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6.12. Uso da Bíblia na
formação de catequistas
testemunho
Apresentamos
aqui um testemunho dum grupo de catequistas da diocese de Ávila
que, depois dum curso de iniciação bíblica, sentiu necessidade
de mais alguma coisa.
1. A
quem iremos nós, Senhor?
(Jo
6,68)
Com esta
pergunta, que resume a inquietação de muitos catequistas da
diocese de Ávila, começa uma experiência de formação bíblica que
já tem dois anos de vida.
A
necessidade era clara:
* O material
catequético utiliza cada vez mais citações bíblicas e pressupõe
que o catequista é capaz de situar, interpretar, actualizar...
cada texto no seu contexto e dar-lhe o valor catequético que
eles pretendem.
* Existe a
intuição de que nos textos bíblicos se encontra uma enorme
riqueza de recursos didáticos capazes de abordar duma forma viva
e atraente a mensagem a transmitir.
* As
celebrações litúrgicas adquirem variedade, criatividade e,
sobretudo, profundidade e vida, a partir do aprofundamento dos
textos bíblicos.
Mas, como
tirar tanto "sumo" dum "livro" tão difícil como a Bíblia? Que
fazer? No Secretariado da Catequese foram pensadas várias
soluções, inclusive a de conferências a fazer por peritos. Foi
posta de lado esta solução, porque não atingia as zonas rurais,
que eram quem mais precisava. Além disso, não se tratava apenas
de "ouvir". As pessoas simples (a maioria das pessoas) entendem
pouco de conferências de peritos. Tinha que ser algo muito mais
vivo, mais participativo, mais simples, mais "nosso". Algo que
implicasse a nossa participação e "complicasse" a nossa vida,
porque só isso é que deixa rasto; e que fosse uma coisa que se
pudesse fazer em todas as zonas.
Contactámos
a "Casa da Bíblia". Daí veio a ideia de fazer
grupos bíblicos de
catequistas. Era uma fórmula mais experimentada e tanto o
Objectivo como a
Metodologia e Material
eram precisamente o que procurávamos.
Mas, como
sempre, o mais difícil não é encontrar uma ideia, senão pô-la a
funcionar. A primeira grande dificuldade é que um grupo bíblico
não nasce nem funciona se não tiver Animador. Daí a necessidade
de encontrar catequistas para animadores e formá-los para isso
(não há pessoas mais ocupadas que os catequistas!).
Utilizaram-se todos os processos para a "captação" e convocou-se
um encontro de fim de semana. Foram convidados 30 e éramos 16
(uma coisa é pregar, outra é dar trigo!).
2. Todas
as coisas têm o seu tempo
(Ecl 3,1)
Tratava-se
de descobrir a que tínhamos sido chamados:
*
Fundamento: Abordagem da Bíblia como Palavra de Deus lida em
comunidade, e conscientes da sua importância: a Bíblia situa-se
no coração da Igreja. E esta tem como prioridade, nas vésperas
do ano 2000, responder ao desafio da
nova evangelização.
*
Objectivo: fazer crescer e amadurecer a própria vida e a
própria fé à luz da Bíblia.
*
Tipologia do grupo:
- O número
ideal oscila entre os 7 e os 12.
- Reúnem-se
cada 15 dias, durante uma a duas horas.
- Clima
aberto e participativo, que facilita a comunicação entre os
elementos e provoca o diálogo contínuo entre a experiência
religiosa contida na Bíblia e a nossa própria experiência.
- Algumas
pessoas exercem um serviço especial dentro do grupo: animador,
secretário, perito...
- O grupo é
temporal, com uma duração de vários anos, durante os meses de
Outubro a Junho.
* O
Animador:
- Convoca,
coordena e favorece o desenvolvimento do grupo.
- Tem certa
cultura bíblica e pedagógica; mas não é um perito.
- É um
autêntico convencido da importância da Palavra de Deus na vida
da Igreja; e, portanto, um assíduo ouvinte da Palavra, que
necessita conhecer, estudar, meditar e testemunhar com a própria
vida.
Depois dum
minucioso "desenho" do que deve ser um grupo bíblico, veio a
grande pergunta: Estás disposto a ser Animador deste "invento"?
Quase todos dissemos que sim. Tínhamos um verão pela frente.
