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Desejo sideral

 

 

Desejo sideral

 

No relatório do Desenvolvimento Humano (PNUD) de 2007,

Portugal ocupa a 29º posição entre os 194 países que fazem

parte da Organização das Nações Unidas. Mas ninguém parece

estar satisfeito. Não por se preocuparem pelos outros,

mas por quererem mais para si. Como dizia o sábio Sirácide, a

riqueza traz mais preocupações do que sossego. É como uma

doença grave que afasta o sono (cf Sir 31,1s).

 

Deseja-se sempre uma vida melhor. Deseja-se bem-estar, saúde, paz, educação, dinheiro e muitas coisas mais. Tem-se, mas o desejo faz com que, por mais bem-estar se proteste; por mais saúde se conteste; por mais paz se guerreie; por mais educação se deforme; por mais dinheiro se roube.

 

Desejar é bom. O desejo é qualquer coisa que provém de sideribus, ou seja, das estrelas. Ora, se o desejo provém das estrelas, o mesmo é dizer, do infinito e que ao infinito tende, é claro que as coisas e a sua busca meramente quantitativa não o satisfazem. É necessária uma tensão qualitativa.

 

Conta-se que o poeta Rilke e uma sua amiga, no trajecto quotidiano para a universi“Porque devemos chegar ao seu coração e não às suas mãos”dade, deparavam sempre com uma mulher que, de olhos no chão e mão estendida, parecendo uma estátua, pedia. A companheira de Rilke, que frequentemente dava uma esmola, perguntou ao poeta porque nunca o fazia. Rilke respondeu: “Porque devemos chegar ao seu coração e não às suas mãos”. No dia seguinte Rilke apareceu com uma bonita rosa e ofereceu-a à pedinte. Quando fazia menção de se ir embora, vê a mulher erguer a cabeça, olhá-lo fixamente, levantar-se com dificuldade e afastar-se com a rosa chegada ao peito. Durante oito dias os dois amigos não viram a mulher, mas ao oitavo dia lá estava ela como de costume. De que terá vivido ela durante os oito dias, perguntou a amiga a Rilke? Da rosa, respondeu o poeta.

 

Todos sabemos que as flores estão sujeitas à lei da consumação. Revelam um maravilhoso parentesco com a vida e a beleza que a rodeia e que elas mesmas irradiam, mas acabam. Na linguagem bíblica as flores indicam o carácter bonito, mas passageiro da vida. “Os dias dos seres humanos são como a erva: brota como a flor do campo, mas quando sopra o vento sobre ela, deixa de existir e não se conhece mais o seu lugar” (Sl 103, 15; cf Is 40, 6-8). No entanto, também na Bíblia, como nas histórias da nossa vida, as flores, são o instante que nos leva para longe das inquietações da mente, e nos remete para a outra face do desejo, para as estrelas, para o sobrenatural e paradisíaco. “Olhai como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam! Pois Eu vos digo: Nem Salomão em toda a sua magnificência, se vestiu como qualquer deles” (Mt 6, 28).

 

O homem, ao contrário dos animais, não nasce vestido nem encontra directamente na natureza alimento. Tem que trabalhar para satisfazer as suas necessidades. É assim que garante o alimento e com o alimento a vida animal. É assim que também garante o vestuário e com o vestuário a vida social – o vestuário serve para o defender do ambiente, mas também para ser visto –. O mal está em fazer destas necessidades um ídolo ao qual se sacrifica a própria vida deixando-a consumir-se em “inquietações”, “preocupações” e “fadigas” inúteis (cf Mt 6, 25-34) porque, se todas estas coisas, sustentam a vida, não são nem dão vida. Só Deus é e dá vida. Ora, se Deus que é Pai “nosso” e não “delas”, isto é, das criaturas, e “dá de comer aos animais e aos filhotes dos corvos, quando gritam” (Sl 147, 9) e “veste assim a erva do campo” (Mt 6, 30), quanto mais não se preocupará Ele com os seus filhos, que somos nós, nos quais circula o Espírito que dá vida (cf. Rm 8, 2)?

 

Conclusão, o poeta não fez mais do que colocar na mão da pedinte a obra do Pai. O Pai deu a semente ao semeador. Depois, deu a chuva à semente (cf. Is 55, 10) para que nascesse a flor. Em seguida, verteu o seu amor no coração do poeta (cf. Rm 5, 1-5). Por fim, fez com que a flor dada por amor fizesse ressoar uma poesia sidérea no coração da mulher. A partir daqui sobram as esmolas. O melhor é o céu. Aspiremos a ele.

 

 

 

João Lisboa 

 

 
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