Na
Ladainha tradicional, invocamos Nossa Senhora
como
Stella Matutina (Estrela da Manhã).
Na Liturgia, uma Antífona
saúda-a:
Ave, maris stella (Ave, estrela do mar).
Na Evangelii
Nuntiandi, em 1975,
Paulo VI chamou-lhe Estrela da Evangelização;
e João Paulo II tem-lhe chamado
Estrela da Nova Evangelização.
Ou
seja: na liturgia, na teologia, na pastoral e no devocionário popular da
Igreja, Maria é frequentemente expressa em termos relacionados com a
luz. Nada mais natural, sendo ela a «mãe de Jesus Cristo, Luz do Mundo –
e, portanto, a “Estrela da Manhã” que prepara a vinda do “Sol da
Justiça”.» (João Paulo II,
Alocução de 23 de Dezembro de 1982). Será neste sentido que, já no
século XVI, Gil Vicente lhe chamava «Alva do dia com mais
resplandor»; e Diogo Bernardes, «Estrela fulgente / cada vez
maior».
Claro
que esta linguagem metafórica não pode ser levada à letra. Caso
contrário, o facto de a
estrela
ser um
astro com luz própria, a
estrela-do-mar
(assim com hífen) ser um molusco, e tanto
estrela da
manhã
como
estrela de alva
serem
nomes vulgares do planeta Vénus – poderia causar embaraços tanto a
teólogos como a poetas. Embora aos poetas seja concedida maior liberdade
de linguagem que aos teólogos (e, atrevo-me a dizer entre parênteses,
com maior eficácia quando se trata de aceder ao mistério).
Continuando no campo das metáforas, para os teólogos e pastores seria
mais pacífico chamar a Maria
Lua,
pois este planeta apenas reflecte a luz do Sol, ilumina a Terra durante
a noite e, segundo a crença popular tradicional, tem influência sobre a
vida da natureza e dos animais... E Maria reflecte a luz que lhe vem de
Cristo, como sua primeira discípula, orienta a Humanidade nas noites do
descaminho ou da descrença e continua a exercer uma influência
bem-fazeja sobre nós com o seu modelo e protecção.
1.
NA BÍBLIA, A FIGURA DE MARIA
CAMINHA COM
A DO MESSIAS, SEU FILHO
Certamente não por acaso, o
Apocalipse
também nos apresenta a imagem de
«uma Mulher
vestida de Sol, com a Lua debaixo dos pés e com uma coroa de doze
estrelas na cabeça»
(Ap 12,1). Mas o curioso é que esse texto faz ponte com o do
Génesis 3,15
iluminando o seu sentido e permitindo-nos acompanhar o percurso da
revelação de Deus acerca de Maria na sua relação com Jesus e connosco,
de uma ponta à outra da Bíblia.
Em
Gn 3,15
(chamado proto-evangelho) Deus anuncia que a descendência da mulher
caída em tentação há-de vencer a descendente da serpente do mal, que a
tentou:
«Farei
reinar a inimizade entre ti e a mulher,
entre a
tua descendência e a dela.
Esta
esmagar-te-á a cabeça
e tu
tentarás mordê-la no calcanhar.»
A
partir daí, o ser humano espreita e espera, por entre os vários
lampejos, a configuração dessa mulher e de seu filho. E, nos acenos
acerca da promessa do Messias, vai pressentindo o perfil da sua mãe. Ou
seja: a figura da Virgem Maria, na Bíblia, vai crescendo com a figura do
Messias, o seu filho Jesus.
2.1.
Do proto-evangelho, aos Evangelhos
Refiro
apenas os textos, na sequência com que aparecem na Bíblia, com uma
pequena ligação entre eles para nos apercebermos da unidade e da
progressividade da revelação de deus acerca do tema:
::
Diz
Isaías 7,14:
«a
jovem está grávida e vai dar à luz um filho,
e há-de
pôr-lhe o nome de
Emanuel.»
(ver
Mq 5,2-3).
Para o
Primeiro Isaías, aquela jovem podia ser a mulher do próprio rei Ezequias,
que se tinha aliado ao imperador da Assíria com medo de Damasco e da
Samaria: pelo profeta, Deus queria dizer-lhe que não precisava de se
aliar a reis pagãos, dando-lhe este sinal de fraqueza como prova de amor
ao seu povo contra todos os reis estrangeiros.
