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Destino

 

Quando se abordam temas que nos fazem sentir como que

inseridos num todo e se fala do sentido profundo das coisas e

da vida, de Deus e dos valores, produz-se nos lobos temporais do

nosso cérebro uma excitação tão forte que desencadeia uma

experiência de exaltação e de intensa alegria semelhante à

do estar diante de uma presença viva.

 

 

Por isso, alguns cientistas na área da neurobiologia e da física quântica, como Michael Persinger e Danah Zohar, respectivamente, apelidaram essa zona dos lobos temporais de "ponto Deus".

 

Estes estudos sobre o cérebro humano levam alguns a lançar a hipótese de que n«a vocação do homem é o céu e não a terra, é Deus e não um paraíso terrestre»ão temos apenas uma inteligência analítica ou intelectual e uma inteligência emocional, mas também uma inteligência espiritual sensível aos valores, às realidades últimas, às questões relativas a Deus e à transcendência.

 

Uma dessas instituições que acolhem crianças abandonadas, vítimas de maus-tratos e que enfrentam diversos problemas de desenvolvimento e integração social, resolveu encerrar o ano de actividades com uma celebração na igreja.

 

As cerca de 60 crianças estavam excitadíssimas, não tanto pela celebração, julgo eu, mas por irem passar férias nas suas respectivas famílias depois de um ano vivido em internato.

 

Foi lida uma passagem do evangelho de Mateus que encerrava com a famosa frase de Jesus «sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste» (Mt 5,48). Ninguém deve ter ouvido o que quer que fosse porque o espaço para a escuta estava duplamente ocupado quer pela irrequietude das meninas quer pelos ruidosos esforços das educadoras para as manter em silêncio.

 

Na homilia, o sacerdote começou por elogiar as meninas pelos sucessos alcançados. O estilo inesperadamente coloquial e próximo trouxe um breve período de acalmia. Adivinhava-se, no entanto, o regresso do burburinho.

 

Eis senão quando, o sacerdote começa a contar a história de uma menina extraordinária que tinha nascido cega, surda e muda, em quem ninguém acreditava poder vir a ser alguém mas que veio a tornar-se numa grande mulher. À medida que prosseguia a colorida narração da vida de Hellen Keller a atmosfera da celebração e a atitude de crianças e adultos foi mudando radicalmente: os corpos inclinaram-se para diante, as mãos sustentavam o rosto, os olhos fixavam-se obsessivamente no sacerdote que girava pelo espaço vazio, as crianças mais velhas estreitavam as mais novas, o silêncio fez-se total e assim permaneceu até ao fim da celebração, apesar da forma abrupta como o padre concluiu a história.

 

Foi um momento breve, único, perfeito. Foi um momento de Deus. Deus já lá estava, bem impresso nessa zona mais nobre, distinta, diferenciável e dignificante do ser humano, mas tornou-se expresso, perceptível e, naquele momento, fez-se patente que vivemos no mundo e com o mundo, mas o mundo não é o que é melhor para nós. É verdade que somos história. Mas temos uma dinâmica que reclama a ruptura com a História e a realização para além da História.

 

Dizer de Deus que é perfeito (Mt 5,44), santo (1 Pe 1,14), misericordioso (Lc 6,36) é, de facto, falar do ser de Deus, totalmente Outro, absolutamente diferente de nós. Tem-se a noção da inacessibilidade e distanciamento de Deus. Porém, dizer "sede perfeitos, santos, misericordiosos" denuncia a existência dessa marca indelével de Deus em cada ser humano, faz adivinhar a sua acessibilidade e revela que a verdadeira humanidade só se encontra na total extrapolação de si mesmo e no ponto de encontro com Deus.

 

Realmente, a vocação do homem é o céu e não a terra, é Deus e não um paraíso terrestre; e exprimi-la numa existência justa, perfeita e pura como a de Deus é, de algum modo, dirigir a Terra e a História para o supremo ideal de Deus.

 

 

João Lisboa

 

 
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