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Complementaridades
Os sábios, lendo no livro do universo e trilhando os caminhos da
ciência, e os místicos, lendo no livro das Escrituras e
percorrendo os caminhos da intuição contemplativa, chegam à
mesma conclusão: somos todos irmãos. São Francisco de Assis
celebrou esta verdade de uma forma magnífica no canto das
criaturas: “Louvado sejas meu Senhor com todas as tuas
criaturas”.
Daquelas lei turas
do tempo da juventude que não se esquecem, recordo o pequeno
livro “Deus e a Ciência” no qual um dos irmãos Bogdanov ensaiava
a resposta à pergunta de Jean Guitton sobre, o que é a vida?
Primeiro chamou a atenção para uma borboleta, pousada perto de
uma pequena pedra. “Uma é um ser vivo, a outra não o é, mas qual
é ao certo a diferença entre as duas? Se nos colocarmos ao nível
nuclear, quer dizer, à escala das partículas elementares, a
pedra e a borboleta são rigorosamente idênticas”. Depois,
evoluindo por estádios cada vez mais complexos até dar o salto
decisivo para o nível das macromoléculas, “a borboleta parece
infinitamente mais estruturada, mais ordenada que a pedra. Isto
permite compreender a única diferença de fundo entre o inerte e
o ser vivo: um é muito simplesmente mais rico em informação que
o outro”. Se elevarmos, ainda mais, o grau de complexidade,
atingimos a consciência reflexa dos seres humanos.
Isto quer
dizer que todos os seres, na sua incomensurável diversidade,
provêm de uma mesma origem, a matéria, que, como o próprio nome
indica, é mater, ou seja, mãe, tal é a sua capacidade de
se auto-estruturar e se transformar em matéria viva.
Nem a
intuição do místico é mera ingenuidade, nem a descoberta do
sábio pura ilustração. Ambos são impelidos a ir mais além e a
perguntar: o que está por detrás de tudo? O que é esse princípio
de ordem? Não há um alguém transcendente que é a raíz sem raiz
da nossa fraternidade? O sábio responderá, na sua humildade,
sim! É o mistério, “qualquer coisa” de que temos dificuldade em
perceber a natureza e as propriedades espantosas, mas que se
aproxima mais do espírito do que da matéria tradicional”. O
místico responderá, sim! É o Senhor, e confiante rejubila:
“Ao Senhor
pertence a terra e o que nela existe, o mundo inteiro e os que
nele habitam; pois Ele a fundou sobre os mares” (Sl 24, 1-2);
“O teu
espírito incorruptível está em todas as coisas! Não há fora de
ti um Deus que cuide de tudo.” (Sb 12, 1.13);
“Deus não é
o autor da morte nem se compraz com a destruição dos vivos. Pois
Ele tudo criou para a existência, e todas as criaturas têm em si
a salvação.” (Sb 1, 14);
Ele prepara
o alimento para os pássaros do céu, veste os lírios do campo e,
com excecional desvelo, cuida do homem (cf Lc 12, 22ss).
Não admira
que o sábio lendo no “livro do universo”, onde o Deus invisível
se tornou visível à inteligência pelas obras da criação (Rm 1,
19-20), profetize por outras palavras o que o místico anuncia ao
ler a Escritura.
Diz o sábio:
“se continuarmos na nossa trajectória actual, até mesmo as
previsões moderadas das Nações Unidas relativas à mudança, em
termos de população, do consumo de alimentos e fibras e das
emissões de dióxido de carbono, sugerem que em 2050 a humanidade
estará a utilizar o equivalente a mais dois planetas” (WWF).
Lê o
místico: “Tomo hoje por testemunhas contra vós o céu e a
terra; ponho diante de vós a vida e a morte, a bênção e a
maldição. Escolhe a vida para viveres, tu e a tua descendência,
amando o
Senhor, teu Deus, escutando a sua voz e apegando-te a Ele,
porque Ele é a tua vida.”
(Dt 30, 19-20).
São muitos
os relatórios e os nomes sonantes de cientistas e investigadores
que alertam políticos, decisores e opinião pública em geral,
para um cenário de horror e catástrofe que ameaça todos: seres
inertes, seres vivos e seres humanos, enfim, a fraternidade
universal. A unanimidade é preocupante, porque, por um lado,
tem-se a certeza de que já não há tempo a perder e, por outro
lado, duvida-se se ainda vamos a tempo de agir.
João Lisboa |