Seis
séculos depois, o evangelista
Mateus
aplica o texto de Isaías à mãe de Jesus, dando-lhe uma explicação que a
fase de “cumprimento” da História da Salvação, 40 anos depois da
ressurreição de Cristo, lhe permitia. A propósito da anunciação do anjo
a José, acerca da concepção de Maria, uma virgem com quem ele tinha
«desposado» (Lc 1,27), diz Mateus:
«Tudo
isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito pelo profeta:
“Eis
que a virgem
conceberá e dará à luz um filho; e hão-de chamá-lo Emanuel”,
que quer dizer: Deus connosco.»
(Mt
1, 22-23).
::
Isaías
também falava de um “servo de Javé”, que sofre por todo o povo;
por sua vez, em
Lamentações 1,1.8.15
uma Filha de Sião ou de Judá
sobressai entre os humildes e os pobres do Senhor, que dele
esperam e recebem a salvação:
«O
Senhor dispersou todos os meus guerreiros
que
viviam aqui comigo.
Convocou contra mim um exército,
a fim
de abater os meus soldados.
O
Senhor pisou, como num lagar,
a
virgem filha de Judá.»
(v.15)
::
Gálatas 4,4: Este é o
texto mais antigo do Novo Testamento, sobre Maria mãe de Jesus. Não
refere o seu nome, nem precisa, pois ele fica bem esclarecido pela acção
do filho da mulher, que é Filho de Deus:
«Quando chegou a plenitude do tempo,
Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob
o domínio da Lei, para resgatar os que se encontravam sob o domínio da
Lei, a fim de obtermos a adopção de filhos.»
2.2.
Maria virgem-mãe e o seu filho Jesus
::
Lucas 1,26-38: é
o texto da
anunciação
do anjo Gabriel,
enviado por Deus à virgem Maria:
«Hás-de conceber no teu seio um filho, ao qual porás o nome de
Jesus.»
Esclarecida a sua fé, «Maria disse, então: Eis a serva do Senhor,
faça-se em mim segundo a tua palavra.»
Neste momento, segundo João
1,14
«o Verbo
fez-se Homem / e veio habitar connosco»
embora ainda no seio de
Maria.
::
Lucas 1,39-56: A partir
daí, o ser de Maria só tem sentido enquanto vive para o seu filho Jesus
e para os filhos de Deus no seu Filho. E começa logo a cumpri-lo:
«Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se à pressa
para
a montanha, a uma cidade da Judeia.
Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel.»
Descubra o resto lendo todo
o texto da
visitação...
::
Lucas 2,6-7: da
narrativa do
nascimento
de Jesus, destaca-se
este passo em que se refere a mãe e o filho:
«E
completaram-se os dias de ela dar à luz
e
teve o seu filho primogénito,
que
envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para
eles na hospedaria.
[...]
Hoje,
na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor. »
(vv.6-7.11)
Agora, segundo o autor da
Carta aos Hebreus, a vocação da Mãe e do Filho é fazer a vontade do Pai
(Heb 10,5-9). E João diz que essa vontade do Pai, ao enviar-nos o
seu Filho ao mundo por amor, é crermos no Filho e, por Ele, nos
salvarmos e termos a vida eterna (Jo 3,16-17).
::
Lucas 2,21-40:
Identificadas com a sua vocação de mãe e de crente de Israel,
Maria leva JESUS ao Templo para
ser
circuncidado e
apresentado
ao Senhor, quase
como pretexto ou contexto para ela e nós ouvirmos proclamar que no seu
Filho chegava a salvação que Deus ofereceu
«a
todos os povos,
Luz
para se revelar às nações
e
glória de Israel, seu povo.»
(vv.30-32)
E assim se cumpria o que
Zacarias cantara no nascimento de seu filho, João Baptista:
«Bendito o Senhor Deus de Israel,
que
visitou e redimiu o seu povo
e nos
deu um Salvador poderoso
na
casa de David, seu servo,
conforme prometeu pela boca dos seus santos,
os
profetas dos tempos antigos.»
(Lc
1,68-70).
