Tais palavras possuem, pois, um conteúdo histórico, sociológico, psicológico e religioso que pensaríamos inquestionável.

 

No entanto, de há anos a esta parte, assiste-se a uma estratégia de desenraizamento do uso quotidiano e institucional destes termos e à sua substituição por outros tais como “progenitor A” e “progenitor B”.

 

O mais estranho é que estas ideologias artificiais e destrutivas sejam estimuladas por organizações pretensamente sensatas, como a ONU e a UE.

 

A intenção não é outra senão anular, em nome dum mal formulado princípio de igualdade e de liberdade, a diferenciação sexual e a especificidade dos papéis de mãe e de pai. Tal como acontece, aliás, com a substituição das palavras homem e mulher pelo termo neutro “género”.

 

O homem de fé não deixará de ouvir ressoar no seu coração a Palavra que diz: «Não lestes que o Criador, desde o princípio, fê-los homem e mulher, e disse: Por isso, o homem deixará o pai e a mãe e se unirá à sua mulher, e serão os dois um só? Portanto, já não são dois, mas um só. Pois bem, o que Deus uniu não o separe o homem» (Mt 19,4-6).

 

 

 

João Lisboa

 

 
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