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6.9. Lectio Divina
Este é,
certamente, um dos métodos mais falados actualmente. A primeira
coisa que nos poderá interpelar é a expressão latina Lectio
Divina, que vem desde os Padres da Igreja, e que
significa "leitura divina" ou seja, Leitura da Sagrada
Escritura. Devemos ao concílio Vaticano II a oficialização
desta antiquíssima maneira de ler a Bíblia, que estava
adormecida na Igreja depois das controvérsias da Reforma.
Trata-se, fundamentalmente, duma leitura crente e orante da
Bíblia que encontra as suas raízes no Novo Testamento. Lucas
apresenta-nos Jesus a convidar os discípulos de Emaús a reler o
Antigo Testamento a partir do acontecimento da Páscoa (Lc
24,13-35). E podemos dizer que os Evangelhos seguem, em grande
parte, esta dinâmica. A Lectio Divina (LD) pode
assumir diferentes formulações e práticas. Vamos aqui apresentar
o que este método de leitura bíblica tem de essencial.
Origem e história:
Podemos dizer que a Lectio
Divina é tão antiga como a Igreja, porque consiste,
essencialmente, em rezar a Palavra, da qual ela depende como a
água da fonte (DV 7.10.21). É, portanto, a leitura crente
e orante da Bíblia, baseada na Palavra de Jesus e no Seu
Espírito: Tenho-vos dito isto, estando convosco, mas o
Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em Meu nome,
Esse ensinar-vos-á todas as coisas e vos recordará tudo o que
vos tenho dito (Jo 14,25-26; ver 16,12).
Foi Orígenes (séc.III) quem
baptizou a Lectio Divina com este belo nome.
Generalizou-se no séc. IV e V, como maneira predominante de ler
a Bíblia, e, a partir desta leitura, veio a leitura do Ofício
Divino.
Como método de leitura,
encontra-se dentro da própria Bíblia (releitura do Antigo pelo
Novo Testamento) e foi o método de interpretação bíblica que
prevaleceu no tempo de S. Bento. A regra deste santo Patriarca
repousa sobre este método de oração e interpretação da Bíblia.
Mas foi já na baixa Idade Média que a Lectio Divina foi
estruturada, sobretudo com as ordens mendicantes.
Guigo II, abade da Grande Cartucha,
deixou-nos, por volta de 1150, uma apresentação orgânica da
Lectio Divina, com o longo título: "Escada
de Jacob - Tratado sobre o modo de orar, escada dos monges e
escada do Paraíso".
S. Francisco
de Assis é certamente devedor da LD e esta foi talvez um
dos factores que contribuiu para que ele fosse um apaixonado
pela Palavra de Deus. Para ele, ler a Palavra era também rezar a
Palavra. As Ordens religiosas, que surgiram no séc. XIII,
utilizaram todas o método da Lectio Divina, levando ao
povo este método orante da Bíblia.
Esta oração
está, pois, ligada à teologia monástica que, ao contrário da
escolástica, é mais vital, mais ligada ao coração e ao ambiente
popular. Poderíamos chamá-la, por isso, uma "leitura
saborosa (ou sapiencial) da Bíblia".
A partir da
Idade Média, deixou de ser aconselhada, porque entrou na Igreja
o receio de ler a Bíblia; posteriormente, o medo das heresias e
do protestantismo fez o resto. Os católicos perderam, assim, em
grande parte, o contacto com a fonte da sua fé. Santa Teresa de
Ávila não tinha licença para ler o Antigo Testamento... Sem a
Palavra de Deus, as ordens religiosas, e outras associações,
passaram a insistir na "leitura espiritual", isto é, a trocaram
a Palavra de Deus por palavras humanas piedosas.
O Concílio
Vaticano II, ao insistir na Palavra de Deus, como base de toda a
espiritualidade cristã, insistiu também na Lectio Divina
como método de oração: Debrucem-se, pois, gostosamente sobre
o texto sagrado, quer através da sagrada liturgia, rica em
palavras divinas, quer pela leitura espiritual (piam
lectionem...") (nº 25).