Fechava-se, assim, o arco
da revelação acerca de Jesus
e sua mãe, e eram definidos os contornos fundamentais da sua acção
salvadora, já anunciada no nome e na acção de
Javé (Ex 3,11-15) e
de Josué (Js 1,8-11) em
favor de Israel, e manifestada a José antes do nascimento (Mt 1,18-25).
Isso mesmo é logo
confirmado em Mt 2,13-23, na matança dos inocentes de Belém e da
fuga da Sagrada Família para o Egipto. Trata-se de uma narrativa escrita
sobre a matriz do Êxodo, num género literário muito ao jeito da
época e do meio:
Jesus (novo
Moisés/início de novo povo),
perseguido por Herodes (novo
faraó),
é libertado e reconduzido à
sua terra (novo êxodo),
sem evitar a morte de
inocentes (novos primogénitos).
2.3.
Maria, com Jesus, ao encontro
dos outros
irmãos de seu Filho, para salvá-los
Com a presença e acção de
Jesus chegava-se à plenitude dos tempos e iniciava-se um tempo novo na
História da revelação de Deus acerca de si mesmo, expressa na Bíblia, e
da salvação da humanidade, prometida em Gn 3,15. O autor da Carta aos
Hebreus exprime-o assim:
«Muitas vezes e de muitos modos,
falou
Deus aos nossos pais, nos tempos antigos,
por
meio dos profetas.
Nestes dias, que são os últimos,
Deus
falou-nos por meio do Filho,
a
quem constituiu herdeiro de todas as coisas,
e por
quem fez o mundo.»
(Heb 1,1-2)
Pela actividade de Jesus
vai passando também, tão presente e discreta como antes, a figura de sua
mãe. Marcos dá-nos a reacção dos conterrâneos de Jesus, quando o ouviram
pregar na sinagoga de Nazaré:
«Não é Ele
o carpinteiro, o filho de Maria...?»
(Mc 6,3).
Compare este texto com Mt 13,53-58 e Lc 4,16-30 e verá que só em Marcos
Jesus é chamado expressamente “Filho de Maria”.
Pode ler, agora, os textos
dos Evangelhos citados até aqui, e os outros a seguir, em que Maria é
referida
ao lado do filho.
Em cada texto, observe: as
atitudes
de Maria; as
lições
que ela me dá.
Eis os
outros textos:
Lc 2,41-52:
Jesus, de 12 anos, vai com os pais ao Templo;
Jo 2,1-12:
Jesus
e sua mãe numas bodas em Caná;
Lc 8,16-21:
“Minha mãe e meus irmãos são...”;
Jo 19,25-30:
“Junto à cruz de Jesus estava Maria, sua mãe...”;
Act 1,12-14; 2,1-4:
Maria,
unida aos Apóstolos e outros discípulos em oração, no Cenáculo, aguarda
o Espírito Santo.
_________
Para estudo
e celebração em grupo:
No
princípio:
::
Leitura:Act
1,12-14. Silêncio.
::
Refrão:
Envia, Senhor, o teu Espírito; ou outro.
::
Oração:
Animador, Coro 1, Coro 2, Todos
A/
Divino Espírito Santo,
Tu
revelaste a vontade salvífica de Deus
ao povo de Israel, no
interior da sua História,
por obras e palavras, sinais e prodígios.
T/
Através dos patriarcas, reis, sábios e profetas,
conduziste a Humanidade até ao Messias.
A/ Na plenitude dos tempos,
deste
vida a Jesus no seio de Maria,
fizeste
João Baptista saltar no seio de Isabel,
inspiraste o canto de Maria na Visitação
e
alegraste os velhinhos Simeão e Ana.
1/
Desceste sobre Jesus no Baptismo
e ungiste-O para a
Missão;
e, pela sua ressurreição
dos mortos,
deste plena realização
e sentido
ao
Antigo Testamento.
2/
Encheste do teu Fogo e da tua Força Maria,
os
Apóstolos e os primeiros cristãos,
para
testemunharem Jesus até ao martírio.
Inspiraste os Evangelistas e Paulo,
e os
outros Escritores sagrados da Nova Aliança
para
narrarem fielmente o que Jesus fez e disse,
a fim de
nós termos a vida e a salvação
pela fé
no seu nome.
A/ Vem agora sobre nós!
T/
Ensina-nos a escutar esta Palavra com fé,
a
acolhê-la no coração com amor,
a
procurar nela a razão da nossa esperança
e a
vivê-la cada dia.
