Num
artigo anterior, comparei a Bíblia a uma “biblioteca”,
onde os
vários livros que a integram estão organizados
em
“estantes” ou grupos, segundo a sua linguagem e o seu
conteúdo.
Um desses grupos é o dos livros “proféticos”.
Dos
profetas havemos de falar noutra ocasião;
agora
quero apenas lembrar que, desse grupo, faz parte um
subgrupo
de livros ou textos a que chamamos “apocalípticos”.
A palavra
“apocalipse”
Para muitos, a palavra
apocalipse é sinónimo de
ameaças e castigos de Deus sobre os pecadores. Mas a palavra significa
revelação. É um género de
literatura entroncado na linguagem profética e
escatológica (acerca das realidades últimas). Surge em tempo de crise
provocada por forças políticas ou religiosas instaladas, como forma de
resistência, de contestação e de luta contra elas. Quando a comunidade
de Israel era dominada externamente por povos estrangeiros que lhe
pretendiam impor o culto aos ídolos pagãos (conforme é narrado nos
livros dos Macabeus), os escritores “apocalípticos”, como pequeno
“resto” de resistentes, mantiveram viva a esperança num Deus
transcendente, no seu Reino universal, na gratuidade da salvação e na
presença do Espírito profético no meio do povo eleito.
Apocalipses
do Antigo Testamento
Com a sua
riqueza simbólica indecifrável para os não iniciados, esta literatura
grita uma
esperança
contra toda a evidência, apoiada nas intervenções de Deus em favor do
seu povo no passado. Ou seja: “revela”, por trás do véu da realidade, a
presença
de Deus na História comandando-a e garantindo o
triunfo
do seu projecto a partir de uma realidade nova que já começa a despertar
no presente. Proclama que os pretensos poderosos não passam de monstros
com pés de barro, e por isso serão derrubados (ver Dn 2,31-45). Deste
modo, funciona como tubo de escape e como vingança passiva sobre o
opressor. Passiva, porque, em vez de pregar a revolução social e
política, anuncia o
valor redentor
do sofrimento,
que se torna também revolucionário sem alienar. Os Cânticos do Servo
sofredor, do Segundo Isaías, estão nesta linha (ver Is 42,1-4; 49,1-6;
50,4-11; 52,13-53,12).
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Ler alguns desses
textos do Antigo Testamento:
Isaías 24-27, Zacarias 12-14, Ezequiel 38-39, Joel e, sobretudo, Daniel
7-14, que pode ser considerado o Apocalipse do AT.
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Ler também as notas respectivas,
na Bíblia.
Apocalipses
do Novo Testamento
Outro momento
de crise paralelo, no Novo Testamento,
foi a destruição do templo de Jerusalém pelos romanos, no ano 70.
Parecia «o princípio do fim», anunciado por Daniel, pois
seguiram-se muitas perseguições contra os grupos judeo-cristãos. Por
outro lado, os imperadores de Roma começaram a atribuir-se o título de
deuses, querendo ser adorados, nascendo daí novo pretexto para uma
perseguição político-religiosa dos cristãos, fiéis servidores e
adoradores de um único Senhor – Jesus Cristo. Neste contexto, nasce o
Apocalipse, atribuído a São João evangelista.
No dia do Senhor, «João,
irmão e companheiro na aflição» (Ap 1, 9), anuncia aos cristãos que
Jesus Cristo, o
Cordeiro imolado pelos poderes políticos e religiosos do
seu tempo, venceu a morte e há-de vencer
todas as forças que agora os oprimem; aliás, os que
derramarem o seu sangue por Ele, hão-de, com Ele, cantar o cântico novo
dos eleitos. No meio disto, surge a figura de uma
Mulher
grávida, a quem um Dragão
pretende devorar o filho que está para nascer; mas
«o
filho
foi-lhe arrebatado para junto de Deus e do seu trono. E a
Mulher fugiu para o deserto
[...]. Depois travou-se uma batalha no céu:
Miguel
e os seus anjos declararam guerra ao
Dragão. O
Dragão e os seus anjos
combateram, mas não resistiram. [...] Então ouvi uma voz forte no
céu que aclamava:
“Eis que chegou o tempo
da salvação,
da força e da realeza do
nosso Deus
e do poder do seu
Cristo!» (Ap
12,3-10)
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Além destes, há outros textos apocalípticos do NT, que
pode ir lendo: Marcos 13; Mateus 24-25; Lc 17,22-37 e 25;5-28; 1
Tessalonicenses 4,13-18; 1 Coríntios 7,29.