Ligar a fé
e a vida:
Um dos
grandes problemas do cristianismo de hoje é o hiato entre fé e
vida, que encontra na frase "sou católico não praticante" uma
espécie de anti-programa. Segundo o card. de Milão, Carlo Maria
Martini, um dos grandes impulsionadores deste método de leitura
da Bíblia, a Lectio Divina pretende
despertar para o sentido do mistério escondido nas páginas da
Bíblia, a abertura ao infinito e a tensão para Deus. Por isso, "Sacra
página", "páginas santas", "páginas do Livro de Deus" e
outras expressões semelhantes eram nomes que os Padres da
Igreja, davam às Escrituras. Porque elas encerram um mistério
que nenhum homem poderá desvendar completamente
.
A ligação da
fé com a vida repousa no dinamismo interno de toda a palavra,
que, para além duma simples dimensão fática, tem a dimensão
poética (de poieo=fazer, agir). Toda a palavra tem em si um
dinamismo do concreto e da acção. Na Bíblia, esta dimensão é tal
que palavra e objecto, significante e significado se confundem e
dizem do mesmo modo (dabar). A Lectio Divina
abrange, como método de leitura bíblica, as duas dimensões
essenciais da Palavra e da vida.
O Método:
A leitura
espiritual da Bíblia necessita dum método, para ser criativa,
segura e profunda. Nada de importante na vida, muito menos
quando se trata da oração, pode ser fruto do acaso, apenas da
boa vontade ou da emoção. É neste sentido que uma leitura
popular da Bíblia pode ser tão profunda como uma leitura mais
sistemática. A Lectio Divina repousa, tradicionalmente,
depois do já referido Guigo II, sobre quatro etapas ou
degraus, que pretendem elevar o leitor-orante da terra ao
Paraíso.
Uma
observação prévia, antes de entrar no método propriamente dito:
não existe uma clara distinção ou fronteira entre as diferentes
etapas ou momentos do método, porque cada etapa segue, com toda
a naturalidade, a anterior.
I. LECTIO
(leitura)
apropriar, situar, respeitar o texto.
Trata-se
duma "leitura" em sentido etimológico, isto é, duma
"recolha" (de lego), muito mais rica do que um simples
"ler". Porque se trata-se dum "ler" com a finalidade de
"recolher", não tanto conhecimentos de tipo intelectual
quanto o sentido profundo da Palavra: mensagem, sugestões,
inspirações.
Trata-se da
primeira etapa do processo da apropriação da Palavra pelo
leitor que, por isso, privilegia o ler, o re-ler, a análise dos
verbos, as personagens, os sentimentos, os ambientes....
É por isso que esta "lectio" se qualifica de
divina. Poderia dizer-se, talvez, ainda melhor "sagrada".
Mas o mais importante é a lectio. Leitura e re-leitura,
em ordem a uma apropriação profunda da Palavra.
Esta
primeira etapa não é fácil, como poderia parecer à primeira
vista. Trata-se duma espécie de visita que fazemos a um amigo:
há gestos, amizade, respeito, silêncios, atenção a um
determinado cerimonial. Como se trata dum amigo, a leitura é
desinteressada, perseverante, quotidiana.
A lectio
é ainda o ponto de partida e não o ponto de chegada. Por
isso, exige que ponhamos o pé em terreno firme: porque só sobre
o terreno firme duma Lectio bem feita poderá o
crente-leitor entrar na etapa seguinte, no diálogo da
Meditatio. A exegese, como método científico de leitura
bíblica, coloca-se ao serviço da "lectio", para que esta seja
mais eficaz, e o texto lido seja respeitado na sua autonomia.
Este modo de proceder levará o leitor a recolher o melhor
do texto escrito na Bíblia. Deste modo, a lectio tem três
diferentes níveis:
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* Nível literário: fixar o texto e
responder a questões muito simples, como estas:
Quem? Onde? Como? Porquê? Que ligação entre
texto e contexto?
