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"Em Agosto passado, orientei um retiro, na
Califórnia, a um grupo de mais de 300 sacerdotes
e à noite trocávamos impressões, em clima de fé.
Faziam muitas perguntas sobre a nossa diocese e,
deste modo, veio ao de cima o tema sobre a
Escola da Palavra.
Expliquei o princípio deste caminho, recordando
o pedido feito pelos jovens, em 1980, para serem
ajudados a rezar com a Bíblia e como, depois, se
desenvolveu a iniciativa da Escola da Palavra
na catedral e, posteriormente, em todo o
território da diocese.
A reacção, quando falo, fora de Milão, sobre a
Escola da Palavra, é sempre de enorme
atenção, de entusiasmo. Porém, a observação dos
sacerdotes da Califórnia foi sobretudo a
seguinte: Aquilo que mais nos toca nesta
experiência é o facto de ter sido confiada a um
número de sacerdotes que a fazem própria e a
transmitem a outros. Também para mim, este é um
ponto importante: a experiência deve conservar a
sua especificidade, e deve ser levada por
diante, pessoalmente, por sacerdotes e outros
colaboradores que tenham compreendido o sentido
da mesma. A minha tarefa, portanto, não é a de
vos introduzir no tema específico da Escola da
Palavra deste ano, mas de lembrar o sentido da
mesma. Procederei mediante momentos sucessivos,
procurando dizer o que é e o que não é a
Escola da Palavra; quais os frutos que dela
espero; quais são as condições para obter tais
frutos; como é que cada um de vós deve
preparar-se para obter os frutos.
1. O que não é a Escola da Palavra
Não é uma pregação, não é uma catequese
especializada para jovens; não é, tão pouco, uma
celebração da Palavra. Compreende um pouco de
todas estas formas do ministério, mas não pode
ser confundida com elas, a menos que queiramos
perder o sal, o sumo da experiência.
2. O que é a Escola da Palavra
É uma escola: trata-se de ensinar os
jovens, de colocá-los em condições de meditar
pessoalmente sobre a Palavra da Escritura, de os
preparar para se aproximarem do texto e de lhes
dar o gosto desta abordagem da Bíblia. Se os
jovens, graças a vós, receberem este gosto,
terão certamente o gosto de conrinuar depois,
sozinhos, a descobrir toda a riqueza dos textos
sagrados, na oração e na meditação. Neste
sentido, os fruos remotos da Escola vão ver-se
dentro de alguns anos.
3. Frutos da Escola da palavra
Mas há um fruto imediato, genérico a
obter em cada encontro. Expresso-o da seguinte
maneira: é a possibilidade de que os jovens
exultem interiormente pela riqueza da página
evangélica explicada, não tanto porque foi bem
explicada, mas porque algum deles a descobre, a
sente dirigida à sua vida, se sente estimulado a
orar.
É, naturalmente, um fruto ideal, mas gostaria
que o tivésseis presente para saber sempre para
onde devemos caminhar.
É fácil, então, encontrar a dificuldade desta
Escola. Não basta expôr bem os temas; também
é preciso ajudar quem escuta a colocar-se diante
das palavras da Bíblia. Podemos utilizar a
imagem dum duo de ciclistas: um, talvez mais
forte, pedala na frente, de modo a que o outro
possa aprender e, a determinada altura seja ele
a "puxar". Deveis "puxar" de tal modo que os
jovens ganhem, cada serão, mais gosto ao texto.
4. Cinco condições para obter frutos
Para ganhar gosto ao texto, são necessárias,
pelo menos, cinco condições:
* Primeira: que haja uma atmosfera de
silêncio e de recolhimento. As experiências
já feitas ensinam-nos que esta é uma condição
essencial, sem a qual não se obtém quase nada. É
preciso também cuidar no modo de entrar, de se
sentar, de se colocar na igreja; é preciso estar
atentos para que não haja tempos vazios. A falha
num pequeno pormenor pode criar confusão e
mal-estar.
* Segunda: uma certa sobriedade de
linguagem; quem explica o texto não pode
falar durante muito tempo (nunca superar, no meu
entender, 20-25 minutos). Juntamente com a
sobriedade da linguagem, é necessária a
sobriedade dos símbolos e das imagens. O vento e
o fogo, por exemplo, é uma imagem sóbria e
evocativa; não é simplesmente o vento com todas
as suas aplicações e o fogo com todos os seus
significados, mas o fogo movido pelo vento e
que, portanto, devora ainda mais. É muito
importante utilizar os símbolos de maneira
unitária, para evitar a dispersão, a fim de não
fazer como aquele que, diante do televisor,
salta duma canal para outro, sem conseguir
concentrar-se.