Amen.
::
Refrão: Envia,
Senhor, o teu Espírito.
::
Reflexão:
sublinhar a Palavra lida.
::
Estudo e reflexão
do tema.
No Final:
“MAGNIFICAT”
(frei Acílio Mendes)
– Lc 1,46-55
1.
A minha alma canta jubilosa e alegra-se em Deus meu Salvador.
Porque Ele olha a sua
humilde serva. Grandes maravilhas fez em mim.
Refrão:
Ave, Maria,
cheia de graça,
o Senhor está contigo.
(bis)
Ó Maria.
2.
Sobre todos aqueles que O
temem Deus estende sempre o seu amor.
Manifesta a força do seu
braço, dispersa os soberbos, com poder.
3.
Com ternura e misericórdia
Deus cuida o seu povo, Israel,
recordando a promessa
feita a Abraão e a todo o que tem fé.
Pai Nosso de
Maria
P/
AVE, MARIA,
«cheia de graça»: sendo Mãe de Jesus,
ficaste a conhecer melhor o
Pai do Céu,
pois o teu Filho era o Filho
de Deus.
-
Dá-nos a tua TERNURA, / e
ensina-nos a rezar o Pai-Nosso.
R/
Pai nosso,
que estais no Céu!
P/
SANTA MARIA,
Nossa Senhora da Alegria:
tu cantaste ao Todo-poderoso
para agradecer as coisas
grandes que Ele tinha feito em ti,
e disseste que o seu nome é
Santo.
-
Dá-nos a tua GRATIDÃO, / e
ensina-nos a rezar o Pai-Nosso.
R/
Pai,
santificado seja o vosso nome!
P/
AVE, MARIA, Mãe
de Cristo Rei e Senhor do Universo:
por ti veio ao mundo o seu
Reino de verdade e de vida,
de santidade e de graça, de
justiça, de amor e de paz.
-
Dá-nos a tua ESPERANÇA, / e
ensina-nos a rezar o Pai-Nosso.
R/
Pai, venha
a nós o vosso Reino!
P/
SANTA MARIA, Mãe
de Deus e nossa Mãe,
que respondeste ao anjo
com total confiança na
vontade de Deus:
«Eis a serva do Senhor,
faça-se em mim segundo a tua
palavra»...
-
Dá-nos a tua FÉ, / e
ensina-nos rezar o Pai-Nosso.
R/
Pai, seja
feita a vossa vontade
assim
na terra como no Céu.
P/
AVE, MARIA, Arca
do Pão da Vida:
tu disseste que Deus
alimenta os famintos
e despede os ricos sem nada.
Hoje há famintos de pão e de
amor,
e pessoas açambarcadoras e
egoístas.
-
Dá-nos a tua SOLIDARIEDADE,
/ e ensina-nos a rezar o Pai-Nosso.
R/
Pai, o pão
nosso de cada dia nos dai hoje.
P/
SANTA MARIA,
Corredentora da Humanidade:
ao ver o teu Filho morrer na
cruz,
não pediste vingança, mas
disseste com Ele:
«Pai, perdoa-lhes, porque
não sabem o que fazem.»
-
Dá-nos a tua COMPAIXÃO, / e
ensina-nos a rezar o Pai-Nosso.
R/
Pai,
perdoai-nos as nossas ofensas,
assim
como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.
P/
AVE, MARIA,
santíssima Virgem e Mãe:
ao anjo, que te anunciou um
filho,
perguntaste: «Como será
isso...?»
Mas não caíste na tentação
de duvidar,
nem pediste provas, como
Zacarias.
-
Dá-nos a tua FIDELIDADE, / e
ensina-nos rezar o Pai-Nosso.
R/
Pai, não
nos deixeis cair em tentação.
P/
SANTA MARIA, Mãe
de Misericórdia:
embora livre de todo o
pecado,
viveste, como nós, rodeada
pelo mal
enquanto o teu Filho, o
Salvador,
libertava as pessoas do
Maligno.
-
Dá-nos a tua FORÇA, / e
ensina-nos a rezar o Pai-Nosso:
R/
Pai,
livrai-nos do mal.
frei Lopes Morgado,
col. JUBILEU 2000, nº 7, pp.
30-31
Difusora Bíblica, Fátima