3. Tocai a
trombeta...Convocai a assembleia
(Jl 2,15)
Com o início
do ano, chegou o momento da verdade! Cada animador encarregou-se
de fazer a convocatória na sua paróquia. Formaram-se 11 grupos:
4 nas aldeias e 7 na capital da Província. Praticamente todos os
membros dos grupos são catequistas. Apenas num grupo, a maioria
não são catequistas; mas são pais que procuram no grupo
respostas para os próprios filhos. A preocupação pela
"transmissão da fé" é o denominador comum de todos os membros,
que são maioritariamente adultos.
E
começámos! Com
todos os medos e com a ilusão das "coisas novas". Nós, os
animadores, reunimo-nos frequentemente, com o coordenador
diocesano, e...que maravilha!, o "invento" funciona! Isso sim,
de onze maneiras diferentes. É curioso: todos recebemos a mesma
coisa, mas os grupos são a coisa mais variada do mundo!
É difícil
que exista coisa tão flexível e que melhor se adapte a cada tipo
de necessidade de formação bíblica: Alguns há que reúnem uma
hora por semana; outros hora e meia cada quinze dias; e, outros,
uma vez por mês; uns estudam muito material; outros preferem
menos "teoria" e "degustar" muitos textos da Bíblia. É como o
maná: "Uns recolheram mais, outros menos....Cada um recolhera
apenas o que necessitava para o seu sustento" (Ex 16,17-18).
4. Tu
tens palavras de vida eterna
(Jo 6,68)
Vida! A vida
divina! A vida que ninguém nos pode tirar! Essa é a grande
oportunidade que recebem todos os que se aproximam da Palavra e
dela se alimentam. E o grupo Bíblico participa desse grande
"milagre" que, apesar de ser frequente e familiar, não deixa de
surpreender. Vem-se ao grupo para "melhorar o serviço" e leva-se
a grande surpresa de que se está a receber VIDA. Vida em grupo:
Escola de Comunidade:"o anjo retirou-se de junto dela" (Lc
1,38). Quantas vezes temos tido esta experiência de Maria!
Quantas vezes temos recebido a "mensagem" do anjo que transmitia
a missão e o Anjo nos deixa sozinhos. Por isso, não podemos
estranhar que as pessoas que frequentam o grupo há dois anos, a
primeira coisa que dizem, quando se lhes pergunta pela sua
experiência, respondam: "o grupo é uma ideia genial!". E é-o
porque nos "obriga" a fazer o que nos prometemos centenas de
vezes: "Deveria ler todos os dias um bocadinho de Bíblia!";
"preciso de orar, mas não tenho tempo!"; "com tantos comentários
de Bíblia que há, deveria...". Deveria... mas não há tempo!
O tempo!
Somos escravos do urgente, do imediato, e muitíssimas vezes
escapa-se-nos o o que é importante, o que é fundamental. E assim
vamos andando. A vantagem do grupo é que conseguimos fazer do
importante imediato. Porque temos que ir ao grupo com "os
deveres feitos", para podermos estar ao corrente do que os
outros dizem, para poder colaborar "com fundamento". A quantos
livros não limpámos o pó, e pedimos ao Menino Jesus e
fotocopiámos...! E, neste aspecto, ainda há muito caminho para
andar. Porque estamos pouco habituados a ler, a saborear, a
meditar e a orar à luz da Palavra, no encontro directo e pessoal
com a mesma. Falta-nos ainda o hábito do silêncio, da escuta e
de nos deixarmos guiar pela brisa de Deus, ao entardecer. Pesa
demasiado a comodidade do que nos "dizem", "que pensam por nós e
nos dêem tudo mastigadinho"
"Pedro
disse: Vou pescar. Eles responderam: Nós também vamos contigo.
Saíram e subiram para o barco (Jo 21,3). O grupo é uma boa
ideia também porque quanto mais experiência temos de Deus, mais
necessitamos duma autêntica Comunidade de irmãos para poder
partilhá-la. Um ambiente onde cada um é valorizado, conhecido,
aceite tal como é. Sem necessidade de máscaras nem disfarces.
Não é nada fácil encontrar ambientes destes! Os encontros da
comunidade paroquial são massificadores; as reuniões de
catequistas são pouco frequentes, apressadas e, além disso, os
temas de conversa são as crianças, os pais, os métodos, os
resultados... Sempre os "outros"!
