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"Homem nítido"
"O homem perfeito consta de três coisas: carne, alma e
Espírito".
Quem formulou esta definição foi Santo Ireneu de Lyon na sua
obra
'Adversus Haereses'. É a definição mais completa, cristã e
exigente de homem, que eu conheço.
Ireneu
fala do Espírito que desceu e permaneceu sobre Jesus (Jo 1,32).
O Espírito que é
a vida e sem o qual nada veio à existência (Jo 1,3; ver Gn
1,2.26). São Paulo diz que «o Senhor é o Espírito e onde está
o Espírito do Senhor, aí está a liberdade» (2Cor
3,17); é «um espírito que vivifica» (1 Cor 15,45): sem
Ele, o homem não pode reflectir aquilo que realmente é - "imagem
e semelhança de Deus".
Para saber
qual é essa "imagem e semelhança", precisamos de olhar para
Jesus. N'Ele, o Espírito Santo manifesta-se sempre como o
espírito do homem, isto é, aquele que realiza a imagem original
do homem. Por isso, Jesus nunca justificou as suas
palavras e atitudes socorrendo-se de qualquer tipo de
magistério, fosse ele de cariz religioso, jurídico ou
científico. Apelou, pura e simplesmente ao homem, à verdade
original do homem.
De forma
muito simples e profunda, disse: «O sábado foi feito para o
homem e não o homem para o sábado» (Mc 2, 27); um homem vale
mais que uma ovelha (Mt 12,12); a verdade primeira do homem está
em ser uma só carne com a mulher que ama (Mc 10,6-7); «Não
lestes o que fez (o homem) David, quando sentiu fome?»
(Mt 12,3); O que não é possível aos homens, é possível a Deus (Mt
19,16).
Ora, é esta
verdade do homem anunciada por Jesus que o Espírito de Jesus
pronuncia em nós (Rm 8,26-27), isto é: o ser divino do homem.
Quem possui esta realidade que liberta e configura - sendo,
assim, uma unidade de "corpo, alma e Espírito" - pode chamar-se,
com toda a razão, "homem nítido", diz Ireneu.
O "homem
nítido" parece, hoje, um "homem baço", de olhar triste,
ensombrado, depressivo. Porquê? São Paulo diz que, quando o
homem põe em jogo o seu ser divino, entra em crise (Rm 1, 18ss).
Em vez de ser animado pelo Espírito da liberdade, escolhe
submeter-se a outros espíritos que bem conhece e entre os quais
se debate: o espírito da escravidão à lei e o espírito da
escravidão a si mesmo. Mas estes, são espíritos que falsificam e
deformam a imagem original do homem.
A velha
pergunta 'Quem é o homem' não é, hoje, uma pergunta
meramente retórica. Parece que nas sociedades ditas
desenvolvidas tudo se encaminha para ceder à pretensão do homem
de ser ele mesmo, de algum modo, o autor da vida e,
consequentemente, ser ele, também, a decidir quem deve morrer e
quem deve viver, quem pode nascer e quem não pode. As leis sobre
o aborto, a eutanásia, a fecundação artificial, a manipulação
genética, a clonagem, manifestam essa mudança radical da ideia
de homem e a emergência da noção de homem criador de si mesmo.
Todos os
países ditos democráticos reconhecem e declaram invioláveis os
direitos que precedem o homem, isto é, que são inatos - a vida,
a liberdade, a identidade; mas depois, constroem um arrazoado
jurídico que os coloca constantemente em causa, dando assim
lugar à construção cultural de direitos e de éticas novas - os
assim chamados "direitos civis": ao aborto, ao filho, ao uso de
embriões, à eutanásia, à negação da radical diferença sexual
entre homem e mulher, etc.
Por tudo
isto, a velha pergunta 'Quem é o homem?' (SI 8,5) surge,
espontânea e preocupante, em quem pressente o eclodir perigoso
de um homem "pós-humano", atingido na sua dignidade divina e,
por isso, de raiz duvidosa, de prática arbitrária e destino
obscuro.
Reencontrar
a intimidade original entre o Espírito e a natureza é o caminho
para evitar que, desvitalizada e despojada da sua peculiar
dignidade, a natureza seja convertida em matéria bruta, escura
ou mero recurso. Unir o Espírito, a carne e o sangue, é condição
essencial para voltar a fazer deste "barro" o tecido maternal do
ser autêntico - "homem nítido", "imagem e semelhança de Deus".
João Lisboa |