Os livros Proféticos constituem
outro dos
sectores ou estantes na “biblioteca” da Bíblia.
Mas os
seus autores estão bem identificados pelos nomes,
que até
servem de título aos livros –
quer tenham sido escritos pelo autor a que
são atribuídos,
quer, na maioria dos casos, por discípulos seus.
PROFETA: vidente de olhar lúcido
Para
definir o
profeta, costuma-se
escolher o texto do livro dos
Números
24,3-4.16. Nele, é
o próprio profeta Balaão, quem se apresenta como
«... o homem de olhar
penetrante;
que escuta as palavras de
Deus,
que tem a visão do
Omnipotente,
que se prostra, mas de
olhos abertos.»
(vv.3-4)
O vers. 16 reproduz
sensivelmente o mesmo, acrescentando:
«e conhece a sabedoria do
Altíssimo».
Ou seja: o profeta (ou
profetisa)
::
é uma pessoa humana
normal, de qualquer cultura, classe social, profissão ou situação
económica (ex.: Isaías, teólogo-poeta; Amós, pastor);
::
tem um olhar atento, sensível
para captar a vida para além do real e aparente (penetrante);
::
é tocado pelas palavras de
Deus – não directamente faladas por Ele ao seu ouvido, mas intuídas
por uma leitura orante da Lei, uma atenção especial aos sinais dos
tempos, às lições da vida (espírito “sapiencial”) ou às constantes da
História;
::
tem uma experiência
contemplativa de Deus (no texto:
visão), que pode acontecer num acto de culto no templo, no meio de
uma guerra ou em plena festa para celebrar uma vitória nacional ou a
coroação do rei; em momento de glória do seu povo, ou em momento de
invasão iminente;
::
aceita a missão por um acto de obediência
(prostra-se), mas mantém a sua liberdade e responsabilidade (de
olhos abertos), fala e actua segundo a sua cultura ou a partir das
suas referências de vida;
::
a sua intervenção (oráculo)
pode ser oralmente, por escrito (em forma de oração, discurso, parábola)
ou por acção simbólica.
Nem todos os profetas
deixaram obra escrita, mas intervieram ao longo da história do povo
eleito, como:
::
Natan
(anúncio feito a David
em 2 Sm 7 e denúncia em 2 Sm 12);
::
Elias e
Eliseu (vida e
actuação: 1 Rs 17 a 2 Rs 12; denúncia dos falsos profetas, em
1 Rs 18-19 e de Nabot, em 1 Rs 21).
Entre as mulheres destaca-se
«Débora,
profetisa, mulher de Lapidot, que exercia por essas alturas as funções
de juiz em Israel» (Jz 4,4).
VOCAÇÃO: “Eu te consagrei e constituí...”
Não é profeta
quem quer, mas quem Deus chama. O relato de vocação mais característico
é o de Jeremias (ler Jr 1,4-12). Por ele, conhecemos:
A iniciativa de Deus:
«Antes de te
haver formado no ventre materno,
Eu já te
conhecia;
antes que
saísses do seio de tua mãe,
Eu te
consagrei e te constituí profeta das nações.»
(v. 4-5)
A renitência do chamado:
«Ah! Senhor
Deus,
eu não sei
falar, pois ainda sou um jovem.»
(v. 6)
A
insistência e protecção de Deus:
«Não digas:
“Sou um jovem.”
Pois irás
aonde Eu te enviar
e dirás tudo
o que Eu te mandar.
Não terás
medo diante deles,
pois Eu
estarei contigo.»
(v.7-8)
A missão
confiada:
«Eis que
ponho as minhas palavras na tua boca; a partir de agora, dou-te poder
sobre os povos e sobre os reinos, para arrancares e demolires, para
arruinares a destruíres, para edificares e plantares.»
(v. 9-10)
Isto faz com
que o profeta seja chamado «homem de Deus» (2 Rs 7,18) e tenha a
consciência de agir em nome de Deus, contra a própria vontade e mesmo à
custa da própria vida: «Assim ordenou o Senhor» (Débora:
Jz 4,6); «Foi segundo estas palavras e esta
visão que Natan
falou a David»
(2 Sm 7,17).
MISSÃO: denunciar, anunciar, reconciliar
Em
síntese, o profeta chamado por Deus anuncia boas-novas e denuncia
infidelidades, sempre em função de reconduzir os
responsáveis ou
as pessoas individuais à aliança com o Deus fiel revelado como Esposo de
Israel, sua esposa (ver Oseias 2).
Podemos
exemplificar o exercício desta tríplice função com Isaías 1,2-10.
Abra a Bíblia, leia e verifique:
denúncia
(1,2-15): contra o culto sem espírito ou a fé divorciada da vida.
anúncio
(1,16-17): proposta de vida diferente.
aliança
(1,18-19): oferta de reconciliação.
Para mais
exemplos, pode continuar a ler Isaías até ao capítulo 5
inclusive.
Nesta hora de
convites e solicitações para o anúncio e a missão, peçamos a graça de
responder, como Isaías (6,8):
«Eis-me
aqui, envia-me.»
frei Lopes Morgado