* Nível histórico: Procurar o contexto
histórico em que o texto foi escrito e
analisá-lo sob quatro aspectos: económico,
social, político, ideológico. Descobrir os
problemas aos quais o texto pretende dar
resposta e que, de algum modo, aparecem no fundo
ou à superfície do texto.
* Nível teológico: descobrir a mensagem
para o homem, nesta situação histórica concreta:
como é que o texto a manifesta, modo como as
pessoas desse tempo representavam a Deus, como é
que Ele Se lhes revelava, como é que o povo
vivia esta mensagem.
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A finalidade
da Lectio não é o estudo científico do texto, mas este é
um meio para perceber o texto a haver uma boa leitura.
Deste modo, a Lectio prepara o leitor / ouvinte da
Palavra para uma melhor "auditio" da mesma. Este estudo
depende das capacidades e exigências do leitor e dos
instrumentos de trabalho que ele é capaz de utilizar. O que mais
interessa é, de facto, conseguir vencer a distância entre o
hoje do leitor e o ontem, por vezes muito remoto, do
texto e das suas circunstâncias. Na Idade Média, Guigo II já era
exigente, quando dizia: "estudo assíduo, com espírito atento";
e Paulo VI, dizia a este propósito, que se deve adquirir uma
certa conaturalidade entre as preocupações actuais e o objecto
do texto (do passado), para se poder escutá-lo. Por outras
palavras, temos que cavar, ao mesmo tempo, no texto e na nossa
experiência vital de hoje. O texto pode não nos falar, pode
esconder-nos o seu sentido profundo, não por falta de estudo,
mas por falta de aprofundamento da nossa própria vida.
É a ligação
entre estes dois factores fundamentais da lectio, ou
melhor, as duas leituras, que podem evitar o fundamentalismo.
Este depende duma deficiente leitura dos textos, nas duas
vertentes enunciadas: por um lado, separa o texto da vida e da
história do povo, fazendo dele um absoluto, o único lugar da
manifestação da vontade de Deus. O resto da vida e da história
do Povo nada mais diriam sobre a vontade de Deus. Por outro
lado, o fundamentalismo anula a acção da Palavra de Deus na vida
e na história concreta das pessoas, rouba-lhes a consciência
crítica, leva-as a um moralismo sem ligação com a Palavra, a um
individualismo requintado e a um espiritualismo vazio de
conteúdos libertadores da pessoa e da comunidade. Este é a
leitura de que mais gostam, por motivos óbvios, os ditadores de
todas as cores e épocas. Porque esta perspectiva lhes permite
manipular a Bíblia à sua vontade. Esta leitura alienante da
Bíblia só pode ser corrigida, situando o texto no seu contexto
histórico passado, vendo aí, ao mesmo tempo, um reflexo da
situação actual, com as suas luzes e sombras. Por isso, a
lectio nunca se poderá desligar da vida, porque é,
simultaneamente, leitura da Bíblia e leitura da vida. Ou
melhor, uma maneira de ler que dá sentido à vida.
Como estamos
a ver, a lectio cria uma certa osmose entre leitor e
autor, história do passado e história do presente do leitor. A
este propósito, dizia o monge Cassiano que o leitor fica
de tal modo penetrado dos mesmos sentimentos com os quais o
texto foi escrito, que se torna, de algum modo, seu autor.
Damo-nos, então, conta de que Deus nos quer falar. Entramos,
então, no silêncio. Estamos preparados para a escuta da Palavra
de Deus, para a etapa seguinte, a
Meditatio.
Este estudo
do texto inclui também a "auditio": esta poderá inclusive ser
física, preparando a uma certa memorização "semita" da Palavra (haggadah)
e à meditatio. A "lectio" inclui, portanto, os
olhos, a mente e o ouvido, mas unicamente como canais de
passagem da Palavra para o mais recôndito do homem: o coração,
como o Senhor diz a Ezequiel: Filho do homem, todas as
palavras que Eu te disser, guarda-as no teu coração, escuta-as
com atênção" (3,10). É no coração que se encontra a
sala onde o Senhor é acolhido.