* Terceira: clareza doutrinal.
Quem apresenta o texto deve propor um itinerário
simples e capaz de ser facilmente decorado pela
assistência. Esta deve, de facto, poder
memorizar os pontos fundamentais da exposição. É
verdade que se pode utilizar uma folha escrita;
mas se nem sequer esta se pode memorizar, as
pessoas perdem-se. Por isso, requere-se que o
pregador tenha memorizado a sua exposição,
servindo-se embora dum esquema.
Naturalmente,
sugiro que se tenham sempre presentes os três
momentos fundamentais da Lectio divina:
Lectio, Meditatio, Contemplatio. Mediante
estas, é fácil memorizar o texto: a Lectio
põe em ressalto os elemento próprios do
texto; a Meditatio interroga-se sobre a
mensagem central do texto; a Contemplatio
faz-nos perguntar qual é a relação com Jesus,
Senhor da minha vida, Filho do Pai, e qual é a
relação com o Pai, de modo que eu possa entrar
na
Oração.
Esta escansão é importantíssima e é fácil
retomá-la pessoalmente. E acrescentaria ainda um
quarto momento: algumas perguntas para a
reflexão e a acção; mas nunca mais de três
questões, para não criar confusão e para que
cada um possa memorizá-las ou apontá-las.
* Quarta: uma modalidade participativa
de exposição: não apresentar o texto como
uma lição sabida antecipadamente, mas como algo
que estou a estudar juntamente com quem me
escuta. Portanto, convidando os jovens a
participar nas perguntas que eu faço ao texto,
tornando-os participantes nas hipóteses que eu
proponho. Este método coloca os ouvintes em
actividade, evitando que permaneçam apenas e só
ouvintes passivos.
* Quinta: proporcionar, durante o
encontro um tempo de absoluto silêncio,
como sendo o tempo mais importante. Sei que é
difícil; sei que, muitas vezes, não se tem a
coragem de estar em silêncio, que se tem medo do
silêncio. Quando orientava a Escola da
Palavra na catedral, eu exigia sempre um
quarto de hora de absoluto silêncio, sem
cânticos, sem música de fundo. Pertence ao
orientador perceber se o tempo de silêncio deve
ser mais ou menos longo, e poderá também
sabiamente interrompê-lo, se achar necessário.
De qualquer modo, deve haver sempre silêncio. O
silêncio, de facto, é o sinal eficaz de que não
se está lá apenas para ouvir, mas que se está
também para uma relação pessoal com o texto.
Estas são as cinco condições que acho
necessárias para uma verdadeira Escola
da Palavra; condições objectivas,
ambientais, metodológicas; todas elas muito
importantes.
5. Como preparar-se para obter os frutos
A ideia fundamental
é de entrar pessoalmente no texto, de lutar com
o texto e de rezá-lo. A primeira questão não é,
portanto: Que vou dizer sobre esta página?
Nem sequer: O que é que me diz esta
página? Mas:
O que é que diz?
Prescindindo do facto de que deverei explicá-la
ou propô-la, devo colocar-me diante do texto
como se fosse essa a primeira vez:
- O que diz?
- Quais os elementos de relevo, as colunas
narrativas ou expositivas?
- Qual a mensagem-chave, o coração do texto?
- Qual a sua relação com o Senhor Jesus, com o
Pai, com o desígnio salvífico de Deus?
Este é um outro modo de dizer: Lectio,
Meditatio, Contemplatio; são sempre estas as
três questões fundamentais.
Neste trabalho de relação pessoal com o texto,
podeis procurar ajuda nalgum comentário, não
para saber o que ele diz, mas para lutar melhor
com as palavras do Evangelho, para dominar o
texto. Depois de percebido o que diz o
texto, perguntar-se-á, então:
- O que é que me diz?
- Que mensagem do texto fere mais a minha
atenção?
-
Que oração me
sugere?
Toda esta preparação deve ser feita
antecipadamente, um mês antes do encontro da
Escola da Palavra, de modo que ela penetre
no meu interior. Depois, poderei facilmente
decidir o que vou dizer a quem me escuta.
6. Conclusão
As sugestões que vos ofereci servem de
introdução. Deixo a quem fez o trabalho de
preparação a tarefa de nos expor as propostas,
as hipótese de partida, no que se refere aos
temas e ao seu desenvolvimento. As propostas são
muito belas, muito ricas; no entanto, não deveis
deixar-vos iludir; elas não tiram nenhum
trabalho pessoal que vos espera. Por vezes, uma
proposta demasiado bela pode levar a pensar que
não existem outras; temos que fazê-la nossa e
refazê-la continuamente".
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