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Antes era a VIDA

 

 

Antes era a VIDA

 

A praça de S. Pedro em Roma, desperta sempre fortes emoções no crente. Entrar nesse espaço sagrado, pisar aquelas pedras e deixar-se enlaçar por aqueles harmoniosos e poderosos braços feitos de colunas, é como se se mergulhasse na convulsa e sofrida história humana e, no mesmo e vertiginoso instante, se fosse acolhido pela corte celeste, renascido e transfigurado pela e para a eternidade. Sempre que lá vou faz-me recordar a visão de São João no Apocalipse 4, 1-8.

 

Deleitava-me na recordação destas vivências e apareceu o Papa Bento XVI para uma das habituais audiências das quartas-feiras. As palavras do Papa não podiam ser mais adequadas ao momento interior que vivia. Detendo-se na pergunta “Senhor, que é o homem, para cuidares dele, e o filho do homem, para nele pensares?” do Salmo 144, 3, e partindo de um comentário de Orígenes, o Papa confessava que é uma grande felicidade para o homem conhecer o Criador. É importante, num tempo em que o homem adquire e acumula tantos conhecimentos, não esquecer a Deus.

 

O conhecimento de Deus é fundamental para dar um sentido e uma orientação às descobertas da humanidade. Por vezes, deslumbrada com os resultados alcançados pelas suas excepcionais faculdades chega a julgar poder prescindir do Criador. Sempre foi assim, mas é uma atitude insensata e indesculpável (Sab 13, 9; cfr Rm 1, 20).

 

Os antigos, como não tinham  filmes, videojogos e televisão ocupavam o tempo olhando com muita atenção para tudo o que os rodeava, a terra, com as suas plantas e os seus animais, e o céu, com os seus ornamentos: estrelas e constelações. Para a Escritura a criação é o princípio da revelação de Deus aos homens (Sl 19, 1) e, logo, pela contemplação das obras da criação o homem pode chegar ao conhecimento de Deus, “Com efeito, o que é invisível nele - o seu eterno poder e divindade - tornou-se visível à inteligência, desde a criação do mundo, nas suas obras.” (Rm 1, 20).

 

Reconhecendo que, de facto, para alguns autores da Bíblia, pensemos em Ezequiel ou em São João, muito se poderia conhecer de Deus lendo o céu, o que quero realçar é o que esta actividade revela da racionalidade típica do ser humano que, se por um lado, se experimenta e percebe irmanado e apegado à terra e sujeito às leis da natureza, por outro lado, anela libertar-se da sua dependência e elevar-se ao céu.

 

A terra, cá em baixo, e o céu, lá em cima, são os limites da nossa percepção a que o espírito humano não se conforma, apesar destes limites terem sido extraordináriamente ampliados pela ciência e a tecnologia a ponto de nos permitirem hoje recuar bilhões de anos, até aos primeiros 300.000 anos do universo, quando, ainda sem fora nem antes, se encontrava concentrada toda a matéria, a energia, o espaço e o tempo. O que permitiu esta maravilhosa viagem no tempo foi a descoberta da radiação cósmica de fundo em microondas pelos astrofísicos Arno Penzias e Robert Wilson. A descoberta constituíu um bom argumento mais a favor da teoria do big-bang. E antes? perguntaram a Arno Penzias. O que havia antes do big-bang? Conta-se que ele terá respondido, “nada” tendo depois completado o raciocínio dizendo, “ou seja, nada do que agora existe”. Mas… e antes? Precisamos de voltar à praça de S. Pedro.

 

O homem, a cada passo dado na direcção das origens, formulará sempre a mesma pergunta, “e antes?”. Porém, encontrará sempre um mistério a desafiá-lo a ir mais além na descoberta de “como” acontecem as coisas. Desvendar o “como” implica permanecer ao nível da criatura finita prisioneira do ter que perguntar sempre. A lucidez da fé, ir mais além, implica olhar para o alto, condição para descobrir, não só o “como”, mas também, o “porquê”, o sentido. O sentido é que, agora mesmo, Deus não cessa de fazer sair o mundo do nada, ou seja, de fazer brotar a vida. Daí o extase agradecido, do salmista crente, “Senhor, que é o homem, para cuidares dele, e o filho do homem, para nele pensares?” (Sl 144, 3).

 

Uma pergunta haverá sempre, porque a razão quer saber tudo. Mas a experiência do todo, o céu, acontecerá só ao nível da fé, única capaz de descobrir que antes de todos os antes, durante todos os processos e depois de tudo, está a Vida e a Vida é Cristo.

 

 

 

João Lisboa

 

 
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