II.
Meditatio
(meditação)
ruminar,
dialogar, actualizar
Se a Lectio respondia à
pergunta: "Que diz o texto?", a Meditatio
pretende responder à pergunta: "Que diz o texto, para
mim?". A Lectio pretendia descobrir as
correspondências entre o texto e os seus diferentes contextos, a
mensagem que o texto dava aos fiéis do seu tempo. Desde então
para cá, os contextos são completamente diferentes, os conflitos
e problemas são outros. Mas, como Palavra de Deus que é, a
Bíblia foi escrita também para o Povo de Deus de hoje; o texto é
portador de valores que não caducam na História nem envelhecem
com o tempo. Por isso, a Meditatio é, antes de mais, uma
actualização do texto, para mim, um quedar-se nos valores
permanentes do texto. Ainda segundo Guigo II,
" a meditação é uma acção da mente
que procura com ardor, sob a guia da razão, o conhecimento da
verdade escondida"
.
Como se faz,
concretamente, a Meditatio? Guigo II dizia que é
necessário utilizar a razão e o sentido comum para encontrar a
verdade escondida no texto. Para isso, é necessário dialogar com
o texto, colocando-lhe certas questões, que o levam a entrar no
nível da nossa vida:
-Que
semelhanças e diferenças existem entre as circunstâncias do
texto e as de hoje?
-Conflitos
de ontem e de hoje? Que diz o texto à situação de hoje?
-Que mudança
de comportamento me inspira no aqui e agora da minha vida
pessoal e social?...
Um outro
modo de actuar o método poderá ser o de ruminar, mastigar o
texto, como fez Maria para os acontecimentos que ocorriam à sua
volta, até encontrar o que ele me quer dizer (ver Lc 2,19.51; Sl
1,2; Is 26,8). Podemos tentar resumir o texto numa só frase do
mesmo, que sirva para repetir, guardar para todo o dia, de modo
a servir não só de lema, mas que chegue a fazer parte da vida
desse dia.
Este ruminar
a Palavra faz que ela se torne a "espada" que julga e corta (Heb
4,12-13). A Meditatio faz que a Palavra deite abaixo
máscaras, preconceitos, alienações nas quais nos encontramos
muitas vezes. Cassiano dizia, a este propósito: "Instruídos pelo
que nós próprios sentimos, já não vemos o texto apenas como uma
coisa que escutámos, mas como algo que experimentamos e tocamos
com as nossas próprias mãos; não como uma história estranha e
desconhecida, mas como algo que fazemos brotar do mais profundo
de nós próprios, à imagem dos sentimentos que fazem parte do
nosso próprio ser. Insistimos: não é a leitura que nos permite
penetrar no sentido das palavras, mas a nossa experiência,
adquirida antes, na vida de todos os dias" (Consollationes X,11).
Desaparece, assim, em parte, a diferença entre Bíblia e vida,
entre a Palavra de Deus e a nossa palavra. É nesta quase
identificação que se encontra o significado profundo que a
Bíblia tem para nós. O mesmo Cassiano diz, inclusive, que esta
percepção profunda da Palavra não advém do estudo mas da
experiência quotidiana. Alguém explicou, assim, a relação entre
as várias partes: a leitura faz o fio eléctrico; a experiência
cria a energia, a meditação liga o botão e faz que a energia
corra, iluminando o texto. Portanto, a linha e a energia são
necessárias para que haja luz. A vida ilumina o texto, o texto
ilumina a vida.
A
Meditatio aprofunda a dimensão pessoal da Palavra; esta tem
valor em si mesma, mas o seu maior valor é relacional, isto é,
torna-se um veículo de amor entre Deus e o homem.
Uma palavra de amor deixa sair energia, recria as pessoas. Pela
Palavra, a pessoa eleva-se até à Pessoa. É aqui que a Lectio
Divina atinge a dimensão mística. Por outras palavras, a
Lectio rompe a casca, a Meditatio faz provar os
frutos do Espírito: "A letra mata; o Espírito é que dá vida"
(2Cor 3,6; ver 2Tim 3,16).
