|
Humanidade ressequida
Há
duas certezas que o homem esquece com facilidade:
uma é que não há vida sem morte,
outra é que sem água não há vida.
De tão essencial que é, a água reflecte como nenhuma outra
criatura algo de divino – talv ez
por isso, para o antigo filósofo da natureza, o grego Tales de
Mileto, a água era o elemento primordial, a substância mãe, a
origem de todas as coisas –. Como Deus não é criada e sobre ela
Deus não disse “faça-se” (Gn, 1-2). Como Deus está em
toda a parte: no ar, nas rochas, nos rios, nas nuvens, no fogo,
nos animais, nas plantas, no Norte, no Sul, no Este e no Oeste.
Como Deus é indefinível e o que dela dizemos fica aquém do que
ela é. Como Deus é inapreensível e esvai-se por entre os dedos
quando a julgávamos prisioneira. Como Deus é humilde e só pára
quando a descida cessa “tornando-se obediente até à morte e
morte de cruz” (Fl 2, 8).
Há uma coisa que a água é, mas Deus não. A água é instrumento, “e
da terra brotava uma nascente, então o Senhor Deus formou o
homem do pó da terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da
vida, e o homem transformou-se num ser vivo” (Gn 2, 7). Os
mesmos instrumentos usa Jesus para fazer brotar o homem novo, “Cuspiu
no chão, fez lama com a saliva, ungiu-lhe os olhos com a lama e
disse-lhe: ‘Vai, lava-te na piscina de Siloé’ – que quer dizer
“Enviado” (Jo 9, 6-7). Deste gesto re-criador de Jesus
brotou a criatura que vê e acredita em Deus e no seu Cristo.
Mas o homem esqueceu-se de Deus. O homem esqueceu-se que a água
é instrumento de Deus para dar vida. O homem esqueceu-se que sem
água não há vida.
“A destruição sistemática dos recursos naturais da Terra atingiu
tal nível que a conta que passamos aos nossos filhos pode ser
impossível de ser paga”, disse Achim
Steiner, Director Executivo do PNUA (Programa das Nações
Unidas para o Ambiente).
Em breve, metade da população mundial não terá disponível a
quantidade mínima de água considerada indispensável para a
sobrevivência. Já hoje, o mal da água atinge o “pão”, pois no
Bangladesh torna-se impossível a colheita do arroz porque as
terras ficam cobertas de água durante quatro meses na estação
das chuvas, quando antes ficavam apenas durante as quatro
semanas da monção. Já hoje, o mal da água atinge o homem, pois
85% das doenças humanas nos países pobres estão relacionadas com
a quantidade ou a qualidade da água. Já hoje, o mal da água
afecta as regiões desenvolvidas do planeta, pois a Europa
enfrenta o gravíssimo problema da poluição da água dos rios e
mares interiores.
Com cenário tão sombrio dir-se-ia que todos se solidarizariam
para resolver o problema. Mas a solidariedade não é a virtude
motora dos poderes e centros de decisão deste mundo. O GEO-4
(Global Environment Outlook) constata que a tomada de decisões
políticas urgentes e corajosas é difícil, dada a pressão de
poderosos grupos económicos particularmente ligados à indústria.
E se algum progresso se tem verificado nos países desenvolvidos,
tal não é globalmente verdadeiro, porque esses índices locais
foram alcançados à custa do desenvolvimento dos países pobres
para onde foram exportadas as indústrias e os malefícios a ela
associados, como por exemplo, a emissão de gases de efeito
estufa.
É
neste contexto de indiferença e falta de solidariedade para com
a natureza e os mais fracos e desfavorecidos, evidenciada por
aquele que é a coroa da criação e, por isso, seu guardião e
promotor por mandato divino (Gn 1, 28), que soam apropriadas e
incisivas as palavras do profeta: “Parece-vos pouco beber
água límpida, para irdes turvar o resto com os vossos pés? E as
minhas ovelhas devem pastar o que pisastes com os pés e beber o
que os vossos pés turvaram?” (Ez 34, 18b-19). A mesma
advertência, desta vez apresentada em forma de consequência
derivada de comportamentos insolidários, chega-nos pelo grito
desesperado do rico Epulão “Pai Abraão tem misericórdia de
mim e envia Lázaro para molhar em água a ponta de um dedo e
refrescar-me a língua” (Lc 16, 23-24). O homem ressequido é
um homem sem Deus.
João Lisboa |