Muitos
catequistas são membros de grupos onde podem fazer experiência
comunitária; mas outros não são. E um sozinho no barco não
pesca! Para estes, o grupo bíblico é uma magnífica Escola de
Comunidade. Como é difícil, ao princípio, pôr em comum tudo
aquilo que deixa entrever a própria interioridade, a experiência
de fé! Isto é compreensível, se se tem em conta a
prolongadíssima "educação para o silêncio" que se deu na Igreja.
É que o diálogo é difícil: prestar atenção ao que fala, e falar
ao grupo, preferindo os mini-diálogos ou o "fogo cruzado". É
difícil convencer-se de que todos somos emissores e receptores,
na mesma sintonia duma fé idêntica.
Mas, pelo
número de membros, pelos temas, pela presença do Espírito, que
vai criando comunhão, progressivamente, vai surgindo o que cada
um leva dentro de si: os encontros, as dúvidas, as lutas, as
noites escuras, as luzes, as esperanças... A experiência da fé
num Deus que Se manifesta na história, na história de cada um de
nós e que caminha connosco. E as pessoas ficam surpreendidas, ao
partilhar espontaneamente, o que levam dentro de si mesmas. Há
reuniões em que se "apalpa" o Espírito Santo, fazendo verdadeira
a profecia de Isaías: "O lobo e o cordeiro pastarão juntos, o
leão e o boi comerão palha, e a serpente comerá terra. Não
haverá mal nem aflição em todo o Meu Monte santo" (Is
65,25). Porque lobos e cordeiros, panteras e cabritos... há-os
em todos os grupos. Mas ninguém come ninguém! Até somo amigos!
5. Estai
sempre prontos a responder àquele que vos perguntar a razão da
vossa esperança
(1 Pe 3,15)
Acontecia
uma coisa curiosa: quando começámos o grupo, todos "sabíamos
muito"... Bom, reconhecíamos "algumas lacunas" no que se refere
ao ambiente geográfico, político, social e religioso da Bíblia,
assim como as formas literárias utilizadas, o que impede de
distinguir entre o conteúdo revelado e a roupagem que cada autor
utiliza para exprimir dito conteúdo. No resto... todos "muito
bem formados"!...
Depois, à
medida que íamos confiando uns nos outros, foram surgindo as
dúvidas, depois as situações que precisavam de ser iluminadas
com a Palavra de Deus. Que surpresa e que alívio saber que todos
tínhamos "zonas obscuras", todos necessitávamos de ser salvos,
todos tínhamos necessidade de pedir ao Senhor que nos aumentasse
a fé, porque, apesar de sermos catequistas não "experimentamos"
a décima parte daquilo em que "acreditamos" com a cabeça.
Ainda há
muitas coisas das que não sabemos "dar razão", mas também
há muitas coisas das que sabemos dar razão, mas não são
"nossa esperança". Que sorte ter a oportunidade de que nos
ajudem a distinguir a luz das trevas! "O Verbo era a luz
verdadeira que, vindo ao mundo, a todo o homem ilumina" (Jo
1,9).
6. Sabei
que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação particular
(2 Pe 1,20)
A forma de
trabalho no grupo bíblico supõe uma nova maneira de abordagem da
Bíblia. Até agora, a forma de "trabalhar" com o texto supunha:
ler e perguntar-se ou perguntar: " A ti, que te dizem?".
E a resposta, sobretudo em crianças e adolescentes (que
normalmente não se lembram do que o padre disse na homilia!) é
muito gráfica, fazem cara de quem "não sabe, não responde"; e
nota-se neles um certo sentimento de culpa, porque se dirâo:
"Como é possível que a Palavra de Deus não diga nada?". Aos
adultos, acontece-nos a mesma coisa; só que sabemos disfarçar
melhor!...
Falta-nos
todo o processo de acercamento a uma cultura muito diferente da
nossa e da qual estamos separados por muitas centenas de anos.
Agora sabemos, por experiência própria, que não se pode
prescindir de ler o texto no seu contexto histórico, literário e
teológico, e que é preciso dedicar tempo à meditação, à reflexão
pessoal e de grupo, para encontrar conexão entre essa mensagem e
essa situação e o "hoje" da nossa vida pessoal e comunitária; de
outro modo, corremos o risco de "obrigar" a Escritura a dizer o
que nós queremos que diga, deixando a Deus, que não tem voz, sem
Palavra.