Pela
Meditatio, o Espírito comunica-se a nós, inspira-nos, dá-nos
os mesmos sentimentos de Jesus Cristo (Fil 2,5), leva-nos à
Verdade total (Jo 16,13), deixa-nos compreender que, sem Ele,
nada podemos fazer (Jo 15,5). O Espírito que enche toda a terra
enche também o nosso coração (Sab 1,7). É Ele o mesmo Espírito
que falava aos profetas e que fará de nós os profetas de hoje,
pela Sua Palavra. Mas a Meditatio, para além de ser uma
actividade individual, é também comunitária. O sentido mais
profundo e total da Palavra vem da experiência comunitária e da
oração em grupo. Daí a necessidade de levar a Lectio divina
também aos grupos e às familias.
A passagem
da Meditatio à Oratio, tal como acontecia na
passagem da Lectio à Meditatio, faz-se
progressivamente. Como acontece com a passagem duma
estação à outra, de uma idade à outra. Os critérios podem ser os
seguintes: A Meditatio actualiza o texto de modo a eu
/nós percebermos o sentido do texto para nós, aqui e
agora. Quando isso se tornou mais claro, faz-se, então, a
passagem para a etapa seguinte, com uma questão, como esta. "
E agora que vou / vamos dizer a Deus? Esta questão
depende, portanto, da certeza de que Deus me chama a colaborar
com Ele. Mas esta colaboração com Deus na minha / nossa História
põe a descoberto todos os meus medos e fraquezas, tal como
aconteceu com os profetas da Bíblia, chamados a anunciar e a
viver uma Palavra difícil (ver Is 6,1-13; Jer 1,4-19). Podemos
dizer que a Meditação bem feita leva-nos insensivelmente à
Oração, como a semente leva à planta.
III.
Oratio
(oração)
suplicar,
louvar, orar
Na Lectio, a pergunta era:
Que diz o texto?; na Meditatio, perguntávamos:
Que me diz o texto? Agora, a pergunta fundamental é: Que
me faz dizer o texto a Deus? Até agora, era o Senhor a falar
connosco, a apresentar-nos a Sua proposta; agora, é o momento da
nossa resposta à proposta de Deus. Esta é a
característica fundamental da oração cristã. E esta minha
resposta exprime-se em sentimentos de louvor, súplica, acção de
graças, pedido de perdão...Guigo dizia:
"A oração é o impulso fervente do
coração a Deus, pedindo-lhe que Ele evite os males e nos conceda
coisas boas".
Devemos, no
entanto, afirmar que este momento de Oração não impede que haja
oração nas outras duas etapas anteriores. Porque, na Lectio
Divina, as etapas não são estanques nem cronologicamente
definidas. As quatro etapas são quatro atitudes que têm momentos
típicos mas não únicos para se manifestar. No princípio da
Leitura invoca-se o Espírito do Senhor da Palavra; a oração
está presente desde o princípio e a Lectio, por exemplo,
adquire maior claridade à medida que as etapas avançam. A
Meditação está já cheia de oração. Mas este é o momento em que
se manifesta mais profundamente a Oração.
A atitude
fundamental da Oração deverá ser, mais uma vez, a de
Maria: Faça-se em Mim segundo a Tua Palavra (Lc 1,38).
Maria não diz uma palavra da Bíblia, mas uma palavra saída dum
coração que, antes, meditou uma Palavra, que lhe
purificou o olhar e o coração (Lc 2,19.51). Só um coração
purificado pela Meditação da Palavra é capaz de a acolher e
deixar incarnar - o que aconteceu n’Ela de maneira excelsa e
total. Só os que a sentem encarnada na vida são capazes de a
rezar, cantando, como fez Maria, no Magnificat (Lc
1,46-55).