Maria, a
Mulher do Apocalipse?
Embora a Mulher fosse um
símbolo da Igreja então perseguida, o facto de aparecer «vestida de
sol, com a Lua debaixo dos pés e com uma coroa de doze estrelas na
cabeça» (Ap 12,1), foi logo vista pelos Padres da Igreja como
figura de Maria, tal como no-la
mostram muitas imagens da Imaculada Conceição.
Daí, também, que a
3ª parte do “segredo” de Fátima (em
que se fala das perseguições à Igreja e da intervenção de Maria e de um
anjo) tenha sido interpretada pelo cardeal Ratzinger à luz do
Apocalipse. Diz ele:
«O
anjo com a espada de
fogo à esquerda da Mãe de Deus lembra imagens
análogas do Apocalipse: ele
representa a ameaça do juízo que pende sobre o mundo. [...] Em seguida,
a visão mostra a força que se contrapõe ao poder da destruição: o brilho
da Mãe de Deus e, de
algum modo proveniente do mesmo, o apelo à penitência. Deste modo, é
sublinhada a importância da
liberdade do homem: o futuro não está de forma alguma determinado
imutavelmente [...]. A visão fala sobretudo de perigos e do caminho para
salvar-se deles.»
Falando das várias
pessoas martirizadas, diz:
«Deste modo, o caminho da
Igreja é descrito como uma Via Sacra, como um caminho num tempo de
violência, destruições e perseguições. Nesta imagem, pode-se ver
representada a história dum século inteiro. [...] O facto de ter havido
lá uma “mão materna” que desviou a bala mortífera – recorda, citando
palavras do Papa a 13 de Maio de 1994 – demonstra uma vez mais que não
existe um destino imutável, que a fé e a oração são forças que podem
influir na História e que, em última análise, a oração é mais forte que
as balas, a fé mais poderosa que os exércitos.»
A concluir,
refere-se às palavras
“O meu
Imaculado Coração triunfará”
e pergunta:
«Que significa isto?
Significa que este Coração aberto a
Deus, purificado pela contemplação de Deus, é mais forte que as
pistolas ou outras armas de qualquer espécie. O
fiat de Maria, a palavra do
seu Coração, mudou a História do mundo, porque introduziu neste mundo o
Salvador [...]. Que o maligno tem
poder neste mundo, vemo-lo e experimentamo-lo continuamente; tem poder,
porque a nossa liberdade se deixa continuamente desviar de Deus. Mas,
desde que Deus passou a ter um coração humano e deste modo orientou a
liberdade do homem para o bem, para Deus, a liberdade para o mal deixou
de ter a última palavra. O que vale desde então, está expresso nesta
frase: “No mundo tereis tribulações; mas, tende confiança: Eu já
venci o mundo!” (Jo 16,33). A mensagem de Fátima convida a confiar
nesta promessa.»
O Vitral de Serge Nouailhac
Sobre este “segredo” foi inaugurado um
vitral de Serge Nouailhac, na capela do Colégio de São
Miguel, em Fátima, a que a revista Bíblica já se referiu numa
reportagem pormenorizadamente ilustrada. Esse vitral é uma boa ajuda
para interpretar, dentro do espírito do Apocalipse, aquela revelação que
muitos supunham catastrófica ou fatalista (daí tanto “desencanto”
entre os caçadores de desgraças), mas
que, segundo o mesmo Ratzinger, «termina numa imagem de
esperança: nenhum sofrimento é vão, e precisamente uma Igreja sofredora,
uma Igreja dos mártires torna-se sinal indicador para o homem na sua
busca de Deus». Como nos livros apocalípticos da Bíblia.
frei Lopes Morgado