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Métodos Pastorais de Leitura Bíblica

6.7. "Método Cardijn"

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6.7. "Método Cardijn"

 

(Centro de Formação Cardijn-CEFOC, Namur, Bélgica)[1]

 

Este é um centro de formação sistemática de longa duração (entre 3 a 5 anos) para homens e mulheres dos ambientes populares. Esta formação é feita em grupo e uma vez por mês, além de 7 fins de semana por ano. A leitura da Bíblia é feita como resposta às questões pessoais e dos outros homens e mulheres de hoje. Esta leitura ajudará a fazer opções fundamentais na vida.

 

Mas a leitura da Bíblia não oferece uma resposta "em directo" aos problemas do homem de hoje. A Bíblia respondia directamente aos problemas das pessoas do tempo em que os seus livros foram escritos. Este pressuposto tem consequências para o modo de ler a Bíblia.

 

 

1. Tipo de leitura:

 

* A Bíblia é lida por si mesma e não como resposta directa aos problemas de hoje. Para isso, estudam-se os seus textos no seu ambiente político, económico e social, numa palavra, como um livro de outra cultura. Ela não responde automaticamente aos nossos problemas e não basta folhear a Bíblia para se dizer que já se conhece.

 

* A Bíblia não é vista apenas como um livro de estudo - para intelectuais. O leitor é um crente que se põe numa atitude de escuta atenta duma Pessoa.

 

* Grande importância é concedida ao método histórico-crítico, como meio dum estudo científico da Bíblia. Este tem igualmente em conta os géneros literários como meios de expressão das comunidades que escreveram o texto. O método estrutural é igualmente tido em conta, ainda que de mais difícil utilização.

 

Mas estes dois tipos de métodos realçam precisamente a distância que existe entre texto e leitor e entre a época da Bíblia e a nossa. Por isso, pode ser perigoso responder depressa à pergunta: " O que é que o texto me diz?" Respostas apressadas podem levar a "leituras fundamentalistas", que interpretam à letra o que vêem escrito na Bíblia, como se a Bíblia respondesse directamente a todas as questões de todos os homens e mulheres de todos os tempos.

 

 

2. Método concreto de leitura:

 

1ª etapa: Descoberta da sociedade do tempo da Bíblia

Este método afirma que só percebemos o texto quando sabemos o que ele queria dizer ao povo de Deus daquele tempo[2].

 

* O texto pode ter um ou vários contextos: Quando lemos certos textos, encontramo-nos com um contexto bem determinado: por exemplo, quando, nos anos 50, Paulo escreve aos Coríntios, podemos adivinhar os problemas que havia naquela comunidade; mas, isto complica-se, quando lemos o Evangelho de Lucas, que escreve para uma comunidade helenista, nos anos 80, o que tinha acontecido na Palestina, 50 anos antes. Temos, portanto, dois contextos históricos diferentes; mas tudo se complica ainda mais, quando lemos um texto do Êxodo, por exemplo: este relata acontecimentos do século XII a.C., foi escrito no século VIII a.C. e o texto actual é produto de várias remodelações ou releituras... Sobretudo neste último caso, a ligação com o contexto histórico original é difícil de estabelecer, o que torna este problema ainda mais interessante.

 

* Leitura do texto pelo grupo: O grupo tem mais facilidade de desvendar o sentido do texto do que uma pessoa sozinha.

 

- O que diz o texto? Procurar no texto os indícios do que acontecia na sociedade daquele tempo: vida rural da Palestina, no tempo de Jesus e das cidades helenistas do tempo de Paulo. Estes elementos do texto dão-nos uma ideia mais vasta da sociedade. É isso que nos interessa.

 

- O "Imaginário social": Interessa-nos saber como é que as pessoas da época compreendiam a sua própria vida. Detectamos isso através das suas reacções, palavras, silêncios... Deste modo, o texto bíblico manifesta aos leitores a mentalidade do tempo acerca de determinado problema.