Esta oração,
essencialmente espontânea, pode assumir várias formas: louvor,
petição, súplica de perdão... e deve reflectir sempre uma
dimensão comunitária. Pode utilizar orações já feitas, sobretudo
Salmos. Estes eram, na Idade Média, aprendidos de cor e
alimentavam a oração pessoal do monge. Por este motivo, foram
distribuídos ao longo das diferentes "horas" do dia. Os tempos
são outros, mas o método pode ser hoje semelhante: guardar uma
frase que alimente o coração e encha a memória, ao longo do dia.
Esta Palavra
lida, meditada, rezada não é simples palavra para dizer;
é uma palavra criadora. De algum modo, é sacramental: faz o que
diz e diz o que faz. Ou seja, é um dabar (palavra),
sempre eficaz. Toda a palavra rezada está chamada a
entrar na vida concreta: A Palavra diz e faz; anuncia e arrasta;
ensina e anima; ilumina e reconforta. É luz e força, é Palavra e
Espírito. É mediante esta Palavra que a Lectio Divina tem
as suas raízes na Bíblia e valoriza as duas vertentes do
Dabar bíblico: a Lectio descobre a sua mensagem; a
Meditatio, e sobretudo a Oratio, comunica a sua força
e leva à "encarnação" na vida.
A prática
pastoral tem separado muitas vezes estes dois aspectos. Certos
movimentos espiritualistas empenham-se na oração mas não
fazem o mesmo na vida, na atitude crítica e na intervenção
social. Isto acontece por uma deficiente leitura do texto
bíblico: este é desligado do seu contexto, o que leva a um
moralismo sem bases, a um certo fundamentalismo e individualismo
alienantes. Por isso, a sua meditação e oração não estão
fundamentadas nem no texto bíblico nem na realidade da vida de
hoje. No extremo oposto, encontram-se certos movimentos de
libertação, que se alimentam do Evangelho. Fazem uma boa
Leitura, mas falta-lhes a fé perante muitos problemas da
realidade humana. Acham que o tempo da Oração é tempo
perdido e o importante é a intervenção directa e imediata na
sociedade.
A Lectio
Divina bem praticada corrige um outro extremismo. A
Oração tem sempre duas vertentes, ou melhor duas direcções:
a vertical e a horizontal. É libertadora do orante - em direcção
a Deus; e é libertadora dos irmãos - em direcção aos oprimidos
de hoje.
IV.
Contemplatio
(contemplação)
discernir, agir, saborear
Quando se
passa de Oratio à Contemplatio? Alguem disse que a
Contemplatio é o que fica nos olhos e no coração, quando
acabou a Oratio. É como o fruto da árvore. A
Contemplatio é, fundamentalmente, a concentração da minha
atenção, não em sentimentos ou em orações, mas na Pessoa de
Jesus e na Sua relação com o nosso mundo. Esta, sendo o ponto de
chegada de todas as etapas da LD, exige um novo começo de
todo o processo, isto é, torna-se o ponto de partida para nova
Lectio, Meditatio, Oratio. O processo recomeça, sem nunca
acabar. Porque há sempre lugar para uma leitura, meditação e
oração mais profundas. É aqui que se situa a
Contemplatio: um saborear, degustar, um novo modo de ver a
vida e o mundo, que são vistos a partir de cima, a partir dos
critérios de Deus. Este novo olhar de Deus no orante é a
Contemplatio. É olhar, saborear e agir novos. S. Agostinho
diz-nos que, pela leitura da Palavra, Deus faz-nos contemplar
e ver o mundo de modo diferente e leva-nos a transformá-lo,
para que ele se torne, de novo, uma teofania. A Contemplação
leva o orante a olhar mais para o mundo, de modo a poder
encontrar nele toda a profundidade dos acontecimentos e a
presença escondida de Deus.
