NATAL - aprender a amar
com o amor gratuito de Deus
Ao ler a
Bíblia não procuramos apenas, ou sobretudo,
conhecer
as palavras e a cultura de um ou vários escritores, ainda que lhes
chamemos “escritores sagrados”.
Pretendemos entrar na intimidade de Quem os inspirou
e moveu a
escrever aquilo, e que hoje nos convida a entrar em comunhão com Ele
através dessa leitura meditada.
Em última análise,
procuramos a comunhão com a própria Pessoa de Jesus Cristo – a Palavra
que Deus Pai falou desde toda a eternidade, no Espírito Santo, mas que
se fez Deus visível, audível e palpável ao encarnar no seio de Maria (Jo
1,14; Cl 1,15). Foi a este Senhor que os Apóstolos anunciaram, no
Novo Testamento; mas era para Ele que o Pai orientava, desde o
princípio, toda a criação e é nele que tudo será recapitulado e entregue
ao Pai, no fim dos tempos:
«Tudo
é vosso.
Mas
vós sois de Cristo
e
Cristo é de Deus.»
(1 Cor 33,23)
O Natal,
Festa-escola do amor
No Natal celebramos o amor
gratuito do nosso Deus, que é Trindade; e, à luz dele, aprendemos a
amar-nos como filhos de Deus.
«E o
amor de Deus manifestou-se desta forma no meio de nós: Deus enviou ao
mundo o seu Filho Unigénito, para que, por Ele, tenhamos a vida. É nisto
que está o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele mesmo que
nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos
pecados.
Caríssimos, se Deus nos amou assim, também nós devemos amar-nos uns aos
outros.» (1
Jo 4,9-11)
Com isto, está tudo dito
acerca do Mistério do Natal, no que se refere a Deus e ao próximo. Mas
parece-me importante compará-lo com outro texto paralelo do Novo
Testamento, que vem reforçar a sua mensagem e sublinhá-la ainda mais na
linha da gratuidade e da misericórdia de Deus-Pai para connosco, ao
mesmo tempo que põe mais em relevo a acção do Espírito Santo, tornando
assim mais claro que a nossa salvação é obra conjunta do amor das três
Pessoas da Santíssima Trindade (permito-me destacá-las, em maiúsculas).
Não é por acaso que proclamamos este texto como
Segunda Leitura, todos os anos,
na Missa da Noite de Natal:
«Quando se manifestou a bondade de DEUS, nosso
Salvador, e o seu amor para com os homens, Ele
salvou-nos, não em virtude de obras de justiça que tivéssemos praticado,
mas da sua misericórdia, mediante um novo nascimento e renovação do
ESPÍRITO SANTO, que Ele derramou abundantemente sobre nós por JESUS
CRISTO, nosso Salvador.»
(Tt 3,4-6)
Sem Páscoa,
não haveria Natal
Nos textos anteriores, os
Apóstolos João e Paulo fazem a leitura teológica do que
São Lucas apresenta como acontecimento no texto do
Evangelho lido, também, todos os
anos pelo Natal (ver Lc 2,1-14). E o que se destaca nesses textos é que
eles não se perdem com pormenores acerca do nascimento e Jesus
(subentendido na palavra “manifestação”), mas falam-nos do efeito
fundamental e último da sua Encarnação: fomos salvos pela sua morte. Por
isso lhe chamam “nosso Salvador”.
Dir-se-á que, em São
Lucas, o anjo já tinha anunciado aos pastores, no
Evangelho da Missa da Meia-Noite:
«Hoje, na cidade de David,
nasceu-vos um Salvador,
que é
o Messias Senhor.»
(Lc 2,11)
Claro que isso está em São
Lucas. Não podemos é esquecer que o Evangelho de São Lucas foi escrito
depois da Carta de São Paulo a Tito; e que o próprio Lucas não começou a
escrever o Evangelho pela narrativa da infância de Jesus, mas pelo
núcleo da sua Paixão-Morte-Ressurreição.
Ou seja: o anjo diz aos
pastores que aquele menino será o Salvador de todo o povo, porque
um anjo, no Calvário, já tinha
dito à
comunidade apostólica, de quem Lucas recebeu a Boa-Nova dos seus dois
livros:
«Buscais a Jesus de Nazaré, o Crucificado?
Ressuscitou; não está aqui.»
(Mc 16,6)
Mais
concretamente: foi a ressurreição que levou a primeira comunidade
cristã, por mediação de Paulo, a ver e aceitar Jesus de Nazaré, nascido
trinta e tal anos antes em Belém, como
Filho de Deus,
Salvador
e
Senhor.
A narrativa da infância – que, aliás, só encontramos nos Evangelhos de
Lucas e de Mateus – é um corolário ou conclusão do Evangelho e não uma
introdução. Com ela, os dois evangelistas pretendem dizer, com efeitos
retroactivos: este Menino foi aquele Homem que o centurião, no Calvário,
reconheceu como
«Filho de
Deus»
(ver Mc 15,39; Mt 27,54) e a quem Paulo confessava, com a
comunidade de Filipos onde começou a evangelização da Europa:
«Jesus
Cristo é o Senhor!»
(Fl
2,11)
frei Lopes Morgado