Neste
sentido, trabalhar cada semana ou cada 15 dias um texto,
seguindo o esquema da "Lectio divina" (leitura divina) é
um presente do céu, que vai criando hábito. Poucos somos os que,
agora, depois de ler um texto, nos lembramos de dizer: "A ti
que te dizem?" E é experiência habitual que, depois de
"entender" com a cabeça e com o coração, um texto diz
muitíssimas coisas que automaticamente são "luz para os
nossos passos". A Lectio divina (leitura divina) é um
itinerário para ler a Palavra de Deus em constante diálogo com
Ele. Foi cultivada pelos Padres da Igreja e, depois, sobretudo
pelos monges. Nós queremos recuperar essa experiência. Eis aqui
as quatro etapas que eles costumavam seguir:
1.
LER - Lectio
2.
DEIXAR-SE INTERPELAR - Meditatio
3.
ORAR - Oratio
4.
TRASFORMAR - Contemplatio
Temos que
reconhecer, com profundo agradecimento, que este acesso ao mais
profundo da Escritura não seria possível para nós - que
ordinariamente não dispomos dum perito em Bíblia - sem o esforço
que, nestes últimos anos, fizeram os estudiosos, que dão o
melhor da sua vida para que nós possamos entender a Escritura. E
o esforço das editoras católicas que, cada vez mais, colocam à
nossa disposição livros de introdução ao mundo da Bíblia e à sua
leitura com comentários mais fáceis de ler e, ao mesmo tempo,
profundos. A variedade de livros e de estudos que nos aproximam
do mundo e do conteúdo da Bíblia é extraordinário. Se são caros,
o grupo tem ocasião de pôr em prática a "comunhão de bens". Cada
um compra o que pode e tira informações onde lhe parece bem, "pondo
à disposição dos outros o dom que recebeu (1 Pe 4,10). Isto
vai-se cumprindo na medida em que cada um se vai sentindo parte
do grupo. E se vão manifestando os carismas, que, ao princípio,
eram um pouco forçados.
7. O que
vimos e ouvimos, isso vos anunciamos
(1 Jo 1,3)
Que
diferença falar dum texto, porque está numa ficha e tem uma
etiqueta: "texto eucarístico", "texto de envio", "texto sobre
a oração"...e falar desse mesmo texto depois de ter sido
objecto dum encontro profundo com o Senhor e com o grupo! Que
diferente, quando de uma palavra podemos ser TESTEMUNHAS, porque
vimos e ouvimos e o nosso coração sentiu que é VERDADE, que essa
Palavra se cumpriu, que se cumpre na nossa vida, na vida da
Comunidade! Que diferente, quando podemos dizer, com os
habitantes da Samaria: "Já não é por causa das tuas palavras
que acreditamos. Nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é
realmente o Salvador do mundo" (Jo 4,42).
8. Os que
semeiam com lágrimas recolhem entre cânticos
(Sl 126,5)
Quantas
mudanças de atitudes se vão produzindo entre nós! Como sempre,
mais nuns do que noutros. Poder falar livremente da Palavra, sem
sentido de culpabilidade por quebrar um tabú ou destruir algum
"mito". Perceber entre os membros do grupo a ALEGRIA de se
sentirem os "pequenos" que o Pai escolheu para revelar os
segredos do Seu amor salvador. Quantas expressões e gestos desta
alegria "que ninguém poderá tirar" se repetem em cada grupo! Não
somente nas palavras. É também a falta de pressa na hora de
terminar as reuniões (essas pessoas tão ocupadas!); isso
leva-nos a pensar que os membros do grupo se vão encontrando com
a VERDADE LIBERTADORA que, procedendo de Deus, se
manifesta plenamente no FILHO-PALAVRA através das
palavras.
Deste modo,
a leitura e a meditação da palavra não se queda em pura teoria
da fé ou em mera ilusão de salvação individual, mas vai criando
a necessidade dum compromisso de vida pessoal e comunitário, a
fim de obter a construção e extensão do Reino, hoje mais do que
nunca, EVANGELHO DE ESPERANÇA, DE ALEGRIA, DE LIBERTAÇÃO E DE
SALVAÇÃO.
Maria
Isabel Lopez Fernandez (Paróquia de S. Tiago Apóstolo -
Ávila)
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