Quem
abrir a Bíblia pela primeira vez é natural sentir-se perdido
ou
estranho como o habitante de uma pacata aldeia que
entra pela primeira
vez na capital do país: tantos monumentos,
avenidas e praças –
assustam-no, certamente. Para
esses,
proponho uma visita guiada à Bíblia através dos
Sumários da
História da Salvação.
ABRA
a sua Bíblia. Imagine que ela é uma pequena biblioteca de 73 livros
arrumados em várias estantes separadas por um corredor:
à esquerda ficam os livros que falam da vida do Povo de Deus antes de
Cristo (Antigo ou primeiro Testamento); à direita, os que se referem ao
tempo de Cristo e depois de Cristo (Novo Testamento). As estantes em que
estão colocados os livros do Antigo Testamento chamam-se: Pentateuco,
Históricos, Sapienciais e Proféticos; as do Novo Testamento: Históricos
(Evangelhos e Actos), Sapienciais (Cartas) e Profético (Apocalipse).
A
estante do PENTATEUCO encontra-se logo no princípio
da Bíblia e significa "cinco livros". Precisamente no
quinto, em Deuteronómio 26,5-10a, lemos: "Meu
pai era um arameu errante:
desceu
ao Egipto com um pequeno número
e ali viveu
como estrangeiro, mas depois tornou-se
um povo forte e numeroso. Então
os egípcios maltrataram-nos,
oprimindo-nos e
impondo-nos dura
escravidão. Clamámos
ao Senhor, Deus de nossos pais, e
o Senhor ouviu
o
nosso clamor,
viu
a
nossa humilhação, os nossos trabalhos e a nossa angústia, e tirou-nos
do Egipto, com sua mão forte e seu braço estendido, com grandes milagres,
sinais e prodígios. Introduziu-nos
nesta
região e deu-nos
esta
terra, terra onde corre leite e mel."
Permiti-me
destacar a cor azul a maioria dos verbos deste texto, porque eles
permitem-nos conhecer os grandes passos de um roteiro que se vai repetir
em muitos outros sumários da Bíblia: a origem nómada do povo de Deus,
a sua descida até ao Egipto em tempo de fome, os anos de prosperidade,
o período de opressão, o momento de êxodo ou saída do Egipto atribuída
a Deus, que durante 40 anos o conduziu pelo deserto e o introduziu na
terra fértil de Canaã, permitindo-lhe ocupá-la no tempo de Josué. O
texto, posterior à instalação dos israelitas na "Terra Prometida",
é um Credo que eles deviam rezar diante de Deus imediatamente antes de
lhe oferecerem, cada ano, as primícias dos frutos dessa mesma terra.
A
História aqui recordada situa-se mais ou menos entre os anos 1700 e
1200 a.C.. Para conhecê-la mais em pormenor
pode
ler, já, os capítulos
1, 2, 12 e 15 do Êxodo. Este último é uma espécie de hino de
independência em que a libertação é atribuída a Javé ou Senhor,
e é cantado todos os anos na Liturgia da Palavra da Vigília Pascal. Não
por acaso: porque nessa noite, mãe do oitavo dia da nova criação, o
antigo êxodo é evocado e relacionado com a Ressurreição de Cristo
– a nova, total e definitiva libertação do Povo de Deus.
Na
verdade, a noite em que "o Senhor fez sair Israel da terra do
Egipto" (Ex 12,51) e a noite em que ressuscitou Jesus do túmulo
"libertando-o dos grilhões da morte" (Act 1,24.32)
constituem os dois eixos da Bíblia que dão origem à vida, à
comunidade e aos livros do Antigo e do Novo Testamento, respectivamente.
Seguindo
a ordem dos livros na Bíblia, leia,
depois, estes textos
em que os mesmos passos referidos no "Credo" do Deuteronómio
são repetidos e ampliados em géneros literários e épocas diferentes
(as chamadas "releituras" que a Bíblia faz de si mesma):
Neemias
9,6-37: oração dos
levitas, após o regresso do Exílio de Babilónia (considerado um novo
Êxodo: ver Isaías 43).
Salmo
77-78 e 105-106: meditação
sobre o passado de Israel e lições da História; Deus e a História de
Israel e confissão nacional de Israel, respectivamente.
Ben
Sira (ou Eclesiástico),
44-50: proponho a leitura
destes capítulos seguida a quem ainda não conhece os principais factos
e personagens do Antigo Testamento.
Actos,
7: discurso ou sermão de
Estêvão diante do Sinédrio de Jerusalém antes de ser condenado à
morte por apedrejamento, numa última tentativa de convencer os ouvintes
de que Jesus era o Messias anunciado e esperado pelos seus antepassados.
Hebreus
11: leitura teológica da
História, com olhos de fé.
Finalmente,
se tiver a nova tradução da Bíblia
Sagrada editada pela
Difusora
Bíblica, leia também os
extratextos em caixa
que escrevi para as páginas 163 (Êxodo e Ressurreição), 308 (Sumários
da História da Salvação) e 1162 (das Profecias a Cristo).
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Para
reflectir ou dialogar em grupo
Ler
os textos indicados acima em quatro "tempos" seguidos,
um texto cada dia:
1.
Ler e sublinhar,
com três cores, os acontecimentos
(opressão, libertação, etc.), os lugares
(Egipto, deserto, Canaã...) e os personagens
(Abraão, Jacob, Moisés, etc.).
2.
Em silêncio, passear os olhos devagar apenas pelas palavras
sublinhadas e relembrar
o que elas evocam.
3.
perguntar-se:
"Que lições tiro daqui para a minha vida de cidadão e de
crente ou cristão?"
4.
Se estiver em grupo, comunidade ou família, partilhar
as lições com os outros. |
frei Lopes Morgado