Como estamos
a ver, esta Contemplação é totalmente diferente da
daquele que se retira do mundo, da política, dos sindicatos, dos
problemas do bairro e da empresa, para "poder contemplar a
Deus". A verdadeira contemplação, para além do escutar,
vai até ao fazer (Mt 7,24-28). Para os fundamentalistas,
a Palavra de Deus encontra-se unicamente na Bíblia. O mundo, a
vida e a história estão cheios de espíritos diabólicos. A LD
abre-nos os olhos, dá-nos uma lente telescópica, para ver
mais longe e mais profundamente.
A este
respeito, dizia Guigo que a contemplação é "A escada dos
monges que penetra as nuvens e procura os segredos do céu",
isto é, antecipa o futuro, dá-nos a visão das coisas a partir de
Deus. E acrescenta, a título de resumo das diferentes etapas:
" A Leitura procura a doçura bem-aventurada; a Meditação
encontra-a; a Oração pede-a e a Contemplação saboreia-a. A
Leitura conduz o alimento à boca; a Meditação mastiga-o e
digere-o; a Oração verifica o seu gosto e a Contemplação é a
doçura que dá a alegria. A Leitura toca a casca, a Meditação
penetra no interior, a Oração formula o desejo e a Contemplação
atinge o gosto e a doçura; a Contemplação é uma elevação do
espírito acima de mim próprio; suspensa em Deus, ela saboreia as
alegrias da doçura eterna".
Segundo
isto, a Contemplação relativiza o que é verdadeiramente
relativo, quedando-se no que é Absoluto. E o contacto com o
Absoluto torna-se a fonte da alegria e da esperança em todas as
tribulações. Deste modo, a Contemplação é o último degrau
da subida à Sétima Morada, a uma torre muito alta: quanto mais
se sobe, mais belo é o panorama.
Segundo o
card. Martini, a LD produz a Discretio, isto é, a
capacidade de seleccionar os valores que são conformes ao
Evangelho e de rejeitar os que não o são. Produz ainda a
Deliberatio, ou seja, a escolha comprometida dos valores do
Evangelho. A Actio é o agir que se lhe segue.
Para
terminar, poderíamos perguntar-nos: Será possível este método de
leitura e de oração bíblicas na vida quotidiana? Comecemos por
afirmar que o método pode assumir certas modalidades, segundo a
cultura e a formação das pessoas ou se é praticado
individualmente ou em grupo. Mas não pode esquecer as qualidades
essenciais apontadas. Toca a cada um adoptá-lo às suas condições
concretas.
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Propostas simples de Lectio Divina
Na convicção de
que a LD pode aplicar-se a todas as
pessoas e a todas as circunstâncias,
apresentamos aqui alguns modos simples de levar
à prática a
LD:
*
Numa reunião de
grupo qualquer, se pode fazer sempre um pouco de
Lectio
Divina:
- Proclamação da Palavra (breve);
- breve silêncio
- breve partilha sobre o que o Espírito
comunicou a cada um no silêncio
- Oração comunitária, espontânea, como resposta
àquela Palavra de Deus.
Este não será um "tempo perdido" num grupo de
catequistas ou outro. Será o tempo mais útil,
porque muito ajudará no desenvolvimento dos
trabalhos.
* Criar nas paróquias um grupo ou grupos que
possam preparar as leituras dominicais
(leitores, acólitos, etc), seguindo este método
simples. Os Grupos de Dinamização Bíblica fazem
esta preparação durante um longo período de uma
hora e meia a duas horas (ver 6.3).
* As famílias são convidadas, uma vez por
semana, a ler um texto bíblico e a seguir o
método simples acima referido. Isso muito
contribuirá para a união mais íntima das nossas
famílias de hoje.
A Oratio poderá ser um mistério do terço.
*
Este mesmo método poderá seguir-se na
preparação dos sacramentos (da reconciliação
ou outro) ou mesmo no exame de consciência
diário. Isso levar-nos-á a ver na Palavra de
Deus a medida de confronto da nossa vida.
* Mas é, sem dúvida, na meditação diária
que poderemos provar a verdade deste método de
leitura bíblica. Um dia poderemos quedar-nos
mais na Leitura, outro na
Contemplação...
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