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O deserto

 

 

O deserto

 

Li algures, num desses quiosques onde se expõem todos os jornais

e revistas dos mais diversos assuntos, o título seguinte, que

me ficou na memória: "A solidão, dizem os psicólogos,

é a epidemia do século XXI."

 

 

Não será tanto a solidão, mas o isolamento. A solidão é um valor fundamental. Há-de chegar o momento, e Deus queira que chegue, em que sentiremos que nada nos satisfaz de verdade. O que adAo deserto vai quem quer criar, inovar, provocar um novo nascimento, fazer surgir uma nova mentalidade, uma nova maneira de actuar, um novo estilo de viver.quirimos: ciência, conhecimentos, métodos, experiências, esperanças - enfim, todos os nossos recursos, afinal, só nos satisfazem até certo ponto; permanece ainda um vazio que nada nem ninguém pode preencher.

 

Esta percepção não se adquire com o decorrer habitual da vida, sempre muito recheada de reluzente palavreado e sem espaço para o silêncio, mas quando somos fortemente abalados por alguma situação onde todas as fantasias se esvaem e já nada esperamos de nós nem dos outros. Apenas existe um deserto imenso e, no entanto, uma enorme vontade de viver.

 

A solidão é esse deserto necessário e imenso que eu posso povoar de nada ou de Deus. E surge então a pergunta de Nicodemos a Jesus: «Como pode um homem nascer, sendo velho?» (Jo 3,1-4).

 

O isolamento é mau. O isolamento é achar-se só no mundo quando se está só. Apesar de ser contrário à natureza humana, é uma construção nossa, terrível. Vivemos numa época em que se legisla para fazer circular mercadorias e metais e se legisla, também, para impedir o bem e a circulação de pessoas. Às portas da cidade estão "mais de 30 mil, na fila, para ingressar", noticiava um semanário referindo-se à pressão migratória que está a ser exercida na Europa, nomeadamente, em Ceuta e Melilla. Uma imensidão de homens arrancados às suas raízes, às suas famílias, esfarrapados, ensanguentados, famintos e sedentos. Eles vêm do deserto. Têm que passar uma, outra e mais outra barreira de muitos metros de arame farpado, erguidas pela cidade. As barreiras existem para sossegar a cidade, para a isolar e lhe dar "razão", para dizer que "eles" não são irmãos, são "ilegais".

 

Nas sociedades ocidentais dá-se este paradoxo: grita-se e reclama-se "inovação", e multiplicam-se as barreiras para perpetuar as mesmas rotinas, hábitos, automatismos e desumanidades.

 

Ver a vastidão do deserto absorver estes homens rejeitados pela cidade amuralhada, faz-me ir até esse futuro em que o Filho do Homem, sentado no seu trono, reunirá todos os povos, os isoladores e os isolados, os legais e os ilegais. Ele separará uns dos outros e dirá aos da esquerda: «Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno... Em verdade vos digo: Sempre que deixastes de fazer isto a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer» (Mt 25,41-46).

 

Quando a cidade se abrir à vastidão divina do deserto, renascerá. O deserto gera infatigáveis proclamadores de algo novo. Do deserto veio João Baptista, para indicar o surgimento do Messias (Mt 11,7-10). Do deserto veio Jesus Cristo, para iniciar a proclamação da vinda do Reino de Deus (Lc 1, 80). Quando Jesus saiu do deserto, onde tinha sido baptizado por João Batista, apareceu a proclamar ideias e estilos de vida com esta dupla característica: eram novas e tinham carácter de urgência (Lc 4,14-22).

 

Mas a característica do deserto não é a urgência, o imediatismo, o desejo de resultados rápidos. O deserto é o ambiente da renovação. Ao deserto vai quem quer criar, inovar, provocar um novo nascimento, fazer surgir uma nova mentalidade, uma nova maneira de actuar, um novo estilo de viver. Ao deserto vai quem pressente que há mais vida para lá do adquirido, quem aposta em contrariar o hábito, a repetição, o automatismo.

 

Do que a cidade necessita é de deserto. O deserto pode significar muitas coisas boas para a cidade. Tem razão o presidente da comissão europeia, Durão Barroso, quando grita para a cidade a propósito dos que a ela chegam vindos do deserto: "Não são bandidos. Isto é o reflexo da pobreza e da exigência de solidariedade."

 

 

João Lisboa

 

 
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