 

* Estruturação do que se descobriu: Nesta segunda etapa, organizam-se os dados encontrados no texto sob as seguintes rubricas: economia, política, cultura, religião, relações sociais, vida quotidiana, relação homem-mulher, e outras, conforme a riqueza do texto. Esta primeira leitura exige muita atenção, para não esquecermos aspectos importantes, que muitas vezes estão nas entrelinhas. 

 

* Informações suplementares: O texto nunca nos desvenda totalmente o seu próprio ambiente. Necessitamos, pois, de outras informações, para o compreender melhor. Estas estão nas notas da Bíblia, nas introduções, em livros escritos sobre estes assuntos.

 

 

2ª etapa: Descobrir a mensagem

 

* Ler o texto:  depois de saber o que o texto diz, tenta-se descobrir o que ele quer dizer. Que pretendiam comunicar os autores do texto aos homens do seu tempo? Isto poderá ajudar-nos a encontrar no texto respostas para as nossas questões de hoje.

 

* Para facilitar este trabalho, fazem-se ao texto algumas perguntas:

 

- Quem faz? O que faz? O que diz? A quem? Como? Porquê?  Estas técnicas podem ser pouco adaptadas a determinados textos. Por isso, poderemos utilizar outras mais adaptadas ainda:

 

- Alguns "Códigos":

. Código actancial: Quais são os actores? Que fazem e que relações há entre eles: oposições, alianças?

. Código cronológico: Que indicações de tempo existem? Que lugar ocupam no texto e que sentido podem ter?

. Código topográfico: Quais são as indicações de lugar? Que deslocações existem no texto?

. Código analítico: O texto dá-nos indícios da análise da situação do seu tempo feita pelos próprios actores?

. Código estratégico: Há indicações de que os actores seguem uma estratégia?  Etc.

 

- A análise do vocabulário e das personagens, assim como mudanças produzidas no texto são elementos igualmente importantes na leitura bíblica do "Método Cardijn".

 

- A evolução do texto aparece nas diferenças da situação final com a situação inicial. Entre as duas, algo se passou de significativo. É nestes elementos que encontramos o sentido do texto.

 

- Quem fala a quem? Um texto está, muitas vezes, na terceira pessoa, como é o caso das narrativas. Mas, frequentemente, utiliza um nós, que se dirige a um vós. É pertinente saber de quem se trata.

 

 

3ª etapa: Ligação com o mundo actual:

 

A fidelidade ao texto e o respeito pela sua independência e pela sua história permite e exigem criatividade por parte do leitor e do grupo. A Bíblia responde aos problemas dos homens do fim do século XX. Por outras palavras, na nossa leitura da Bíblia devemos sempre tentar a passagem para a vida de hoje.

 

*A resposta aos problemas de hoje surge depois de questões muito simples:

- O que é semelhante à nossa situação actual?

- O que é diferente?

 

Estas questões dão-nos, ao mesmo tempo, a dimensão do afastamento do texto em relação à nossa situação actual e da igualdade entre os homens de todos os tempos.

 

* Outras questões mais concretas se colocam, de acordo com o texto e com a situação actual vivida pelo grupo e pela sociedade de hoje.

 

* A ligação com a nossa sociedade nunca está completamente terminada. A Bíblia vai-nos fornecendo respostas diferentes, à medida das diferentes épocas da História. Além disso, o mesmo texto lido em grupos e sociedades diferentes oferece respostas diferentes. Por isso, ler a Bíblia é algo sempre apaixonante.


 


[1]. As informações sobre este método de leitura da Bíblia foram fornecidas oralmente e por documentos escritos ao autor deste artigo, num congresso de Pastoral Bíblica da FEBICA, área da Europa latina, realizado em Toulouse (1-3 de Outubro de 1993).

[2]. Este método tem em conta a doutrina da encíclica de Pio XII, Divino Afflante Spiritu (1943) sobre a interpretação da Bíblia. Ver Alves Herculano, Documentos da Igreja sobre a Bíblia, Difusora Bíblica, Lisboa, 1991, p.175s.

 

 
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